Morrem sempre cedo de mais


Pedro Correia,

 

Amy Winehouse morreu com apenas 27 anos e quase ninguém pareceu surpreendido. Como se fosse algo inevitável: havia um funesto destino a marcar encontro com ela há muito tempo. Tinha um talento vocal ímpar – bem expresso nas interpretações que nos deixou em temas como Back to Black, Rehab, Love is a Losing Game e You know I’m no good – e, ao mesmo tempo, uma absoluta incapacidade para lidar com a fama.
Interrogo-me com frequência sobre a multidão de artistas do mundo da música, dos mais diversos géneros, que se afunda nos abismos do álcool, das drogas e da solidão. Abraçam o fracasso por absoluta incapacidade psicológica de encararem o êxito. Amy Winehouse é apenas a mais recente de uma longa lista que inclui Elvis Presley, John Coltrane, Billy Holiday, Elis Regina, Janis Joplin, ‘Mama’ Cass Elliot, Dalida, Keith Moon, Karen Carpenter, Charlie Parker, Dolores Duran, Judy Garland, Jim Morrison, Brian Jones, Chet Baker, Dinah Washington, Sid Vicious e Kurt Corbain. Entre tantos outros.

Desaparecidos na voragem do palco, entre mil focos de angústia nos bastidores. Tocados por uma irreprimível fúria de viver, morrem sempre cedo de mais. 

21 comentários em “Morrem sempre cedo de mais”

  1. Caro Pedro,
    Obrigado por este post… de facto, tal como as pessoas não conseguem conviver pacificamente com o êxito, cuja voragem os leva “sempre cedo demais”, a organização societária do mundo do espectáculo não sabe encontrar formas de ajudar os cidadãos, evitando as disfuncionalidades que, quase sempre, explora e apoia com o objectivo mercantil de estimular a sua produção… entretanto, fica a obra.
    Bem-haja!
    Um abraço.

  2. É curioso porque, tal como escreveu há uns dias, o sofrimento do escritor, que muitas vezes acaba na autodestruição, é causado sobretudo pela solidão e isolamento. Estes, por outro lado, não conseguem lidar com o apetite voraz da imprensa e dos milhões que os seguem. São opostos que convergem no talento, na dor e na insaciedade que nos deixam, quando partem assim tão cedo.

    1. Sem dúvida, Helena. Os escritores são atormentados por demónios interiores que muitas vezes nem conseguimos imaginar. Os músicos de palco são vítimas da engrenagem do ‘show business’, do excesso de exposição.

  3. É como se o talento fosse directamente proporcional à fragilidade emocional. Quando o talento é excepcional, este trágico desfecho é comum. Que pena.

    1. Não sucede, no entanto, na pintura, Ana. Ou na arquitectura. Claro que houve excepções: lembro-me do Van Gogh e do Modigliani, por exemplo. Mas em regra estas formas de expressão artística, em que o criador se preserva muito da exposição pública, permitem um grau de autopreservação muito maior.

  4. Elvis Presley passou por outro lado: por um manager que o agrilhoou a um contrato (verbal ou escrito, não é muito claro) e o tiranizou do início ao fim da carreira (Presley nunca foi autorizado a actuar fora do país porque o manager não podia sair e tinha medo que alguém pegasse nele). Havia fome de viver, mas também alguém que lhe tirou a vida. Os paralelos com alguns desses outros artistas são apenas tangenciais.

  5. Muitos nomes que, com algum mau gosto à mistura, passaram a ser conhecidos como a geração dos 27.
    Uma obsessão terrível pelo abismo, pela auto-destruição.
    Uma pena.

  6. É lamentável, que gente de tanto talento desapareça nestas circunstâncias (por vezes estranhas).
    Mas que o Senhor Todo Poderoso, os matenha muitos e bons anos há nossa espera (nossa refiro-me a todos nós, sem excepções).

  7. Caro Pedro,
    Fiz link.
    Obrigado… e obrigado a todos os comentadores que enriquecem a leitura.
    Um abraço a todos.

  8. O João André dá o exemplo de Elvis Presley, cujo manager o “agrilhoou a um contrato”, houve, portanto, alguém que lhe “tirou a vida”. Eu pergunto-me se alguém também “tirou a vida” a Amy Winehouse. Era evidente que ela tinha grandes problemas em aparecer em palco. A primeira vez que a vi, ainda não a conhecia, foi, salvo erro, num dos MTV Awards, há quatro ou cinco anos. Vi aquela figura magra, hesitante e deslocada, como se quisesse fugir dali. Na altura, pensei que ela estivesse a fingir, talvez a criação de uma imagem do tipo “a artista tímida que encanta multidões”. Durante toda a performance deu a ideia de ser a pessoa errada no local errado.
    Achei-a ridícula. Mas depois fui ouvindo a voz dela na rádio, que me encantava. Não era só a voz, era o sentimento que ela dava àquilo que cantava. E constatei que ela não fingia. Amy devia ter um grande medo do palco, pânico mesmo, de não estar à altura, ou de fazer figura de parva (como acabava por fazer), como se achasse não merecer tanta fama. Isto indica uma grande falta de auto-estima. E é aqui que eu acho que “alguém lhe tirou a vida”.
    Sei que muita gente não aceita que se atire a culpa para os pais, quando algo corre mal. Os próprios psicólogos se perguntam: quanto do que somos é hereditário? Quanto mal/bem nos fizeram os pais, ou as pessoas que nos criaram? E porque é que alguns de nós superam os seus traumas e outros não?
    É um tema muito complicado, pois parece provado que, ao nascer, já trazemos genes que definem, pelo menos, parte do nosso carácter. Mas também somos aquilo que fazem de nós. Há toda uma mistura de vivências e hereditariedade, que torna difícil, ou até impossível, comparar casos, do estilo: “eu também sofri, mas dei a volta”. Algumas misturas serão tão explosivas, que, praticamente, não darão hipóteses de superar aquilo que correu mal.
    Não conheço a infância de Amy Winehouse. Recordo, no entanto, certos aspectos, dos últimos tempos, que achei estranhos.
    Um deles foi quando ela começou a adquirir fama planetária, dando a conhecer os seus excessos de álcool e drogas. Nessa altura, li que a família dela pedia aos fãs para pararem de comprar os discos dela, pois, quanto mais dinheiro ela tinha, mais droga podia adquirir.
    Como?! O que é que a família dela pediu?! A mesma coisa que dizer: “ela é boa, mas não lhe liguem, coitada, que lhe faz mal”. Mesmo que estivessem desesperados, acho que nada justifica um apelo destes. Claro que o dinheiro facilita o acesso às drogas, mas daí a reduzir o problema dela ao facto de ganhar muito… Quem se quiser drogar, fá-lo, tendo, ou não, dinheiro. O que a família fez foi dar cabo da auto-estima de uma pessoa, cujo talento lhe possibilita enriquecer. E o talento era tudo o que Amy possuía.
    Agora, estranhei as reacções dos pais (principalmente do pai), depois de ela morrer. Primeiro, veio dizer que ela já não se drogava há mais de um ano e que não bebia há, pelo menos, três semanas. Passado uns dias, foi à casa dela, defronte da qual se encontravam muitos fãs, e começou a distribuir as T-shirts dela. O que mais me impressionou foi a expressão dele, nas fotografias. Não parecia um pai que acabava de perder a filha. Parecia-me satisfeito com aquele papel de ser o centro das atenções, a receber os agradecimentos daquela gente toda.
    A mãe veio desmentir as afirmações do marido, dizendo que a Amy não parara de se drogar e de beber, o corpo dela estava uma ruína e os médicos teriam dito que, se não modificasse o estilo de vida, seria, em breve, tarde demais.
    Porquê esta contradição? Julgando pela expressão da mãe durante o enterro (desfigurada pelo desgosto) acho que dou razão a ela. E, se o pai mentiu, com que objectivo o fez? Pela filha? Ou por ele? Quer ganhar a imagem de pai carinhoso, que defende a filha em qualquer circunstância, passando a ser ele o centro das atenções?
    Não seria ele o primeiro a aproveitar-se de um/a filho/a para brilhar. É algo que nos choca e, por isso, ignoramos, fazemos de conta que um pai é incapaz disso. E, no entanto, é algo mais ou menos frequente, principalmente, quando se trata de filhas.

  9. Tive de abrir novo comentário para completar a minha ideia, desculpem alongar-me assim, mas há mais qualquer coisita:

    Tudo o que disse no comentário anterior não passa de deduções, a partir das observações referidas. Não posso provar nada. Mas estou convencida de que, por trás daquela auto-destruição se esconde alguém que “tirou a vida” a Amy (mesmo que inconscientemente). Como diz o Pedro: “cada uma destas histórias encerra uma tragédia que nunca haveremos de conhecer por completo”.
    Alguém lhe tirou a vida, lhe tirou o valor. Ela estava convencida de que não valia nada.
    “You know I’m no good”.

  10. Conheci o meio, embora numa escala muito mais pequena, desde muito nova, e não o acho pior ou mais perigoso do que qualquer outro. Para jovens deslumbrados – ou pior, com pais deslumbrados incapazes de os orientar – ou de frágil personalidade, qualquer forma de “poder” (fama, dinheiro, acesso a festas, popularidade, êxito) é um risco. E há que considerar que muitas pessoas com génio artístico são sensíveis, com queda para o drama…presas fáceis, portanto. Pés bem assentes e rodear-se das pessoas certas é crucial.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *