

«Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras, mas o que importa é transformá-lo.» Ao concluir desta forma as suas Teses Sobre Feuerbach, Karl Marx (1818-1883) traçava um propósito revolucionário para a filosofia. Nada de espantar, para um homem que dedicou toda a vida às duas causas: para ele filosofia e revolução eram indissociáveis.
Em 2005, num inquérito organizado pela BBC, Marx foi considerado o filósofo mais influente de todos os tempos. Marxismo é um substantivo hoje associado a várias disciplinas do saber – da história à economia, da sociologia à ciência política. E vários termos criados por Marx na sua monumental crítica à sociedade capitalista em obras como O Capital tornaram-se património da linguagem comum – termos como alienação, proletariado, luta de classes e mais-valia.
«Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência», escreveu este alemão nascido em Trier e falecido aos 64 anos em Manchester, Reino Unido. Discípulo inicial de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), Marx incorporou no seu pensamento a noção hegeliana de que o homem é um protagonista da história e actua nela através de sucessivos choques dialécticos (tese-antítese-síntese) que o conduzirão a um patamar definitivo. Que patamar? Aí divergem: é o fim da História, na óptica de Hegel; a sociedade comunista, para Marx.
A diferença entre ambos é radical num ponto: enquanto para Hegel – nascido em Estugarda e falecido em Berlim, aos 61 anos – a síntese era o espírito, para Marx era a matéria. Surgia o materialismo dialéctico, que pretendia inverter a lógica hegeliana, correcta como forma de interpretar o mundo, mas «de cabeça para baixo».
Se para Hegel – autor de obras como Fenomenologia do Espírito e Elementos da Filosofia do Direito – o progresso histórico equivalia à «revelação do espírito» -, para Marx equivalia à «quebra das grilhetas» que oprimiam a classe trabalhadora, como sublinhou no seu Manifesto Comunista, escrito em parceria com Fredrich Engels.
Marx foi um grande viajante, em tudo oposto a Immanuel Kant (1724-1804), que passou toda a vida na sua cidade natal, Königsberg – então na Prússia e hoje na Rússia, com o nome de Kalininegrado – e ali faleceu, aos 79 anos. Era uma criatura de hábitos tão rígidos que ao sair para dar o seu passeio da tarde, invariavelmente às 15.30, os vizinhos podiam acertar os relógios ao verem-no iniciar a caminhada.
Tal como Marx e Hegel, Kant é um dos filósofos que mais influenciaram o pensamento contemporâneo – designadamente em disciplinas como a ética e a teoria do conhecimento. Em obras como Crítica da Razão Pura, Crítica da Razão Prática e A Fundamentação da Metafísica dos Costumes, garante que não é o objecto que determina o sujeito, mas este que determina o objecto, conhecendo-o no espaço e no tempo – categorias a priori. Eis o «idealismo transcendental» de Kant, que nos legou ainda conceitos como a paz perpétua e o seu célebre imperativo categórico: «Age de tal maneira que a máxima da tua acção se possa tornar princípio de uma legislação universal».
Nos antípodas do idealismo kantiano está a obra de Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), nascido em Röcken e falecido aos 55 anos em Weimar. Em obras como Assim Falou Zaratustra, A Gaia Ciência e O Anti-Cristo, negou a existência de Deus – admitida por Kant e Hegel e também negada por Marx – e de qualquer imperativo categórico, sublinhando que o homem é senhor de si mesmo e do seu destino, movido por impulsos e pela vontade de poder. Numa linguagem cheia de aforismos, fez críticas demolidoras à civilização judaico-cristã, com a sua «moral de escravos».
Este filósofo que gostava de «viver perigosamente» criou uma legião de discípulos, à esquerda e à direita, ao negar finalidade à História. Na sua perspectiva, o «eterno retorno» do homem à plenitude da vida era a marca mais indelével da existência.
Kant e a «paz perpétua». Hegel e o «fim da História». Marx e a «luta de classes». Nietzsche e o «eterno retorno». Quatro filósofos alemães cuja obra se mantém em permanente diálogo com o homem contemporâneo, inspirando-o e interpelando-o.
Sem eles, não pensaríamos como pensamos. Nem seríamos como somos.

Kaliningrado
Калининград
Em 697 palavras que aqui escrevi, dois leitores – ambos anónimos – fixaram-se numa só palavra. Sem nada mais a dizer.
Eis um exemplo dos “debates” na Rede.
Muitas vezes não se passa disto.
De Kalinine, tal como Lenine (ou Estaline).
Aplico a mesma regra de transliteração usada para Leninegrado ou Estalinegrado.
«Antes de la Segunda Guerra Mundial era la ciudad más oriental de Alemania, conocida como Königsberg, cuyo significado es “montaña del rey”, lo que refleja su historia como ciudad de coronación de la monarquía prusiana. 21 jun 2022
Kaliningrado é o mais usual, e quanto ao resto não tenho comentários.
Ou, então, comparar a cidade de Liverpol no sec.XIX com mais miséria que Carachi.
Muito bom. O conceito operativo que une todos eles, já no campo da sociologia, é o de “progresso”. Existe mesmo? Leva-nos aonde? E por que mecanismos? Antes de Hegel e Kant nem havia uma noção clara de progresso histórico. Goethe, no espírito da época, e na esteira de um geógrafo inglês, catalogava as formas das nuvens — mas a sua formação e os fenómenos da natureza ainda eram resultado de forças gigantes (como no mundo Barroco) que tinham um desígnio e uma consciência.
Abr!
Existirá mesmo um “progresso” histórico paralelo ao do progresso tecnológico, por exemplo? Alguns destes senhores, em proporções diferentes, são responsáveis por nos terem inoculado tal dogma. Posto em causa por grande parte da história do século XX.
Para começar é preciso definir o que é progresso. E será que fazê-lo já faz parte do progresso?
Para Marx, progresso histórico é a “quebra das grilhetas”.
Para Marx o progresso histórico para lá de todas as contradições parvas do Marxismo é o Fim da Humanidade.
Progresso está ligado á tecnologia e revolução industrial. Eletricidade, caminho de ferro, navio a vapor.
Num plano material sim — daí a luta de classes para Marx que culminaria na apropriação dos meios de produção (sendo por isso o sindicalismo o centro da acção comunista) mas no plano hegeliano era o desenvolvimento do espírito e daí existir a noção de uma situação final para esse percurso (há um conto do Borges que explora esta ideia — de que no futuro os seres humanos tinham evoluído tanto que já dispensavam quase tudo e se confundiam com seres extra-terrestres — uma versão do Paraíso…)
Que História da evolução do espirito fez Hegel?
Alemães neuróticos nunca trouxeram nada de bom ao mundo.
Hegel era neurótico? Então que diria você de Nietzsche.
Antes de Hegel e Kant nem havia uma noção clara de progresso histórico.
É natural. Antes do século 19, a economia era tipicamente sempre o mesmo rame-rame, ao ritmo das estações, com a agricultura como atividade principal e o povo sempre à beira da fome. Basicamente, não havia, de facto, progresso. O progresso só começou, mesmo, no século 19.
Segundo Comte, antes do “progresso” acreditava-se num estado teológico — como acontece ainda no mundo islâmico.
Que me importa que Comte cante ou que Kant conte!
Coisa numa vista era um Kant alentejano! Ou então a Crítica da Razão Espera Aí um Bocadinho 🙂
Você é mesmo burro ou então faz-se de burro para trolar, balioZ.
acrescento
PIOTR KROPOTKIN in LA CONQUISTA DEL PAN
La humanidad ha recorrido bastante camino desde aquellos lejanos años en los que el hombre, construyendo en sílex herramientas rudimentarias, vivía del azar de la caza, y no dejaba a sus hijos más herencia que un refugio bajo las rocas, pobres instrumentos de piedra y la propia Naturaleza –inmensa, incomprendida, terrible– contra la que tenían que luchar para
continuar con sus miserables existencias
Memorias de un revolucionario
La riqueza se medía en aquellos tiempos por el número de almas que poseía un propietario territorial: tantas almas, quería decir tantos siervos varones; las mujeres no se contaban. Mi padre, que era dueño de cerca de unas mil doscientas de aquéllas en tres provincias diferentes, y que tenía además grandes extensiones de terreno que dichos siervos cultivaban, era tenido por hombre rico. Él procuraba mantener en la práctica esa reputación, teniendo siempre la casa abierta a disposición de sus amigos y manteniendo una numerosa servidumbre
Não tem nada a ver. Falei de quatro filósofos alemães, não de um anarquista russo.
o sendeiro é o mesmo:
«[Por extensão] Diz-se de ou qualquer cavalgadura velha e ruim.»
Pela mesma lógica, daqui a pouco aparece aqui alguém a falar no Hitler
‘Reductio ad Hitlerum’.
É fatal.
Não sei o motivo nem a oportunidade deste “post”. Mas a evidência que retiro é mesmo a de espíritos brilhantes que impulsionam o progresso da humanidade para o seu previsto fim: Quando o sofrimento dos homens se tornar insuportável, Deus, na Sua infinita misericórdia, fará soar as trombetas do Juízo Final.
Tenho costelas alemãs e, por acaso o avô de Hegel é meu antepassado, mas não cesso de me surpreender com a supremacia – intelectual e não ética – dos filósofos alemães. Isso ficaria mais claro se Pedro Correia, a estes quatro, tivesse acrescentado Martin Heidegger, o filósofo da tecnologia ao serviço do nacional-socialismo, e ainda Karl Korsch, Karl August Wittfogel e Friedrich Pollock, os iniciadores da Escola de Frankfurt, mãe do actual “wokismo”.
Quando o sofrimento dos homens se tornar insuportável, Deus, na Sua infinita misericórdia, fará soar as trombetas do Juízo Final
Não estou ciente de que, em qualquer religião abrâmica, o dia do Juízo Final esteja relacionado com o sofrimento dos homens ser maior ou menor.
De qualquer forma, sendo evidente que o sofrimento dos homens, em geral, tem sido cada vez menor (pois cada vez há menos peste, fome e guerra), se as coisas forem como o Francisco Almeida diz, então o dia do Juízo Final não chegará em breve.
O sofrimento físico dos homens que enumera nas pestes, etc, seria referido a Hipócrates, Avicena, Averróes ou Fleming. Sendo so sujeitos filósofos, seria evidente que o sofrimento seria de natureza mental, moral ou espiritual, se quiser. E sim, os indicativos conhecidos de doença mental, os números sempre crescentes de depressão, além de outros sinais menos directos, como a alienação cibernética, e o consumismo insaciável, sugerem fortemente que a tendência é o aumento.
Nenhuma religião fará o relacionamento directo mas este pode ser deduzido. Parecendo que tem formação científica imagine um eixo vertical que marca o início a mede o grau de felicidade/infelicidade integrado. O eixo horizontal marca o tempo até ao fim dos tempos. Eliminando picos e variações, isto é, calculando a mediana, três hipóteses são possíveis. Alinha é ascendente, isto é os homens são cada vez mais felizes. A linha é horizontal, isto é o grau de felicidade médio não varia no tempo. A linha é descendente, isto é, os homens são cada vez mais infelizes.
No primeiro caso, o fim do mundo implicava uma maldade de Deus, acabar com a vida quando a humanidade caminhava para a felicidade. No segundo caso, implicava uma arbitrariedade de Deus. Acabava com a vida porque sim. No terceiro caso, deduzia-se a bondade de Deus, terminar com a vida antes de atingido o limite suportável de infelicidade.
Como terá percebido, não sou discípulo de Schopenhauer, não acredito numa metafísica maligna mas sim num Deus que é Bondade.
P.S: No comentário inicial, em vez de “sofrimento dos homens” teria sido melhor “sofrimento dos justos”.
mas não cesso de me surpreender com a supremacia – intelectual e não ética – dos filósofos alemães
Não me parece que seja uma supremacia intelectual num primeiro momento, mas uma supremacia operativa. O facto de a língua alemã, tal como o grego antigo na origem da Filosofia, permitir criar conceitos novos com uma clareza muitas vezes intraduzível, potencia um pensamento mais nítido e mais radical. Pensar em Francês ou Português é uma trabalheira e uma confusão sem nome (basta ver a dificuldade que existe em ler Deleuze), confusão gramatical, confusão semântica, etc., e pensar em Inglês apresenta muitas limitações sobretudo na interpretação uma vez que o inglês foi apropriado pelo mundo como língua universal e está repleto de frases feitas. É difícil escrever em inglês sem um chavão qualquer. Nada disto acontece no Alemão que é uma língua “clínica”.
É uma maneira de ver. Abandalhando, diria que a superioridade alemã – que considero verdadeira e real em várias vertentes – deve-se muito à dificuldade que as crianças têm de vencer só para aprender a língua.
Por outro lado enquanto um português diz “conceber” uma ideia, um alemão diz “agarrar” uma ideia. Para eles serei fantasista, para mim são quadrados. E, isto de agarrar está directamente ligado a “utilizar as mãos”. Por exemplo manipular, manifestar, manietar (também maniqueísmo e manicómio).
O racionalismo de Kant só podia ter nascido em alemão. Não se pode provar ou reprovar a existência de Deus, logo é supérfluo (evoluindo para errado e culminando em proibido) discutir Deus. De uma penada irradica-se a metafísica e despreza-se a maior parte da filosofia grega. Não insisto com a natural evolução que foi Heidegger mas, de facto, será quem melhor lhe dará razão na superioridade operativa.
P.S. Devia ter escrito superioridade intelectual mas não moral (ética foi precipitação).
Trocava essa tropa toda pelo Schopenhauer, mas isso sou eu.
Os nossos donos acharam-nos muito úteis, e trataram de inculcar no gado.
Sou estrutural e racionalmente pessimista mas considero o pessimismo um atributo humano. Schoppenhauer, como tendencialmente todos os ateus, tende a divinizar o que elege como primordial.
Schopenhauer é de outro campeonato.