
Dá-se o infeliz acaso do “aniversário” desse encontro calhar quase na data do seu desaparecimento. Não deve haver notícia mais natural acerca de uma pessoa com cem anos do que a da sua morte, mas esta, para além da tristeza pessoal, para mais quando o centenário tinha sido há tão pouco tempo, significa mesmo, segundo o adágio popular, o fecho de uma biblioteca, neste caso de colossais dimensões.
E de memórias do próprio Adriano Moreira ficou-me o seu afecto pela (e da) família, como se pode ver pelos artigos que os filhos, em particular a filha “rebelde” Isabel Moreira, lhe dedicam, em que mencionam o medo de deixar a sua mulher desprotegida, mas mais ainda, a memória dos pais, como quando realizou a sua primeira visita a Moçambique como Ministro do Ultramar e o seu próprio Pai, ainda polícia, quis ir com ele para assegurar a protecção do filho, ou quando tinha de ir ao cemitério de Grijó, Macedo de Cavaleiros, de onde era natural e onde está o jazigo dos pais, por achar que podiam sentir-se sozinhos. E ainda, quando lhe morreu recentemente um filho, há uns dois anos, a descrição feita por Ribeiro e Castro, na missa de corpo presente: “estava direito: velho e direito. É um carvalho antigo transmontano. Um pouco quebrado, pelo tempo e pelo dia, mas grande, velho e direito”.
Tinha também esse característica que muito aprecio: um transmontano que nunca disfarçou as suas raízes, ao contrário de tantas figuras públicas, e que, pelo contrário, fazia questão em recordá-las e em dizer de onde vinha, e a sua cara em traços firmes e recortados, mas não rudes, assim o confirmava. Curiosamente a primeira vez que ouvi falar dele terá sido em Vila Real, ao reparar naqueles cartazes em que surgia com o filho mais novo, que devia ter pouco menos que a minha idade, na campanha em que o seu CDS ficou reduzido a um “táxi” (estranho como os mais preparados líderes nem sempre são os que têm mais sucesso, ou talvez até por isso…).
Este homem, que exerceu funções políticas e académicas neste regime, no anterior e que nasceu no anterior a esse, era o último de uma notabilíssima geração que estaria agora nos cem anos: Agustina, Gonçalo Ribeiro Telles, José-Augusto França, Eduardo Lourenço, que chegaram aos noventa e muitos, e desaparecidos com menos idade, Sophia (e muito mais novo o seu primo Ruben A.), Saramago, os irmãos António José e José Hermano Saraiva ou Natália Correia. Quase todos chegaram a idades bastante avançadas, mas só Adriano conseguiu chegar aos cem.

Excelente evocação de Adriano Moreira, João Pedro.
Obrigado, Pedro. Achei que era devido.
Deixo o link infra para complementar o texto, se assim o entender. tarias-dois-meses-dois-campos-de-concent racao
https://memorial2019.org/artigo/duas-por
Também faz parte da história. Os nosso atos passados também definem a nossa qualidade distintiva.
E o que também define as atitudes são os conceitos utilizados. Chamar ao Tarrafal, na forma como Adriano Moreira os reabriu, “campos de concentração”, é atirar areia para os olhos de forma particularmente desonesta. Essa segunda versão do Tarrafal era para presos da guerra colonial e em nada tinha a ver com a sinistra versão anterior. Basta ver os testemunhos.
Yourcenar escreveu as suas Memórias e usei Adriano como nome simbólico. quando vivi em Roma em 2005 visitei novamente Vila Adriana e segui para vila do Cardeal de Este.