Mr. Lamb, I presume


Pedro Correia,

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Se há político que goza de “boa imprensa” em Portugal é o presidente da Região Autónoma dos Açores. Caso assim não fosse, Vasco Cordeiro teria recebido um ensurdecedor coro de críticas. Por ter praticado o acto político mais condenável desde que vivemos sob o signo da pandemia. Refiro-me à decisão de forçar todos os passageiros desembarcados no arquipélago a duas semanas de encerramento compulsivo num quarto de hotel escolhido pelo Governo regional.

Privação ilegal de liberdade, ferindo de modo chocante a Constituição da República. Ainda por cima discriminando cidadãos nacionais, pois a partir de 8 de Março o Executivo passou a financiar a quarentena apenas quando aplicada aos residentes habituais na Região. Decisão felizmente revertida graças à intervenção de uma juíza em funções no Tribunal Judicial de Ponta Delgada, que deferiu um pedido de habeas corpus interposto pelo advogado de um desses cidadãos.

Corajosa magistrada, corajoso advogado, corajoso cidadão. Nenhum se vergou à prepotência de Cordeiro.

 

“Uma vitória da cidadania”, lhe chamei aqui. Em contraste com o pesado silêncio do Presidente da República, tão loquaz noutras ocasiões, ou do seu representante nos Açores. E contrastando igualmente com o expectável silêncio do primeiro-ministro, correligionário do líder açoriano, e até dos próprios partidos da oposição – o que, tratando-se do PSD, também não surpreende.

No seu blogue, o constitucionalista Vital Moreira, insuspeito de antipatias políticas face ao líder socialista dos Açores, deixou claro o seu pensamento quanto à quarentena obrigatória num quarto de hotel transformado em cela prisional: «Tal medida, tomada ao abrigo da lei regional de protecção civil, traduz-se numa violação grosseira da liberdade pessoal, pelo que só poderia ser excepcionalmente tomada em regime de estado de sítio ou de estado de emergência, que só pode se declarado pelo PR, com aprovação da AR.»

 

Apesar disto, Vasco Cordeiro manteve a boa aura na generalidade da imprensa: a maioria dos órgãos de informação nem se referiu ao assunto. Na mesma linha, nem parecem estranhar que o líder açoriano deturpe com aparente indiferença e talvez até algum orgulho o nome da própria Região a que preside, trocando Açores por “Azores” no endereço electrónico oficial do Executivo. Como se governasse Porto Rico ou a Samoa Americana, em vez de uma parcela inalienável do Estado português.

Caso para alguém o interpelar nestes termos, quando o vir: «Mr. Lamb, I presume.» Ele certamente reagirá com uma sonora gargalhada. Isto anda tudo ligado, como dizia o outro.

36 comentários em “Mr. Lamb, I presume”

  1. Resta saber se durante aquele tempo tivesse chegado aos Açores uma família de pai mãe e filhos africanos negros —ou de outra maioria qualquer— se eles teriam sido fechados compulsivamente num hotel às suas próprias custas ou se no caso deles teria sido uma discriminação intolerável e podiam andar pela ilha livremente sem fazer quarentena obrigatória.

  2. Assino por baixo. Havia um DDT económico, agora há um DDT político. Eles comem tudo e não deixam nada!
    Cumps.

    1. Esta “violação grosseira da liberdade pessoal” (palavras de Vital Moreira) suscita indignação, Cristina: os tiques ditatoriais do Estado revelam-se com excessiva facilidade, a pretexto da pandemia.
      A par da docilidade de muita comunicação social, que passa ao lado desta e de outras questões, com vontade manifesta de não perturbar quem pastoreia a pátria, em qualquer das suas parcelas.

  3. Escreveu muito bem Vital Moreira que “[a] medida […] só poderia ser excepcionalmente tomada em regime de estado de sítio ou de estado de emergência, que só pode se declarado pelo PR, com aprovação da AR.”

    Só que, a meu ver, medidas análogas têm sido tomadas a torto e a direito, sem que Vital Moreira proteste. Ainda agora, no bairro da Jamaica (Seixal) foram compulsivamente encerrados três cafés, dessa forma se privando três famílias (as dos seus proprietários) do seu ganha-pão e do seu direito ao trabalho, sem que essas três famílias tivessem cometido qualquer crime ou delito que o justificasse. Foram tomadas medidas qua violaram os direitos constitucionais desses cidadãos, sem que haja qualquer estado de emergência, declarado pelo PR e sufragado pela AR, que o justificasse.

    (Muito bem fez a Espanha, que prolongou o seu estado de emergência para que o seu governo fosse autorizado a tomar medidas similarmente repressivas.)

      1. Já. Mediram-ma há duas horas atrás, à entrada do meu local de trabalho. Estava com uma temperatura muito saudável.

  4. “trocando Açores por “Azores” no endereço electrónico oficial do Executivo”

    Em abono da verdade, a coisa não foi bem assim. O registo do referido domínio é que não aceita o caracter “ç”. O mais “próximo” que se arranjaria seria “Acores”. No caso em apreço, a emenda é um tudo-nada preferível ao soneto.

    1. Raios, o que fará então o Governo de Espanha se o “registo do referido domínio” não permitir o til do nome castelhano do país? Arranja outra consoante, mais adequada ao tom “amaricano”?

          1. Quase que aposto que à falta do nh espanhol os espanhóis mais depressa usariam o nh italiano e francês (o gn) do que o nh galego e português

      1. É, o caracter “ñ” também não tem lugar nos domínios ASCII.
        A sorte de nuestros hermanos é que a referência à pátria em nomes de domínio é feita através do código do país: “.es”

  5. Venda-se pois o Açores ou o Azores por bom preço!!!,
    ninguém percebe nada do que as açorianas dizem…

  6. A imprensa quer saber tanto da liberdade individual, dos direitos fundamentais e da Constituição quanto eu quero saber de brócolos. A menos que a decisão abusiva venha de gente malquista ou o visado, a quem a liberdade foi restringida, dê azo a feroz comoção da marabunta. Sem estrilho poucos querem saber do que é importante, de coisas obtusas como a dignidade humana.

      1. Pronto, agora é moda, os homens acusarem as mulheres de não saberem cozinhar. Viveram séculos sem entrar na cozinha e agora é isto. Eheheh.

        Fique sabendo que gosto de brócolos. A palavra saiu-me assim de chofre, sem pensar, podia ter dito repolho ou couve-flor. Se fossemos rigorosos, devia ter escrito ‘quanto eu quero saber de rabanetes’. A esses não acho mesmo piada.

          1. Os rabanetes sabem invariavelmente a terra, por mais que sejam lavados.

            Não desgosto de rúcula apesar de parecer mais áspera. Gosto de todo tipo de alface e de misturar com outras coisas, como tomate (cherry dá menos trabalho e é sempre bom), cenoura, cebola, azeitonas e o indispensável (além do azeite) vinagre (balsâmico de preferência). E uns pedacitos de noz e de queijo também não calham nada mal.

      1. Brócolos e cogumelos e pedaços de cenoura e frango salteado com massa de ovo – tudo cozinhado em chama alta no wok, à moda oriental. Um almoço fácil, barato e sempre apetecível.

          1. Lá vou eu buscar o bloco de notas. Agora não faço mais nada.

            Para que fique registado gosto de brócolos e de um simples arroz de brócolos.

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