
Nunca fui grande fã de remakes. Há filmes que pela sua excelência ganharam direito a brilhar no panteão das melhores obras de arte da chamada sétima. São clássicos e inimitáveis, por todas as razões cinematográficas de que me consigo lembrar.
Depois, numa tentativa de explorar o filão, presenteiam-nos com sequelas e spin-offs. Aí já não sou nem posso ser inflexível, porque muitas das ditas sequelas e spin-offs superaram o filme original sem o descaracterizar, tornando-se por mérito próprio obras-primas.
Nunca fui grande fã de remakes, mas sou fã de Agatha Christie e creio ter visto tudo, ou quase tudo, o que foi adaptado ao grande e pequeno ecrã e alguma coisa do teatro.
Manifestei o meu desagrado e alguma indignação pela (pen)última incursão nos assassínios da grande escritora quando vi “Um Crime no Expresso do Oriente” de 2017, realizado por Kenneth Branagh com um elenco de luxo. Era pobre, mal contado, histérico e um tanto ou quanto canibalizado se tivermos em conta o livro.
Calhou esta semana ter “agendado” Belfast do mesmo realizador e ter ficado agradavelmente surpreendida pela doçura com que nos foi contada uma história de violência.
Daí a pegar no novíssimo “Morte no Nilo”, foi um estalar de dedos. Parti para a visualização com a firme ideia de que não iria gostar, porque muitas destas produções recentes de remakes são manipuladas para preencher quotas e bajular hashtags. Elenco não tão luxuoso como no primeiro filme, mas que deu conta do recado. A história foi bem contada, as quotas habilmente preenchidas e os twists até funcionaram. A paisagem ajuda bastante. A fotografia é magnífica.
Olha… gostei.

Tem muita razão, Belfast é um filme doce sobre uma época conturbada. Gostei dele também por isso mesmo. Mas há quem lho aponte como defeito. O remake de “Morte no Nilo”, não vi.
Nunca será melhor do que o de John Guillermin, com o saudoso Peter Ustinov, mas é o melhor remake desse grande filme de 1978, Bea.
Esta foi nitidamente para meter lá uns quantos blacks. Os ingleses que no princípio do século viajavam para o Egipto eram, como se sabe, todos blacks vitorianos. E aposto que nenhum deles cometeu o crime.
Ora V. , nunca ouviu dizer que usar negro é usar elegância?
Mas olhe que não correu mal. Estavam lá os elementos do sucesso: a cor, a raça, a orientação, a luta de classes, a finança, etc. e podia ter sido uma chanchada para preencher quotas, mas creio que teve o resto que faltou à maioria. Foi explicado, bem dirigido e cenicamente espectacular. Creio que até correu muito bem.
“negro” parece-me um bocado condescendente, nunca sai normalmente. Se me parecesse bem juro que usaria. Acho que “black” tem mais pinta e se eu fosse black não me importava.
Além disso trabalho em Almada 😉
Então e eu que moro na Amadora, fonte de inspiração do Professor Chibanga?
África Minha… boa reflexão.
Na verdade, digo-lhe uma coisa com muita sinceridade. Custa-me usar estes termos, sejam eles quais forem, porque eles são quase todos indecentes. Numa situação normal, se não houvesse quotas com as pessoas esquisitamente a fazerem de si próprias num papel racial, nunca usaria termos generalistas, seria sempre aquela pessoa em particular e não a sua cor. A verdade é que estes remakes, em que se corrige ou tenta corrigir uma história, não deixam que a normalidade se instale.
Certo, mas veja, os escuros eram quase sempre os criados e isso tinha que mudar porque tinha conotaçõescom a escravatura. Presentemente a realidade não mudou grande coisa, isto de colorir por quotas é só fachada, porque na verdade somos coloridos, todos diferentes, mas todos iguais… lá bem no fundo continua tudo na mesma.
lá bem no fundo continua tudo na mesma.
Pois continua. Mas as razões disso não são raciais. Há discriminação até nos sotaques, nas roupas, em tudo. É um problema de habitus, no sentido sociológico dado por Pierre Bourdieu.
É , estilos de vida e trajectórias sociais. Faz sentido. Para mim, faz sentido. Para um Baka, por exemplo o que faz sentido para mim, não faz qualquer sentido para ele. A igualdade como a dizemos conhecer não lhe diz nada. E por aí fora…
Resto de bom domingo V.
Bem, lá no Congo terão as suas regras (devem ser muito justas), as nossas estão na Lei e a Lei é igual para todos (n’é??)
Bom final de Domingo, cara Dulce
Devem ser tão justas e legais para eles como as nossas , dura lex sed lex, são para nós.
Estilos de vida e trajectórias, V.
Obrigada.
Ainda bem que já fizeram o Senhor dos Anéis, se não o Frodo era preto.
Este Frodo também não chegou à Luz , coitado. Colou ali e escureceu. Eu também antes quereria ir até ao Restelo. São escolhas.