Fluxos de apropriação


Rui Rocha,

vasconcelos.jpg

Pois. Essa coisa dos fluxos de significação parece-me muito bem. Mas, nesse caso, em homemenagem à criatividade da artista reconhecida internacionalmente, talvez se pudesse ter deixado a significação fluir um bocadinho mais. Digo eu. Ora vejamos:

a) no site do COI, a propósito de pequenas moedas em cuproníquel:

Sob a forma de um enorme coração de Viana, peça icónica da delicada e minuciosa filigrana portuguesa, pacientemente preenchido com talheres de plástico vermelho, Coração Independente Vermelho é uma homenagem a essa grandiosa técnica de enorme exigência, bém como um louvor ao que faz com que tudo possa acontecer – o amor.

b) no site da jovem artista conhecida pelas suas esculturas e instalações com um agudo sentido de escala e domínio da cor em objetos do dia-a-dia e de elementos da cultura tradicional que nos revela novos fluxos de significação e, ao mesmo tempo, uma visão cúmplice e crítica da sociedade contemporânea, a propósito de uma instalação com 385 x 225 x 50 cm composta por talheres em plástico translúcido, ferro pintado, corrente metálica, motor, fonte de alimentação e instalação sonora:

Coração Independente Dourado apresenta-se sob a forma de um enorme coração de Viana, peça icónica da filigrana portuguesa, pacientemente preenchido com talheres de plástico vermelho. Suspensa a partir do eixo, a obra executa um movimento rotativo circular, evocativo dos ciclos da vida e do eterno retorno, acompanhado pelo som de três expressivos fados, Estranha Forma de Vida, Gaivota e Maldição, interpretados por Amália Rodrigues, diva da música portuguesa da segunda metade do século XX.

E vai daí, se calhar não. Eu é que me precipitei e isto está tudo enquadrado nas dimensões de descontextualização e, sobretudo, de apropriação. Desculpem lá o tempo que vos fiz perder, sim?

0 comentários em “Fluxos de apropriação”

  1. Está muito bem assim e não poderia ser de outra maneira.

    Quer o COI quer “a jovem artista” (todavia já com uma fundação de seu nome), adoptam obedientemente a degenerescência acordística: é no que dá, num caso, depender-se das boas graças do regime para o indispensável financiamentozinho; e, no outro, para consolidar a peculiar condição de artista do regime, com o que tudo isso propícia. Desde logo a aprioristicamente assegurada condição de excelência de tudo o que se faça. Bem como a garantia de mercado para o que se faça, ou queira fazer. Porque sim.

    Os portugueses, por norma orgulhosamente embrutecidos – com mais ou menos dinheiro, mas sempre orgulhosamente embrutecidos – gostam imenso disso. Acham-se cultos, sentem-se importantes (nascida em Paris, que diabo, Paris!).

    Até se convida, parece, e por exemplo, um arquitecto famoso – e não lhe discuto o mérito -, para, alegadamente, purificar o crime impune de uma barragem sem sentido (ou melhor, com muito sentido…). E o povão vai na conversa.

    Temos o que merecemos.

    Costa

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *