Morrer não é fácil


Pedro Correia,

 

«Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.»

 

Regressei a estes versos de Manuel António Pina ao saber, há escassos minutos, da sua morte. Sabia-o gravemente doente mas imaginei sempre que teria uma vez mais capacidade de resistir. Era há muito seu leitor, admirador dos seus textos inconfundíveis. Em verso e em prosa.

Calou-se a voz do Prémio Camões 2011, de um dos nossos melhores cronistas, de um escritor “condenado à poesia”, de um grande jornalista que foi capaz de manter através dos anos um olhar de espanto jovial e juvenil perante os pequenos milagres quotidianos sem calar palavras de indignação perante todas as formas de injustiça que ainda sufocam o ser humano.

Escrevi sobre ele em vida, escrevo estas apressadas linhas na hora da sua morte. E volto sempre, comovido, à sua poesia: «No quarto ao lado alguém / a noite passada morreu, / provavelmente eu. / Os livros, as flores / da mesa de cabeceira / conhecerão estas últimas coisas / em algum sítio da minha alma?»

8 comentários em “Morrer não é fácil”

  1. Os imortais não morrem, Pedro.

    E nós, leitores, estaremos sempre cá para sublinhá-lo. Em letras garrafais. Como convém numa terra que só a muito custo reconhece os melhores dos seus filhos. Duvido mesmo que os mereça.

    1. Era um homem multifacetado, em várias disciplinas da escrita. Da crónica ao ensaio, do conto infantil à poesia, sua grande paixão. Sem nunca ter deixado verdadeiramente de ser um jornalista. Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente e guardo uma excelente memória dele. Se algum defeito lhe pudéssemos apontar (se é que isso é defeito) seria o da extrema modéstia. Fizesse ele parte dos cenáculos lisboetas dos ‘maitres-a-penser’ e o seu percurso pessoal e profissional teria sido bem diferente. Mas ele optou por ser assim e julgo que era assim que se sentia bem.

    1. Também eu não, Ivone. Esta partida apanhou-me muito de surpresa, apesar de tudo. Senti-a como um murro no estômago. Eu era há muitos anos leitor fiel do Manuel António Pina. O bom cronista é aquele que te ensina muito sem parecer que o faz, como se apenas te sussurrasse umas frases sábias ao ouvido. Mas essas frases ficam-te para sempre. Aconteceu-me isso com ele, vezes sem conta.

  2. Qunado há umas semanas atrás, a Patrícia Reis, deixou no Delito de Opinião, um recado ao Manuel António Pina, fiquei de sobreaviso porque já há muito deixara de encontrar as suas crónicas no Jornal de Notícias.
    Soube-se hoje a razão da ausência.
    O Pedro Correia acaba de deixar o melhor elogio que se pode fazer ao Manuel António Pina: aquela modéstia que até doía.
    Assim um pouco como Carlos Paredes.
    Deixo um poema que Manuel António Pina escreveu na morte de Mário Cesariny de Vasconcelos:

    “Hoje soube-se uma coisa extraordinária,
    que morreste. Talvez já to tenham dito,
    embora o caso verdadeiramente não
    te diga respeito, e seja assunto nossos (sic), vivo.

    Algo, de facto, deve ter acontecido
    porque nada acontece, a não ser o costume,
    amor e estrume; quanto ao resto
    tudo prossegue de acordo com o Plano.

    Há apenas agora um buraco aqui,
    não sei onde, uma espécie de
    falta de alguma coisa insolente e amável,
    de qualquer modo, aliás, altamente improvável.

    Depois, de gato para baixo, mortos
    (lembrei-me disto de repente
    agora que voltaste malevolamente a ti)
    estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.”

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