Matéria escura


Luís Naves,

Em Portugal, os escritores são solicitados para falar sobre tudo e um par de botas, mas normalmente nem sabem o que os faz escrever e desconhecem o mecanismo que os leva, por vezes, a conseguir tocar ao de leve em alguns dos mistérios essenciais do seu mundo. Isto funciona um pouco como os telescópios. Há telescópios ópticos que captam a luz visível, há outros aparelhos que detectam infravermelhos ou radiação ultravioleta. Cada um destes equipamentos permite ver uma versão da realidade, mas apenas parte limitada do universo. Assim funcionam as ciências sociais e a filosofia, cada uma a captar determinado espectro da luz. E, no entanto, sabe-se que no universo existe matéria escura, que continua invisível para a tecnologia. Ora, a literatura pode explorar o que as ciências não atingem. Perguntar aos autores pela matéria visível não tem grande lógica, pois eles são melhores a detectar matéria escura, ou seja, a parte enigmática da humanidade, e piores a pensar sobre aquilo que já é conhecido. Sem perceberem ao certo como o fazem, os ficcionistas podem entender uma parcela da essência do seu tempo, mas sempre no território do enigma e do que se oculta nos interstícios da realidade. Quando os interrogam sobre matéria que possa ser estudada, como a explicação de um país ou a descrição da sociedade, têm geralmente telescópios imprecisos.

3 comentários em “Matéria escura”

  1. O problema é existir Saber que não se expressa por palavras….há Saber que apenas se entende pela calada da noite

  2. O Luís aborda um tema que foi motivo de reflexão minha há um par de dias. Todos sabemos que cada um é o que pensa ser. Mas cada um não sabe que não é o que pensa ser.
    Sobre a questão da suposta intelectualidade que aborda, nos anos recentes tem mostrado estar mais voltada para o look que propriamente para a produção. Significa isto que a confecção transformou-se em um Prêt-à-Porter que tem uma sede voraz de design mas dedica pouca atenção à qualidade da matéria prima.
    Claro está que a massificação associada ao marketing apresenta como resultado um défice de espaço que impede reflectir sobre o in e o out, pois o que importa é estar In.

    Como assim acontece, desenham-se umas angústias existenciais que promovam um sentimentalismo bacoco e gerem emoções andarilhas.
    É sabido que de uma flauta se extrai harmoniosa musicalidade se esta se encontrar vazia.
    Como em regra somos o que pensamos ser, é natural que nunca cheguemos a ser o que não somos.

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