Maria Barroso: uma recordação.


Luís Menezes Leitão,

Conheci Maria Barroso quando, com a idade de sete anos, entrei no Colégio Moderno, no já longínquo ano de 1970. Ela era a Senhora Directora, sobre cujos ombros recaía a responsabilidade de gerir o colégio em tempos muito conturbados. Como não podia deixar de ser, o colégio ministrava escrupulosamente o programa do Estado Novo e por isso aprendi a geografia de todas as colónias, incluindos os rios, linhas de caminho-de-ferro e principais culturas agrícolas. O programa era tão absurdo que até a Índia Portuguesa nos foi ensinada, apesar de ter sido tomada pela União Indiana há uma década. Quando um colega chamou a atenção para esse facto, a professora disse sorridente que, apesar disso, ainda tínhamos que a estudar. E lá tivemos assim que aprender Goa, Damão e Diu e os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli.

 

Mas, de vez em quando, a Directora ia visitar a nossa sala. Nessa altura, todos os alunos a cumprimentavam, a professora suspendia a lição e Maria Barroso falava. Ouvia as dúvidas dos alunos, dava conselhos e falava longamente sobre qualquer assunto que surgisse. As suas palavras prendiam. Por muitos irrequietos que os alunos fossem, era impossível não ficarem atentamente a escutá-la. Mas nunca se queixou da sua situação pessoal, ou alguma vez nos falou do marido, e por isso nunca soubemos quem era Mário Soares e muito menos porque estava exilado.

 

Um dia, quando entrámos no colégio, soubemos que nessa noite o mesmo tinha sido assaltado e que os assaltantes tinham vasculhado o gabinete da Directora, deixando-o totalmente desarrumado, com uma faca cravada na sua secretária. Todos os alunos ficaram naturalmente em grande estado de agitação, mas a Directora resolveu rapidamente o problema. As professoras mandaram os alunos ficar sentados com os olhos fechados durante dez minutos e, passado esse tempo, leccionaram as aulas como se nada se tivesse passado. Só mais tarde compreendi o que esse episódio tinha significado, e como fora preciso coragem para manter o colégio a funcionar nessa situação. 

 

Quando se dá o 25 de Abril, eu já estava fora do colégio, e só voltei a encontrar Maria Barroso quando ocupei a presidência da Faculdade de Direito de Lisboa e ela a visitou na qualidade de Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa. Tivemos então ocasião de falar algum tempo sobre a evolução do colégio desde o tempo em que o frequentei. Hoje, dia em que nos deixou, muitos recordarão a sua brilhante carreira política, e as inúmeras causas por que lutou. Eu recordo-me especialmente dela como a Directora do Colégio Moderno, que tanto marcou os alunos que por lá andaram.

0 comentários em “Maria Barroso: uma recordação.”

  1. os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli

    Nunca, que me recorde, ouvi falar de tais enclaves. Onde ficavam?

    Aliás, só muito mais tarde me apercebi, porque nessa época não nos explicavam, que as próprias cidades de Damão e Diu não passavam de enclaves – pequenas cidades totalmente rodeadas por território indiano. Ao contrário de Goa, um território com cerca de 50 quilómetros (creio) de norte a sul, Damão e Diu não eram territórios, eram meras cidadezinhas.

  2. Eu também tive de decorar esses enclaves… e o nome de um monte que já não recordo e que dizíamos numa lista depois do Namuli em Moçambique e antes do Ramelau em Timor… “Gates” ou qualquer coisa do género?… “O tempora!…”

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