As redes sociais funcionam com surtos virais de pequenas e micro indignações. Alguém sopra uma coisa via telemóvel, o sopro salta para o twitter ou o facebook — e é quanto basta para se assemelhar a ignição de fogo pronta a incendiar a pradaria mas que afinal se limita a chamuscar uns canteiros. Mal as chamas irrompem num determinado local, logo outro foco se propaga noutro sítio com o mesmo grau de aparente intensidade do anterior e com a mesma duração média, que raramente ultrapassa a extensão dos dias úteis. Até porque o domingo se fez para o descanso.
E assim sucessivamente. Tudo macro indignado. Até à micro indignação seguinte.

raramente ultrapassa a extensão dos dias úteis. Até porque o domingo se fez para o descanso
É curioso este descanso nos domingos, que está instituído até numa coisa tão ativa e movimentada como os mercados financeiros.
Há quem diga que o descanso de 7 em 7 dias foi o maior contributo da cultura judaica para a Humanidade.
Acredito que sim. Aliás instituído depois disso noutras matrizes civilizacionais, como nas sociedades islâmicas. Com a diferença de aí o dia de descanso ser à sexta-feira.
Errado, Pedro Correia. No islamismo nada há que diga que se deve descansar à sexta-feira, ou noutro dia qualquer. A sexta-feira é apenas o dia em que tradicionalmente se realiza uma oração em comum na mesquita, seguida de sermão por parte do imam. Mas não existe qualquer preceito islâmico que diga, nem que os crentes devam assistir a essa oração em comum (podem perfeitamente preferir orar em privado, em sua casa ou alhures), nem que os crentes se devam abster de trabalhar à sexta-feira. Aliás, o próprio profeta Maomé trabalhava à sexta-feira – comerciando no mercado em Meca antes de dirigir a oração em comum. O hábito de orar em comum à sexta-feira surgiu precisamente porque esse era o dia do mercado semanal em Meca, que o profeta aproveitava para fazer uma reunião de todos os crentes, uma vez que todos iam ao mercado.
Facilmente o Pedro constatará em Lisboa que a generalidade dos negócios pertencentes a muçulmanos estão abertos à sexta-feira mas fechados ao domingo.
Os negócios de muçulmanos que conheço em Lisboa estão abertos todos os dias.
A ler:
http://www.vercapas.com/noticias/a-trind ade-da-vigarice/1960197.html
A-Vieira
Excelente artigo. Vou destacá-lo.
Passado, mas actual
https://www.nytimes.com/2015/02/15/magaz ine/how-one-stupid-tweet-ruined-justine-s accos-life.html
É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto.
Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.
Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.
Miguel Torga
Moureja? Esse verbo é politicamente muito incorrecto.
Já agora, como se torna um assunto importante que deve ser do conhecimento público, viral?
Depende muito do assunto.
Como assim?
Depende daquilo que estiver a falar.
É um assunto importante.
[(Y)
Pedro Vorph
“As redes sociais funcionam com surtos virais de pequenas e micro indignações. “
Perfeito, Pedro! Esta frase diz bastante, diz muitíssimo senão praticanente tudo, sobre o en-redo sociocultural.
Geralmente, as montanhas de refugo cibernético parem ratos anémicos acorrentados a hashtags rídículos que se espumam em raivinhas tristes e que rapidamente perdem o pódium para outras iras que tomam tudo de assalto com o fulgor de um fósforo.
“Até à micro indignação seguinte.”
https://aventar.eu/2019/03/13/redes/#mor e-1297225
Os monges iluministas também não devem ter ficado a gostar muito de Gutenberg.
WW