Maria José Nogueira Pinto


Pedro Correia,

 

Fui repórter parlamentar durante cinco anos. Nessa qualidade, em representação do Diário de Notícias, tive o privilégio de conhecer excelentes deputados – em todas as bancadas. Uma das pessoas que mais me impressionaram, desde os meus dias iniciais na Assembleia da República, foi Maria José Nogueira Pinto. Quis o acaso que tivesse sido ela a primeira representante parlamentar com quem falei para redigir a minha notícia número um no DN, em Janeiro de 1997.

Entrevistei-a várias vezes depois disso, nomeadamente quando se tornou a primeira mulher a liderar uma bancada parlamentar em São Bento, eleita pelo CDS. Numa dessas ocasiões, concedeu-me a entrevista na fascinante mansão familiar do Campo Grande, repleta de livros e de memórias e de múltiplas marcas de discreto requinte.

Era frontal, enérgica, culta, determinada, profundamente empenhada na vida pública e com elevados padrões de ética pessoal que fazia questão de transpor para a política. Era uma mulher de convicções firmes e dotada de um carácter muito forte, mas que sabia dialogar com quem se situava nos quadrantes ideológicos mais diversos. Tinha um talento inato para a escrita (tal como o marido, Jaime Nogueira Pinto), interesses que iam muito para além da esfera política (foi ela quem me recomendou que lesse as obras de Nélida Piñon, por exemplo)  e uma paciência limitada para a mediocridade reinante nos estados-maiores partidários.

Mantive um gosto enorme em conversar com ela, mesmo quando deixei de ser repórter parlamentar. Porque havia sempre alguma coisa a aprender com Maria José Nogueira Pinto. E houve, até ao fim: a extraordinária coragem física e a dignidade de que deu provas nestes últimos dias, enfrentando a terrível doença que há poucas horas a vitimou, constituiu um admirável – embora doloroso – exemplo para todos nós.

Aos seus familiares – sobretudo ao Jaime, aos três filhos do casal e à sua irmã Maria João, minha colega – aqui deixo um forte abraço, solidário e comovido.

24 comentários em “Maria José Nogueira Pinto”

    1. Quando se diz que só nos anos 70 e em parte dos anos 80 havia óptimos deputados isso não é verdade. Eu tive o privilégio de conhecer excelentes parlamentares nos cinco anos que permaneci como jornalista em São Bento, compadre. Uns por serem excelentes tribunos, escutados em silêncio pelas bancadas cheias. Outros por serem exímios negociadores políticos. Outros ainda por terem a coragem de expressar convicções no plenário com um vigor admirável e uma assinalável independência crítica relativamente às próprias direcções partidárias. Maria José Nogueira Pinto foi uma destas deputadas de excepção. Eu estava lá e vi. E ouvi.

      1. Pronto, está decidido. Como a minha vocação ‘râté’ sempre foi a de jornalista (!), Pedro, acabo de acrescentar o teu nome a uma lista de pessoas a quem um dia vou entrevistar, à minha maneira. E juro que a lista é de respeito… 😉

          1. Claro 🙂 Mas isso é lá sítio para uma entrevista séria?! 5 anos na AR é obra, e o meu projecto é profissional e muito consciencioso, ora essa! No tal livro que um dia hei-de publicar (juro) – e que há-de vender, não por mim, lógico, mas por causa dos entrevistados – também há lá mais dois da AR, que tenho a sorte de conhecer muito bem: um ‘chefe de orquestras’ e um ‘músico’, digamos assim… Portanto, a somar ao cronista oficial, vai permitir leituras cruzadas, o que é interessante.

          2. Infelizmente alguns dos melhores deputados que lá conheci já não se encontram entre nós. Lembro-me, por exemplo, do Jorge Ferreira, do João Amaral e do Lino de Carvalho.

  1. O exemplo, Pedro, o exemplo, meu amigo. E tu tão perto dele. És um sortudo.

    É só com exemplos destes que se conseguirá construir alguma coisa nesta terra. E que floresçam mil à direita, mil à esquerda e mil no centro. E mais mil fora do sistema.

  2. Pedro:

    Eu confirmo em absoluto tudo o que afirmas. Tive o privilégio de conhecer a Dra Maria José nogueira Pinto como Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (sou colaborador da Instituição) e o Excelente trabalho que desenvolveu entre 2002-2005 e guardo com saudade e respeito os contactos que mantive com esta grande SENHORA.

    1. Em 2004, escrevi no DN o obituário do pai de Maria José, Luís de Avilez. Na altura, recebi um telefonema dela que guardo na memória – como todas as conversas que tivemos. Era uma grande senhora, como bem sublinhas.

  3. O país ficou mais pobre sem Maria José Nogueira Pinto.
    Se todos fizessemos um pouco do que ela fez, estariamos muito melhor.
    Ela sim,foi uma verdadeira politica.
    Eu acho que ela sabe que nós sabemos.

    1. Pessoas como ela fazem falta na política, Isabel. Seja em que quadrante estiverem. Fazem sobretudo falta no Parlamento, para que possamos continuar a resistir à tentação de nivelar por baixo o debate político.

  4. Gostei da tua sentida homenagem e revejo-me nas tuas palavras. Entrevistei-a duas vezes e o que retive desses encontros foi o que posteriormente confirmei em cada uma das suas intervenções públicas: o forte carácter, o humanismo e elevado empenhamento nas causas públicas. Não partilhava muitas das suas ideias, mas tinha por ela o maior respeito e admiração. Faz-nos tanta falta gente como ela!

  5. Conheci-a pessoalmente na MAC, quando ela estava à frente da instituição e eu fazia voluntariado lá. Era uma pessoa que impressionava pela coerência e pela verticalidade, e tenho pena de não tê-la conhecido mais intimamente porque se aprendia sempre alguma coisa com ela.
    É bom ouvir e ver o respeito com que todos – da esquerda à direita – se referem a ela, sem palavras de circunstância e com verdadeira admiração. Uma pequena grande Mulher.

    1. Desta vez, tal como tu, tenho a certeza que as palavras de apreço vindas de todos os quadrantes partidários não foram de circunstância. Maria José Nogueira Pinto granjeou o respeito, a consideração e a admiração de pessoas de todos os quadrantes, inclundo alguns dos seus maiores adversários políticos.

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