Muitos e bons livros


Pedro Correia,

 

Segunda incursão à Feira do Livro de Lisboa – com muita oferta mas também muita procura. Repete-se o ritual de todos os anos: é uma iniciativa que serve de pretexto para passeios em família nas alamedas do parque Eduardo VII enquanto espreitamos os títulos nos pavilhões, reencontramos velhos conhecidos e nos cruzamos com gente famosa – da literatura e não só.

É um acontecimento cultural e social que se renova com regularidade cíclica na capital – e que, lamentavelmente, este ano não ocorreu no Porto, após décadas de existência da feira, sem que isso tenha causado sequer um leve tremor de indignação no pequeno núcleo de irredutíveis de Rui Rio, muito influente em certos circuitos de opinião, escrita e falada.

E é sobretudo uma excelente oportunidade para encontrar bons saldos (que não faltam, por exemplo, na Relógio d’Água, muito procurada nestes dias por leitores de todas as idades).

Ontem trouxe da feira dois livros: Confusão de Sentimentos (Verwirrung der Gerfühle), uma colectânea de contos de Stefan Zweig, com a marca de qualidade da editora Antígona, e O Intruso (Intruder in the Dust), um romance de William Faulkner ainda pré-Nobel da Literatura, relançado em Portugal há dois anos pela Bertrand. Duas obras que se arriscavam a ser atiradas para os famigerados “fundos de armazém” agora tão em voga – ou mesmo a ser destruídas, como tantas vezes vai acontecendo quando decorre um certo prazo, perante a generalizada indiferença das sumidades culturais da nossa praça.

Confesso que me faz impressão esta espécie de recriação ao vivo do cenário de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury – um dos livros da minha vida. Quem nunca o leu, é capaz de o encontrar na feira. Talvez também em saldo, talvez ainda a tempo.

10 comentários em “Muitos e bons livros”

  1. Segundo consta, foi esse o destino que os stocks da antiga colecção de ficção científica da Caminho (e presumivelmente também da policial) conheceram quando a Leya tomou conta da coisa.

    Ainda voltarei à feira este ano, mas sem grandes perspectivas. Fui com uma lista de compras diminuta – dois livros, mais algumas raridades de banda desenhada e sobreviventes das tais colecções caso nelas tropeçasse em algum alfarrabista. Nestes, não tive sorte; nos outros, os preços continuam disparatados (leia-se, acima dos 12 euros).

    (Quanto ao Porto… pois. Convém lembrar que, apesar de toda a questão “cultural”, a feira é um acontecimento comercial, não é? 🙂 )

    1. É verdade que em muitos casos (penso que na maioria) os livros estão apenas com 20% de desconto, mas se virmos os livros do dia ou, então, se fizermos uma compra mais alargada conseguem-se boas compras. Eu, por exemplo, adquiri o «Máquina de Fazer Espanhóis» por 10€, tendo em conta que o livro custa 17€… Mas reconheço, a excepção deveria ser a regra. Eu diria que o problema está na falta de mercado. Vi muita gente, mas poucas compras. E não me venham falar de crise, porque eu ganho menos 20% do que em 2011, paguei muito mais de IRS e comprei vários livros. A diferença está nas opções, não existe ainda uma cultura do livro enraizada na sociedade portuguesa. Bem ou mal, preferem-se outras coisas.

      1. Tem muita razão naquilo que diz, Miguel. E no entanto, apesar da crise, tenho a convicção de que nunca se leu tanto em Portugal. Nos transportes públicos – e um pouco por toda a parte – vejo diariamente cada vez mais pessoas a ler.

    2. Há uma dimensão da feira ainda pouco desenvolvida, João, e que tem a ver com as novas tecnologias. Devia haver uma divulgação mais generalizada dos ‘livros do dia’, por exemplo. Mas, genericamente, esta parece-me uma das melhores edições da Feira. Embirro mesmo é com aqueles sensores que apitam por tudo e por nada nos ‘latifúndios’ da Leya e da Porto Editora. Quanto aos preços, há de tudo um pouco. Mas encontram-se livros muito bons a preços reduzidíssimos. E ainda fazemos uma boa acção ao comprá-los: evitamos que sejam incinerados.

      1. Eu não digo que não se encontrem livros a preços reduzidíssimos. Daí a serem os livros que eu quero ler é que vai um passo por vezes grande (e infelizmente as circunstâncias actuais obrigam-me a ser muito selectivo).

        Mas ainda vou lá esgaravatar um bocado – até porque nem vivo longe da coisa. Ao fim-de-semana é que é um inferno.

          1. Likewise, caríssimo. Deu trabalho, andar a revirar aquelas caixas! Ainda irei esgaravatar (verbo adequado) mais algumas vezes.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *