São oito e um quarto (vinte e quinze, como aqui se diz), noite já cerrada, acaba a aula do pós-laboral, saio do “campus” para casa. O meu velho Ssangyong não anda, descontinuada a produção não encontro as peças para os travões, coisa já de há meses, e falta-me taco para comprar outro carro, mas tenho mesmo que comprar um novo, um pequenito, desses japoneses recondicionados que inundaram Maputo (para desespero dos puritanos da esquerda europeia, que compram carros novos a crédito e protestam com a automobilização dos corruptos africanos, a estes dizendo-os traidores às revoluções que vão sonhando lá no sofá e escalfeta do Estado-Providência), a ver se poupo uns 5 mil dólares para isso. Bem, neste lamento estou-me a afastar da “coisa”, dizia eu que já são vinte e quinze (oito e um quarto, como se diz aí) e acabei a aula, vou do “campus” para casa. Ou chamo um txopela, que me custa um maço de Peter ou chateio a Inês, exausta a esta hora, para me vir buscar, ou vou a pé, quinze minutos a calcorrear que não me fazem nada mal, coisa que tenho vindo a fazer, necessidade oblige.
Então lá vou eu, “campus” acima, cruzo a rua de França, a quase viela a esta hora apinhada de carros e peões universitários, passo o “Macuti” animado como sempre, mas hoje não vou às 2M e moelas, desço a Zimbabwe, estou no Restelo cá do sítio, cruzo as putas de todos os dias, aos já habituais “olá fofo” “vamos dar uma volta” sempre respondo afável (é o meu momento diário de afabilidade) uns “boas noites“, “bom serviço“, que naquele entre ali me darão um ar de vovô tonto e inofensivo, passo para a Kaunda, carro acima e carro abaixo, sigo pelo Hospital Militar, desço à clínica de Sommerschield, zonas residenciais mais calmas na hora da novela e os cafés já fechados, entro na Kim-Il-Sung, carro à esquerda, carro à direita, e continuo no Restelo cá do sítio, venho falando sozinho, resmungando aulas, compondo argumentos da história empresarial que me ocupa, e que tanto me está a fascinar, mas também hipóteses de postais in-blog e tácticas para o jogo na Luz, amiúde saudando “boa noite, obrigado” aos guardas residentes e a vários transeuntes, alguns tardios do footing outros atrasados ao resting. Acabo em casa, exalando, transpirando ou suando, conforme quem me leia.
Depois, já banhado, jantado e dormido, leio que “Maputo é uma cidade-fantasma“, pois aqui “o pânico instalou-se“, são as teclas de Ana Dias Cordeiro ecoadas no jornal Público (e a esta hora já replicadas por 500 e tal faceboqueiros, nisto do “sharo logo existo” dos dias de hoje). Venho então escrever este postal. Para dizer que é tanga. Não é apenas o habitual desajuste do jornalismo português sobre o país (então o Público tem uma longa tradição, burlesca até, de asneirar sobre Moçambique). Não é apenas isso, repito. Deixemo-nos de coisas, deixemo-nos de merdas, não é só mediocridade, não é só restringir o olhar a uma pequena meia dúzia de compatriotas e botar apressadamente o que julga conveniente botar. É mesmo tanga, mentir para aumentar tráfego no “sítio” do jornal, para vender papel, para mostrar anúncios.
Estão os moçambicanos preocupados? Estão, com as escaramuças no centro e norte, com o que se passará nas próximas semanas até às autárquicas, com o preparar do ciclo eleitoral de 2014, com a criminalidade, constante nos bairros urbanos populares, agora re-irrompendo no centro burguês (na “classe média” como balbuciam os “leitores” da sociologia actual, “classe média” de quê?, porram outros). Estão os estrangeiros residentes (os imigrantes e os expatriados) preocupados, até alarmados? Estão, bastante. Está este jpt, bloguista, ainda por cima residente apeado, angustiado, de cenho (des)armado? Está, estou.
Mas não há pânico nestes 2 milhões e tal de pessoas. Nem são elas, somos nós, almas penadas numa cidade-fantasma. Nem de dia. Nem de noite, ainda que a esta faltando a miríade de neons que iluminam a crise despesista da “classe média” (classe média de quê?, porra!) que lê o Público.
Adenda: há uns dias disse que me blogo-calava, que isto não estava para isto. Mas, pensando melhor, não me apetece.


Bem vindo 🙂
Obrigado (fui ali e já vim, está visto)
Faz bem em não se calar, jpt. Há quem goste de o ler. Eu, por exemplo. E desconfio que não serei a única. 🙂
Fico grato pela sua simpatia.
Pois é caro JPT , sempre foi assim e pelos vistos continuará a ser, ainda não há um par de semanas passeava com total tranquilidade pela julius nyerere , percorria a estrada katembe-zitundo , e regressava ao “exílio”, com a sensação de perda de mais uma vez, por ter saído de onde nunca deveria ter saído, mas isso é outra história, e começo a ser bombardeado com o “tabloidismo” que impera na comunicação Lusa, com peças gravadas com som actual e imagens de há dois anos, com opiniões abalizadas de maçaricos que nunca puseram o pé na terra da boa gente, acredita que mesmo os que sabem que é e sempre foi assim, os que dão sempre um jeito, os que mesmo durante a 2ª guerra de “libertação” nunca deixaram de trilhar a EN1 , dificilmente conseguem resistir ao “medo e o pânico martelado”, eu sou um desses apesar dos ecos da realidade vivida me irem dizendo que devo dar o devido desconto, tremo e abano, temo pelos meus e pelos nossos que não terão outro destino que não seja ficar onde de onde nunca sairão e de onde nunca eu deveria ter saído.
Pois, Luiz Rocha, mas tenhamos atenção. Uma coisa é refutar esta taralhouquice (será assim que se escreve?) jornalística. Mas, atenção, a situação está bastante preocupante, não se reduz a devaneios de jornalistas imberbes.
Pois eu tenho neste momento um elemento da família a cerca de 100-150 km do local onde a base foi atacada e os tiros se vão trocando. As indicações que tem são simples: não ir para longe da cidade, não sair de casa no dia das eleições e ir mantendo contacto permanente com o consulado na Beira (que lhe vai enviando e-mails diários com actualizações).
Fora isso sabe que se a coisa aquecer, que convém apanhar o primeiro avião para Maputo e voltar para Portugal, mas segundo ele para já tudo parece calmo por lá. As pessoas estão algo apreensivas, mas nunca em pânico. E isto muito mais perto da confusão…
É uma dupla confusão, João André, as acções da Renamo nessa zona, que têm vindo em crescendo, e agora que a sua base central foi atacada ainda mais. E a vaga de criminalidade na zona burguesa de Maputo (a sempre dita “Maputo-cimento”) que tem sido objecto de grande atenção mediática e que gera, fundamentadamente, apreensão dos residentes. Apreensão multiplicada pelo facto de tudo se estar a passar ao mesmo tempo.
Um filme muito antigo, mesmo muito antes da África “independente”, com o título “Um Adeus a África” desenhava muitos dos acontecimentos futuros.
África não está numa encruzilhada, ela está atolada. E serão necessárias 2 a 3 gerações, muito bem educadas e vividas, para remover todo o entulho que a cobre.
Conhecendo um pouco sobre a realidade brasileira, e partindo desta experiência também, constatava-se que a hereditária miséria era vista com uma (a)normal aceitação e encarada como uma condição, sem fatalismo, de tantos.
Poucos homens e mulheres, os inconformados, das mais diversas áreas – teólogos da libertação, alguns intervencionistas católicos e protestantes, oposicionistas ao regime, e outros do meio cultural – vireram demonstrar, alguns com a oferta de sua própria vida, que tudo isso podia ser mudado.
Uma nova realidade surgiu, os intervenientes estão mais educados sobre sua condição e da de seus semelhantes e o Brasil já não se resigna a pseudo-fatalidades. Que eu saiba tudo isto durou 3 gerações.
África lá chegará; e a Europa necessitará conhecer a sua própria miséria para deixar de ser miserável.
Portugal é um país à parte neste hemisfério miserável, porquanto enquanto os “doutores” puderem ser alimentados de títulos, os que vivem miseravelmente e os que espalham a miséria, tudo será aceite como condição.
Precisamos dos operários e dos iletrados para tornar Portugal um país digno.
Infelizmente… para os moçambicanos e estrangeiros, não é essa a opinião do escritor maior de Moçambique e da língua portuguesa : Mia Couto.***
( Não é só a Imprensa Lusa)
Não vale a pena adoçar a pilula. Os moçambicanos vivem prisioneiros da banditagem e do espectro da guerra.
*** Artigo já aqui reproduzido.
Eu sei que a interpretação dos textos é múltipla, e depende de vários factores. Mas também sei que ela é, quantas vezes (eu acho que na maioria dos casos, quando no seio dos verdadeiramente letrados) uma questão de decisão. Por isso mesmo me irrita, e de que maneira, essa arrogância comentadora que me põe a “adoçar a pílula”, ainda para mais quando escrevo sobre algo que me influencia a vida e da minha família e de tantos dos que me são próximos (aqui e aí). Sobre o texto do Mia, excelente, repito o que fiz nos comentários ao meu postal acima (posterior, portanto), remeto para um postal no meu blog (lá está, não quero encher o DO com a situação moçambicana), algo que me parece pouco curial na etiqueta bloguista mas julgo que este é um caso excepcional. Pode consultar, se tiver paciência, aqui http://www.ma-schamba.com/1697973.html onde o repliquei elogiosamente, complementando a minha irritação de family man.
Não se trata de negar a grave situação, adoçar pílula como a sua sapiência ecranística afirma. Trata de a afirmar (como está explícito no final do texto) e de refutar a hipérbole escatológica produtora de desconhecimento, irreflexão, e de … más-decisões.
Meu Caro
Não se irrite… a culpa é minha.. como sou parco de “letras”, por vezes perco-me na escrita…
Calculo muito bem o drama que se vive em MOÇ.
Vivi em LM os dias mais trágicos do pós 25 Abril , onde carros foram incendiados com os passageiros dentro( estrada Matola /LM… Era-mos revistados por “tropa” estrangeira, sujeitos ás maiores humilhações… Trabalhava numa fábrica na AV de Angola… ia trabalhar debaixo de escolta… Assisti e sofri com a tomada do Rádio Clube…
Tudo isto, meu caro, depois de ter passado 26 meses de guerra em Angola.
Como deve calcular, não sou propriamente um leigo na matéria… Não tenho, infelizmente, a seu dom de palavra…
Feliciadades
Sem querelas, confesso que “isto” (aka, eu) anda um bocado à flor da pele (e eu sempre fui um bloguista um bocado para o abrasivo, ainda que aqui no DO me tente comportar bem). Até breve
Ainda bem que não se blogo-calou é bom ter info-diversidade, já que estamos numa de neologismos.
abraço (eu, no facebook, acabei de inventar o “line-sharing”. Quer dizer, não sei se é invenção mesmo – quem é que hoje em dia pode dizer-se original – mas, pelo menos, nunca a tinha ouvido)
Magnífico texto, JPT. Fazes muito bem em romper o voto de silêncio e em escrever. Escreve mais, escreve muito. Faz-te bem e faz-nos bem. Grande abraço.
Abraço para ti, e muito obrigado, sempre, pelo espaço que me deste aqui
Obrigado, JPT.
Precisamos de saber estas coisas. Afinal todos nós conhecemos alguém que anda por aí ou que por aí ficou e aquilo que aqui nos chega pelos vendedores de notícias deixa-nos desconfiados.
Felizmente não fazes silêncio. Bem-hajas.
Abraço confrade blogo-veterano. Friso que este texto não quer afirmar um tonto “tudo está bem!”
Boa tarde JPT,
Fico feliz por perceber que, afinal, ainda não estou louco nem sozinho na percepção de histeria mediática e desajuste narrativo. Por coincidência, decidi também hoje escrever sobre isso mesmo:
http://digital-storytelling.net/blog/201 3/11/07/do-outro-barbaro/
ABRAÇO
Não está nada mal visto o que ali escreve. Preconceitos e tontos há em todo o lado, está visto. Abraço
Ainda bem que voltou caro JPT. E voltou com a verrina do costume, que tais dislates merecem.
É sempre um prazer lê-lo, quer aqui quer mo Ma-Schamba.
Um abraço e que as nuvens se dissipem
Obrigado, até breve
Caro jpt,
Gostei muito do seu texto.
Por favor, não se cale.
obrigado pela simpatia,
Bnoite JPT e outros…
São 22.56 regressei agora de uma volta a pé pelas Jules Nyerere, entre o polana shopping e o 96.
Talvez não tivesse o arrojo para fazer o trajecto que o JPT fez e, tão bem, descreveu e tenho total consciência de que estou numa zona “diferente” e resguardada. Apenas escrevo para ver se consigo meter em algumas ” cabeças duras” que Maputo não é um paraíso mas também não é o inferno que alguns querem fazer crer.
Prudência – sim, estar atento – sim, serenidade – sim, pânico – não. Poderemos, espero bem que não, chegar lá, mas ainda…
As poucas notícias que vejo da “terrinha” apontam apenas para situações limite e catastróficas, a minha vivência aqui recomenda-me serenidade e boa informação!
Srs. jornalistas, pf, não queiram só “parangonas” para vender jornais. Precisamos de informação actual e responsável! Venham até cá, vivam, “respirem” a simpatia e educação do povo Moçambicano, informem-se responsavelmente e então escrevam artigos.
Não agravem, por favor, com a V/necessidade mercantil um clima que, podia ser melhor, reconheço, mas que não é, de forma alguma, o caos que pretendem fazer transparecer.
JPT, um abraço, revejo-me em muito do que escreveu!
OBrigado LCV, pelo testemunho (a gente conhece-se?). É que alhures (FB) andam a dizer que eu sou maluquinho, a inventar isto, ainda bem que há outro(s) [se calhar também maluquinho, dirão] a dar conta da mesma sensação
Há sempre uma deformação da realidade em relação aos lugares onde há insegurança nas ruas – da agitação temporária até à guerra pura e dura – quando é vista por quem vive nos outros lugares, aqueles onde ela não existe (ou, pelo menos, onde ela nem de longe se possa comparar). Metade do mundo poderia ser descrito como “fantasma” por essa lógica. Se as pessoas não continuassem a fazer as suas vidas, ainda que com mais medos e cautelas, provavelmente enlouqueceriam.
Não posso estar mais de acordo. Trabalho e vivo desde o início do ano em Maputo, dirão alguns”estás verdinho”. E estarei. Cidade fantasma esta não é.
É um facto que nos últimos dois dias há menos trânsito e os restaurantes à noite têm menos gente. Esta que é uma cidade alegre de movimento nocturno, está trsitonha,
Existe um sentimento de insegurança mas uma das razões não está por si só nos raptos e gatunagem, que existe, está pelo menos para mim, no sentimento estranho de que se houver algum acontecimento desses comigo, eu provávelmente terei grandes dúvidas em me queixar à Polícia. Aqueles mesmos que nos tentam extorquir dinheiro em todas as ocasiões possíveis. Esta questão mais do que a impunidade dos bandidos, é a falta de segurança (não tenho outra palavra) de sabermos que a polícia não é fiável.
Afinal aqueles a quem deveríamos recorrer são eles mesmo corruptos e não confiáveis.
Esta é uma questão confusa para quem vem de fora mas que nos deixa “desamparados”.
Há roubos e raptos porque é uma sociedade profundamente desigual e porque o estado é fraco, dir-se-à. Pode ser. Mas o estado é fraco sobretudo porque os recursos são mal gastos, são roubados do estado muitas vezes por quem lá trabalha com a conivência do chefe que recebe uma fatia e de todos que permitem que isso se passe diante deles.
Já estou farto de ouvir que os estrangeiros como eu vêm cá “roubar ” recursos aos moçambicanos empregos, oportunidades. Não, não vimos. Vimos trabalhar, ganhar com o nosso conhecimento e muitas vezes com recursos dos nosso países (doações e investimento), fazer obras, consultorias e outros trabalhos para os quais não há competências locais na maior parte dos casos. E sim com o nosso trabalho pagamos alugueres de casas a preços inacreditáveis – casas essas que muitas vezes não custaram um metical a quem é o dono – e comida ao dobro do preço que custa em África do Sul, e vamos aos restaurantes caros, ao cinema, aos espectáculos, metemos gasolina no carro que cá comprámos e dormimos em camas que comprámos a moçambicanso também. E ainda bem. Mas não nos culpem das vossas insuficiências. Não nos culpem de terem um estado que rouba recursos aos cidadãos, um estado que não tem um sistema educativo capaz, que forma mas não dá competências, não combate a pobreza deste país que é de uma gravidade que eu desconhecia existir.
O estado moçambicano está doente, e está doente por corrupção ganância dos próprios moçambicanos, sim não são os estrangeiros que beneficiam disso, não, os estrangeiros são como eu de países que financiam o estado moçambicano através de doações (50% do orçamento de estado).
Se calhar não é politicamente correcto, mas e que tal se os moçambicanos olhassem para si mesmos e resolvessem as suas questões internas em vez de com facilidade culparem os estrangeiros pelos males que vêm dos mesmos cá estarem e trabalharem?
Cresçam, amadureçam, pensem um bocadinho nisso e reflitam sobre o que podem mudar para fazerem do vosso um país ainda melhor.
Bom dia
Enviaram-me este link , já fui costumeira neste meio, mas desde que estou em Moçambique o tempo tem sido escasso.
Estou por cá desde Janeiro, Mais a norte, cidade pequena, mas pacata, onde os rumores chegam com se de outro país se tratasse. Os alertas chegam de quem lê, no país que deixámos, os jornais.
Por aqui a segurança deve ser observada, mas assim me recomendaram desde o principio, e nada mudou. Mais barulho, que as eleições estão a chegar, mais musica, que nada se faz sem ela, mas as ruas continuam a permitir uns passeios transpirados, Não sou arrojada o bastante para sair sozinha de noite (condicionalismos do feminino) mas o dia nada tem de diferente.
Gostei de o ler, vou guardar o link .
Obrigada pela partilha
Obrigado. Boa sorte aí acima.