
Não me interpretem mal, o sol brilha até com excesso de intensidade e vemos pessoas felizes ou em boa disposição; abrimos as redes sociais e chegam numerosos ecos de vidas satisfeitas e preenchidas; pelas televisões encontramos gente cheia de certezas e os políticos falam com confiança sobre o futuro, que tratam por tu. No entanto, por todo o lado há certos sinais ligeiros de inquietação, como se estivéssemos dentro de um romance negro, um mau romance, digo eu, pois o autor não soube colocar na paisagem brumas perturbadoras, nem o barulho alternado de remadores que se aproximam por um mar invisível, nem vozes sussurradas capazes de despertar receios. Esta história mal contada tem apenas alguns sinais ambíguos de pessoas desconhecidas que nos aparecem de súbito à frente, aparentemente desesperadas ou já sem fôlego; ou aqueles fantasmas que se arrastam sem destino pelos centros comerciais em busca do ar condicionado; ou aqueles velhos muito pobres, tão pobres que nunca fazem de pedintes. Por todo o lado vemos estes pequenos sinais que já não são notícia, da empresa em dificuldades que provavelmente terá de fechar, das vidas gastas, dos alucinados que se põem aos gritos na via pública, enquanto o mundo satisfeito mergulha nas importantes discussões da influência e no triunfo da futilidade.

Estranha mania esta, muito nossa, de só vermos o alto quanto mais em baixo nos encontramos . Como se para tocarmos no cume necessitasse-mos do embalo do precipício. O Sol radiante, torna – se com o tempo ofuscante, entendiante. Necessitamos da trovoada, da noite cerrada para voltarmos a sentir a falta. A vida fácil entorpece, faz coxear a vontade. Olho, impassível, o horizonte em busca do tonitruante vulcão. Apenas quando só, e à beira do abismo, sinto a bicada da vida.
“Apenas quando só, e à beira do abismo, sinto a bicada da vida.”
… ou, lhe nascem asas …
(necessitássemos)
Lindíssimo.
Os sinais de inquietação não são ligeiros…
We’ll Always Have Paris
Isabel
Pois, a Divindade não ouviu a nossa prece e estamos a viver tempos interessantes.
Nada de novo claro – é , simplesmente, a História tal como sempre foi.
O problema é que esse tempo histórico “interessante” nos é coevo…
JSP
Com tanta coisa que se descobre diariamente, por que será que tenho a sensação que desconheço a história como ela é e talvez vivamos dentro da ficção.