Memória do grande exterminador


Pedro Correia,

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«O maior dos prazeres é escolher a vítima, preparar o golpe, consumar a vingança e depois ir para a cama.»

Estaline

 

Faz hoje 70 anos, morria um dos tiranos mais execráveis que o mundo já conheceu. Estaline sucumbiu ao fim de quatro dias agonizante, vítima de trombose após um serão bem comido e bem regado na sua vasta mansão oficial, numa floresta a sul de Moscovo. Vivia ali como lobo solitário, protegido por uma bateria anti-aérea e um corpo de segurança pessoal composto por 300 homens.

Ninguém lhe valeu quando mais precisava.

 

Até ascender ao posto supremo do Estado soviético, onde se manteve durante quase três décadas, foi liquidando todos os rivais, um a um. Reza a lenda que na juventude, já como militante comunista, chegou a cometer homicídios. Na galeria de genocidas da História, poucos lhe disputarão a liderança: tem 20 milhões de cadáveres no cadastro. «A morte de um indivíduo é uma tragédia, a morte de um milhão é uma estatística», costumava dizer, no seu brutal cinismo.

Só entre Julho de 1937 e Novembro de 1938, ordenou pessoalmente a execução de 800 mil pessoas – num infame morticínio que passou à história como a Grande Purga. No seu delírio compulsivo, o tirano culpava aqueles que mandou liquidar a tiro de serem “inimigos do povo”, “espiões a soldo de potências estrangeiras”, “contra-revolucionários”, “burgueses cosmopolitas” e outras imaginativas expressões da escolástica marxista-leninista.

 

Era o terror estalinista no expoente máximo: naqueles 17 fatídicos meses, o Estado soviético executou 1500 vítimas por dia, ao ritmo de um assassínio a cada 57 segundos. Adolescentes de 14 e 15 anos também recebiam a bala fatal. Dizia-se em Moscovo que a Lubyanka – sede da sinistra polícia política – «escorria sangue».

Dois terços dos 139 membros do Comité Central do PCUS – eleito no congresso de 1934, o chamado “congresso dos fuzilados” – desapareceram nesta voragem homicida. Em 1940, apenas sobreviviam dois dirigentes que figuravam com Lenine no Comité Central contemporâneo da revolução soviética de 1917: Alexandra Kollontai, na prática exilada como embaixadora na Suécia, e o próprio Estaline.

Lenine avisara no seu testamento político, em Janeiro de 1923: «Estaline é brutal, deve ser impedido de tomar o poder.» O fundador da URSS – eminente teórico do Estado como instrumento de repressão – conhecia bem o discípulo que se tornou seu sucessor. Sabia que o ex-seminarista georgiano jamais hesitaria em aniquilar quem pudesse ameaçar a sua obsessão pelo poder absoluto.

 

Desde a morte da segunda mulher, em 1932, Estaline foi-se isolando cada vez mais. Considerou uma “traição” aquele inesperado suicídio de Nádia, com um tiro no coração. Vingou-se na sua familia – e no povo soviético. Enviando milhões de perseguidos políticos para os campos de extermínio na Sibéria – o tristemente célebre “Arquipélago Gulag” onde se trabalhava 12 horas por dia, às vezes com 50 graus negativos, e se sucumbia de frio, fome, exaustão, doença e desespero.

Estaline mandou envenenar um cunhado em 1938 e enviou uma cunhada para o Gulag, acompanhada de uma sobrinha. Em 1941, deu ordem de execução a outro cunhado, irmão da primeira mulher.

Nada disto impedia que fosse glorificado por parte da intelligentsia ocidental da sua época, incensado por alguns basbaques diplomáticos (Joseph E. Davis, embaixador norte-americano em Moscovo, dizia que ele era o género de homem em cujos joelhos «uma criança gostaria de se sentar») e até por muitos imbecis já nascidos após a sua morte. No Portugal revolucionário de 1975 eram frequentes os comícios de partidos da extrema-esquerda em que se exibiam grandes retratos deste déspota, enaltecido como «libertador dos povos».

 

Encerrado em ambiente palaciano como os imperadores da era antiga, este autoproclamado “revolucionário” morreu como viveu quase sempre: mergulhado na solidão. E foi vítima dela. O escasso pessoal com acesso aos seus aposentos privados tinha estritas indicações para não perturbar o amo. Daí ter passado longas horas em agonia, sem que ninguém o socorresse naquela madrugada de 1 de Março.

Dos médicos que costumavam tratá-lo, todos haviam sido removidos pouco antes: o tirano, num delírio paranóico, convencera-se que tinham urdido uma conspiração para o liquidar aos poucos. Mandou prendê-los e alguns só escaparam à execução porque o sucessor de Lenine se finou primeiro.

Todos os ditadores, por mais cruéis que sejam, têm pequenas fragilidades. A de Estaline era o Concerto para piano n.º 23 de Mozart, sua peça musical favorita. Dizia-se que, ao escutá-la, se comovia até às lágrimas. Talvez a tivesse ouvido naquela noite em que tombou de vez no chão do quarto, condenado à fatal pena a que ninguém escapa, partilhando o destino com todos quantos mandou matar.

46 comentários em “Memória do grande exterminador”

    1. Estaline esticou os calcantes há 70 anos, mas os estalinistas ainda estrebucham. Como este primeiro comentário aqui recebido demonstra.
      Espero que o Instituto Camões não se lembre de carimbar “estrebucham” como palavra morta: eles ainda andam aí. De madrugada, ocultos no anonimato, mas andam.

          1. Ainda diz tudo seria possível, tem dúvidas que comiam criancinhas ao pequeno almoço?
            A fotografia não engana, e com uma bandeirinha como se tratasse dum gelado.

          2. Se há coisa a que tenho asco é à idolatria póstuma dos cabecilhas dos piores totalitarismos da história.
            Hoje desembarcou aqui um amante do Estaline, desdobrado em vários comentários, a fazer o luto pelo amo da pior maneira.
            Gente desta, sempre anónima, denunciou e bufou durante décadas as diversas polícias políticas, rastejando nesses sistemas totalitários.
            Não por acaso, vários destes são hoje amantes ideológicos do Putin, que para eles representa o símbolo supremo actual desses contra-valores da sabujice, da canalhice, da delação e da repressão.

          3. Há por aí muitos funcionários como este. Todos com a cabeça turva, repleta de equívocos.

  1. Tinha de ser 1500 por dia e não podia durar mais de 57 segundos se não ultrapassava as 24 horas e já não era por dia. Mas 800000 em 17 meses dá 1569 por dia e assim dá mais de 1 minuto por cada assassinado.
    Aquilo foram contas feitas na escola da marreca, ou calhando foram 700000 os assassinados.

    1. O maior genocida de comunistas foi precisamente Estaline: ninguém assassinou tantos militantes e dirigentes do partido comunista como ele.
      Daí ter-se chamado “congresso dos fuzilados” aos eleitos para o órgão da cúpula do PCUS em 1934: dois terços foram dizimados às ordens do grande exterminador.
      A indústria balística era a mais pujante naqueles tempos pelos quais alguns comunas tugas ainda suspiram de nostalgia.

  2. Os camaradas Rosas, Durão Barroso, Ana Gomes, o grande educador e outros bem disfarçados faziam discursos e juras sob o retrato do Josef mas sem cachimbo.

      1. ” No Portugal revolucionário de 1975 eram frequentes os comícios de partidos da extrema-esquerda em que se exibiam grandes retratos deste déspota, enaltecido como «libertador dos povos».”
        Pois, pois, já queres a dar a volta a reste parágrafo.

    1. Tem toda a razão: o Holodomor foi um crime de genocídio. Condenar toda uma população à fome: a ucraniana – já então, tal como agora – vítima da criminosa política do Kremlin.
      A intenção era estrangular de vez o que restava da pequena economia familiar agrícola naquele país, considerado o “celeiro da URSS”. Estaline conseguiu o objectivo: a industrialização forçada da agricultura condenou milhões de ucranianos e cazaquistaneses à mais cruel das mortes: pela fome.
      O Parlamento Europeu já reconheceu o Holodomor como genocídio.
      https://www.euractiv.com/section/agriculture-food/news/eu-parliament-votes-to-recognise-holodomor-famine-as-genocide/
      Tal como já fizeram 20 países da Europa.
      https://en.wikipedia.org/wiki/Holodomor_in_modern_politics
      Incluindo Portugal, desde 2017.
      https://www.spilka.pt/index.php/em-portugues/noticias/63-2009-05-11-21-22-35/2009-05-11-22-28-36/7372-voto-de-condenacao-n-233-xiii-reconhecimento-do-holodomor-grande-fome-de-1932-e-1933-ocorrida-na-ucrania

      Hoje, no entanto, interessa-me sobretudo salientar a obsessão que o tirano paranóico tinha na eliminação dos próprios “camaradas” do partido.
      Quase todas as vítimas do Grande Terror daqueles meses entre Julho de 1937 e Novembro de 1938 eram militantes e até dirigentes do partido comunista.
      Não há memória de uma purga tão gigantesca feita num aparelho partidário – por decisão do dirigente máximo, não de um inimigo ideológico – como esta, que Mao Tsé-tung viria a replicar na China, de algum modo, na chamada “Grande Revolução Cultural”, sobretudo entre 1966 e 1969.
      O maior anticomunismo, como Estaline e Mao demonstraram, vem das próprias fileiras comunistas.

      1. Não entendo porque se abespinha tanta gente contra a Grande Purga. Penso que Estaline só fez bem em, durante ela, ter limpado o sebo a grande parte dos seus camaradas de partido. Eles não mereciam outra coisa.

        1. Na mesma onda:
          Sulla scrivania di Indro Montanelli c’ era una statuetta bellissima di Stalin: gli chiesi come mai”. cosa rispose Montanelli: “È quello che ha ammazzato più comunisti di tutti, non posso che rispettarlo”.

          1. Sem Marxismo !? Os genocídios comunistas são o resultado lógico do Marxismo. Basta ler Marx para perceber como o genocídio resultado da intolerância dos socialismos esteve sempre presente.

  3. Bom dia Pedro Correia
    Que esteja tudo bem consigo.
    Permita uma “mordacidade”, chamar-lhe execrável é ser mauzinho, coitados dos execráveis. . . .
    Tenha um Bom Domingo. Saúde.
    E como chove, se precisar de chapéu aqui do “Chapéus” posso emprestar um ih….ih….
    António Cabral

    1. Ora muito bom dia, meu caro. Hoje está de chuva mesmo.
      O estalinismo terminou, mas alguns estalinistas ainda rondam por aí – como esta caixa de comentários demonstra.
      Nostálgicos do amável, benevolente e sanguinário “Pai dos Povos”. O tal em cujos joelhos as criancinhas adorariam sentar-se, segundo observou o imbecil que exercia como embaixador americano em Moscovo à época.
      Em simetria perfeita com os nostálgicos do Hitler, que também perduram. Não por acaso estiveram ambos coligados entre 1939 e 1941 enquanto meia Europa era engolida pela onda totalitária.

      Saúde!

  4. Estaline foi um assassino implacável, responsável por milhões de mortes ao longo de anos, mas não é caso único, numa questão de segundos morreram mais de 100.000 civis aquando do lançamento das 2 bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki, por ordem de Harry Truman, mas este já não será execrável.

    1. Típico “whataboutism” de redes ditas sociais.
      Falo do Estaline, que esticou o pernil faz hoje 70 anos, e logo vem um proto-estalinista em defesa da sua dama: “Ah e tal, mas houve outros criminosos, o Truman também…”
      Há-de aparecer alguém a falar no Hitler, em obediência à Lei de Godwin. Não tarda nada.

      1. Para quem no outro dia escreveu o post ” purga de palavras ” vem agora escrever ” whataboutism” não é muito consensual.

          1. Bom, hitleres grelhados com molho de vinagrete a meio da tarde só na oktoberfest.

  5. “Inimigos do povo”, “espiões a soldo de potências estrangeiras”, “contra-revolucionários”…
    Essas expressões ainda se ouvem por aí, inclusive nas Tv, atribuídas ao Putin e seu acólitos. Como é isso possível?

  6. Parece haver uma estranha impulsão em gente a quem a subordinação a um poder absoluto dá o conforto dos irresponsáveis: que esse poder assassine e torture outros como que os compensa da larvar frustração de poder.
    Os orfãos soviéticos, que a memória abrilesca vai mantendo injustamente acreditados com gente de bem, são membros dessa espécie miserável.

  7. Quem duvidar da eficiência da máquina assassina soviética deverá conhecer a sua acção sobre os polacos, aquando da repartição da Polónia entre Rússia e Alemanha, que deu inicio à II GG.

  8. Todos sabem que isso tudo é mentira, pura propaganda dos malvados americanos, esses capitalistas desavergonhados e “inimigos do povo”. Ele nunca foi amigalhaço dos nazis nem repartiu com eles a Polónia, ele nunca condenou ninguém à morte pela fome graças às suas maravilhosas “reformas agrárias”, ele nunca ordenou a execução de nenhuma purga, ele nunca mandou milhões para os campos de concentração à moda soviética na Sibéria,… Tudo isso é mentira! Mentira suja dos canalhas imperialistas do ocidente, esses bandidos!

  9. Pedro,

    Creio que Estaline ficará atrás, e bem atrás, de um outro “amado” comunista, o seu congénere chinês Mao Tze Tung.

    Diz-se que Estaline matou a sua 2a mulher.

    Estaline conseguiu a extraordinária proeza de condenar (e mander matar) quase todos os que fizeram a revolução bolchevique por estarem ao servico das forças imperialistas do ocidente. Acho que este é o melhor exemplo do que é ser comunista.

    1. Estaline prestou um serviço gigantesco à causa anticomunista em todo o mundo.
      Quando dizimou toda a velha guarda bolchevique que fez a revolução de 1917.
      Quando mandou executar dois terços do Comité Central do PCUS eleito no congresso de 1934.
      Quando celebrou pactos de cooperação com a Alemanha em 1939 e nos dois anos seguintes forneceu a Berlim matérias-primas fundamentais para o esforço de guerra nazi. Mostrando ao mundo que eram duas faces da mesma moeda imperalista e totalitária.

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