Segui o conselho do André e li atentamente a reportagem do DN sobre médicos imigrantes em Portugal. A informação que a jornalista Céu Neves recolheu confirma o que já tinha intuído como utente do SNS: os profissionais de saúde que vêm de fora trazem consigo uma outra cultura clínica. Os médicos entrevistados pasmam com a subserviência que observam nos doentes e com o estatuto de superioridade dos seus colegas portugueses.
Como disse, não me espanta. Há anos, quando um familiar esteve internado, fiquei a saber que a enfermeira favorita de todos os doentes era espanhola. O dentista mais popular do meu bairro é brasileiro. No centro de saúde que frequento, o médico que todos querem ter também não é português. Experimentem saber qual é a reputação dos médicos que vêm de fora junto dos utentes do SNS e perguntem-se porque serão tão apreciados.
Nos tempos do João Semana, em que a subserviência do povo era manifesta nas mais diversas situações, a relação desigual entre médico e doente existia, mas ao menos era compensada pelo espírito de serviço e amor pela profissão dos que então enveredavam pela Medicina.
Mas desde que o acesso a este curso passou, nas últimas décadas, a ser filtrado por médias impossíveis, deixando milhares de vocações frustradas pelo caminho, só por acaso nos cruzamos com um clínico que também é médico por vocação e não só porque a carreira assegura prestígio social e dinheiro.
O funil por que passaram as novas gerações de médicos não nos trouxe nada de bom. Falta nos hospitais e centros de saúde gente que gosta de gente. Mas porque os tempos mudaram, apesar da ainda muita subserviência, as pessoas já se vão queixando.
Por outro lado, soube-se há dois dias que os nossos médicos também não andam satisfeitos com a vida. Há, portanto, mal-estar de parte a parte. Qualquer coisa de profundamente errada que não creio que se justifique só pela falta de condições de trabalho. Tal não explica a soberba que é apanágio da classe e a negligência que muitas vezes está a ela associada. Agora os seus pares imigrantes vêm pô-la em xeque. Lamento, mas ainda que no imediato se revele como mais um factor de stress para os nossos médicos, acho que só pode ser bom.


Amém (sem condescendência).
Não posso estar mais de acordo.
Muito bem, Teresa.
🙂
Não generalize nem use a mesma medida para toda a gente. Mesmo que sejam médicos.
Isso é elementar: ninguém usa a mesma medida para toda a gente. O mal referido, infelizmente, generalizou-se, mas há sempre quem se recomende. Como em tudo.
Há excepções, claro. Não há sempre?