Um ano após a sua morte física, Hugo Chávez devia reaparecer ao seu herdeiro político, o incompetente Nicolás Maduro, e dar-lhe uma séria reprimenda. Desta vez não em forma de passarinho mas de outro animal, menos delicado. Porque o caricato sucessor do pai da “revolução bolivariana” nada mais tem feito do que agravar a situação da Venezuela, embora possa alegar a seu favor o facto de que o país já caminhava para o abismo no momento em que ele iniciou funções no Palácio de Miraflores, a 8 de Março de 2013.
A verdade é que a Venezuela, primeira exportadora de petróleo da América Latina e detentora das segundas maiores reservas de gás natural do hemisfério ocidental, está em regressão contínua: ninguém ignora que os protestos de rua — violentamente reprimidos pelas “forças da ordem”, incapazes de travar o passo aos gangues do crime — resultam de genuínos sentimentos de indignação. Os trabalhadores vêem o poder de compra devorado pela inflação, que ascende a 56,2% — a pior cifra mundial, sete pontos percentuais acima da Síria, país há três anos em guerra. As donas de casa passam horas em filas nas lojas, muitas vezes em vão porque o sistema de abastecimento alimentar entrou em colapso desde que Maduro incentivou uma onda de “assaltos populares” a supermercados (o que até já mereceu críticas de Mário Soares). Os estudantes indignam-se justamente com os prolongados apagões nas principais cidades, incluindo Caracas, devido à falta de investimento e manutenção na rede eléctrica por um Estado confrontado com o crescimento da economia paralela e um défice correspondente a 11,5% do PIB.
Bem-vindos ao “socialismo do século XXI”, onde o Governo legisla por decreto, sem prestar contas ao Parlamento: encontramos aqui, aplicada ao vivo, a receita que já provou ser uma via directa para a ruína económica e social noutros quadrantes, condimentada com o tempero caribenho propício a estas paragens.
Caracas é hoje a capital mais violenta do planeta. No país de Maduro, uma pessoa é assassinada a cada 20 minutos. Há 68 homicídios por dia e a esmagadora maioria dos crimes permanece impune, como sucedeu com o recente assassínio de Monica Spear, Miss Venezuela 2004. A acção repressiva do Governo vira-se não contra as estruturas do crime organizado mas contra as reclamações da pericilitante classe média urbana que nas últimas três semanas tem acorrido às ruas em manifestações contra o sucessor de Chávez enfrentando as balas disparadas pela polícia anti-motins ou por membros das milícias pró-Maduro, inspiradas no modelo cubano. O balanço é trágico: 19 mortos e 318 feridos.
Todos os canais de televisão que davam voz ao líder da oposição, Enrique Capriles, deixaram de emitir por verem os alvarás revogados ou passaram a entoar loas ao Executivo bolivariano na sequência de alterações às respectivas estruturas accionistas. O sinal de acesso à internet é cortado com frequência pelo Governo, apostado em travar também as críticas nas redes sociais. Um Governo que mudou radicalmente o tecido económico do país, desencadeando mais de mil nacionalizações de empresas, tornando-as ineficazes. Correram mundo as imagens de pilhagens de televisores de plasma em lojas de artigos electrónicos, sob o olhar complacente da polícia, enquanto milhares de venezuelanos acorriam em vão a outros estabelecimentos em busca de papel higiénico.
Muitas das grandes empresas nacionalizadas estão hoje nas mãos de membros da oligarquia militar, que na prática conduz os destinos da Venezuela. São militares sete ministros de Maduro (incluindo o das Finanças e o do Interior), o presidente do Parlamento, Diosdado Cabello, 11 dos 23 governadores estaduais e muitos embaixadores (incluindo o representante diplomático da Venezuela em Lisboa, um general aposentado). Todos camaradas de armas do falecido Chávez, que lhes aumentou o soldo e os cumulou de benesses para refrear qualquer intuito golpista. O civil Maduro, ex-sindicalista e antigo condutor de autocarros, permanecerá no poder até ao dia em que os militares permitirem, sendo cada vez mais provável que não concluirá o seu mandato.
A partir desse dia ficará mais disponível para escutar os chilreados de um passarinho gentil que lhe assobiará aos ouvidos, com todos os seus recursos de ave canora, aquele estribilho tão familiar e tão mavioso: “Socialismo o muerte!”




Muitas das grandes empresas nacionalizadas estão hoje nas mãos de membros da oligarquia militar
Isto não é verdade somente na Venezuela. Há diversos outros países, incluindo alguns bons amigos do “Ocidente”, nos quais os militares detêm grande parte da economia. Por exemplo, o Egito e o Paquistão.
Sim, mas hoje apeteceu-me escrever sobre a Venezuela. Para assinalar o primeiro aniversário da entrada em funções de Maduro.
Tá muito bem visto, Pedro. E viajando por seu texto deparo-me com a sequinte sequência: Maduro começou como uma ave canora e transformou-se no canto do cisne.
A Venezuela tem em suas mãos todas as potencialidades para mudar o rumo de seu destino anterior a Chávez, mas falta-lhe, com esta forma de governar, capacidade e competência para o realizar.
O que muito me irrita neste tipo de revoluções “socialistas” é o facto de elas se transformarem em tudo iguais aos seus predecessores. Sim, o pedaço está guardado para quem o há-de comer.
Socialistas entre aspas porquê?
Um Estado com este poder resulta em violação dos direitos humanos e nacionalizações, depois temos naturalmente escassez e incompetência generalizada que são os clássicos resultados do socialismo.
Socialismo é uma ideologia populista que se arroga de enorme poder sobre as pessoas.
Apetece escrever sucialismo. De súcia. Sem aspas.
Ó homem calma. A malta não está aqui para morrer do coração; calma!
Aqui seguem conceitos sobre socialismo e a demonstração da abrangência do tema. É só uma geral porque os finalmente são mais longos (-:
http://www.significados.com.br/socialism o/
Agora pensemos: justifica ou não justifica a colocação das aspas?
É uma excelente frase-síntese para definir o consulado de Maduro, caro Vento. “De ave canora ao canto do cisne”.
É desgostante ver como os 5 mil milhoes gastos na desestabilização da Ucrania – aqui presumo pelas riquezas em petroleo e gaz natural que gordas somas foram investidas se tornam tão produtivas com incompetentes videntes de passarinhos. Temos a visão de olhar para a ganacia anglosaxonica mas estes palhaços fazem metade do trabalho, e fraglizam a America Latina toda que comapaciencia de Lula e Dilma estavam a progredir para uma autonomia real e solida dos golpistas.
O falhanço é tão gritante que até um passarinho percebe, caro Cristof.