![21901543_0mYgh[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2020/21901609_Izq1Y.jpeg)
Este caminho público do qual se vê a entrada é bordejado por três casas, e vai dar a uma antiquíssima rua, que todavia tem outros acessos mais cómodos. O serviço municipal de jardins limpa-a na ocasião de aparar a sebe, aí uma vez por mês. No mais, a parte que corre ao longo do meu terreno, que é a maior, está irrepreensivelmente limpa porque disso trato eu; e neste ponto, que é mais largo e onde por isso estacionam carros, a esterqueira é de rigor. Os locais deitam tudo para o chão e seria possível fazer um estudo sobre a sociedade de consumo, demografia e rendimentos desde 1975 (que foi quando para aqui vim), apenas com base nos detritos que se encontram. Por exemplo, dantes recolhia muitos cotonetes, sinal seguro de que havia bebés ou uma epidemia de otites; em tempos havia seringas e garrafas de água, indicação de por ali estadearem enfermeiros sedentos; e agora é mais embalagens de todo o tipo de alimentos, para chocolates, hambúrgueres, barras de não sei quê e outro lixo de que se alimentam as pessoas, além de garrafas, eletrodomésticos avariados, móveis fanados, maços de tabaco e, recentemente, máscaras contra o medo, invariavelmente azuis porque as de fantasia são mais usadas por pessoas de representação.
O estudo teria grande interesse. E, fosse eu um académico das ciências sociais, poderia fazer um paper muito bem acolhido pelos pares e ecoado na imprensa se estabelecesse, o que não parece particularmente difícil, adequadas correlações com a depauperação dos recursos naturais, a obesidade, a violência doméstica, o heteropatriacardo, as causas profundas da queda da taxa de natalidade e os males insanáveis do capitalismo.
Mas como não sou fico-me pela constatação de que já foi pior, digo-o com a tranquila autoridade de quase meio século de experiência. E a câmara local, que tem os tiques abomináveis de todas as outras, isto é, no essencial, ser um repositório de quanta moda cretina anda no ar da gestão local, e torra milhões com quadros pletóricos de inúteis e requalificações urbanísticas modernaças enquanto proliferam bairros de jagunços, para não falar do ódio militante ao automóvel, nem tudo fez mal: o centro velho da cidade, onde não ponho os pés, foi recuperado; os serviços de jardins e arborização têm feito há décadas um excelente trabalho; e por todo o lado há receptáculos de lixo ligeiro, onde se encontra o que estaria no chão se não existissem.
Quer dizer que é preciso paciência. As coisas poderiam ser aceleradas se houvesse incentivos, além dos recipientes, para as pessoas não sujarem, por exemplo isenção de taxa para quem se comprometesse, sob compromisso de honra, a manter limpo um xis número de metros em torno da sua habitação.
Ideia maluca, bem sei. Honra, compromissos, isenções… o paleio é mais adjudicações, taxas, multas, posturas, negócios verdes e obrigações.
É por isso que desconfio desta iniciativa. Pedante desde logo pela sigla inglesa. Bem sei que os locais, desde que dividam uma chafarica em duas, lhe chamam group, mas têm a desculpa de serem exportadores. A Câmara não tem desculpa nenhuma, a menos que o throw representado na sigla queira dizer vomitar por causa da parolice, caso em que lhe falta a partícula up. Depois, a notícia, cálculos e previsões não faz, o que em si interessa pouco: seria provavelmente propaganda. Diz o quê, então? Isto:
“O PAYT potencia a recolha selectiva através de um tarifário de resíduos no qual existe uma relação directa entre o pagamento e a produção de resíduos indiferenciados. Ou seja, os aderentes ao sistema pagam pelos sacos que utilizam para depositar o lixo indiferenciado que produzem e beneficiam de uma redução/isenção na taxa de resíduos que é cobrada na factura da água.”
Tradução: o serviço é o mesmo, mas mais caro. Como os aumentos de taxas não estão em odor de santidade, há que os embrulhar na retórica dos descontos e obscurecer o processo de tal modo que ninguém consiga apurar se o munícipe ganha ou perde no processo. E para fechar o canivete aos que constatem que perdem, levam já adiantada a explicação: produzem muito lixo, seus porcos.
Bem visto, e a manobra foi premiada, uma grande honra. Fui ver quem deu o prémio e aquilo é uma floresta de organismos verdíssimos, tudo dependurado na UE, uma organização benemérita que distribui dinheiro milagroso, que nunca foi nem vai ser cobrado, e prémios a quem pensa o que acha que se deve pensar.
A coisa ainda não chegou aos meus lados, que vivo na periferia. Mas chegará e não tenho dúvidas de que vou pagar mais. De vingança, seria capaz de deixar de limpar o caminho público. Seria. Mas não vou: tenho, de graça, pelo espaço público, o respeito que parte dos meus concidadãos, e a Câmara, dizem que têm.

“Os locais deitam tudo para o chão e seria possível fazer um estudo sobre a sociedade de consumo, demografia e rendimentos desde 1975 (que foi quando para aqui vim), apenas com base nos detritos que se encontram”
Claro. Quando eu era jovem, o lixo era constituído por restos de comida, peles de coelhos, penas de galinha etc. etc. (era aquilo de que as cozinhas estavam cheias). Agora é essencialmente constituído por embalagens, plásticos etc. Quando despejo o lixo noto sempre que é completamente distinto do da minha juventude.
Quando eu era jovem, um dos lugares mais sujos das casas (de muitas casas) era a cozinha. Um dia um amigo levou-me a um sítio onde, dizia ele, cozinhavam á frente dos clientes. Não quis acreditar, exactamente porque achava que seria exibir sujidade aos clientes o que seria desagradável num restaurante. Fui lá e era verdade e tudo com uma limpeza que me impressionou e espantou. Começavam a aparecer em Lisboa estabelecimentos que hoje são vulgaríssimos.
Isto passou-se no início dos anos sessenta e o tal local era chamado Noite e Dia e ficava na Av. Duque de Loulé.
Eu não residida em Lisboa e esse mesmo amigo contou-me que na capital havia uma espécie de leite azedo que, com açúcar, era muito bom. Um dia descobri que isso se chamava iogurte.
Como as coisas mudam com os anos…. Que é mais jovem em geral não acredita.
É uma câmara do norte, carago! Bastante inovadora.
O JMG fez um trabalho de investigação bastante pedagógico: conseguiu revelar como se processa o branqueamento de capitais em época de sustentabilidade. Como se transforma dinheiro sujo – que agora leva por nome desperdício – em dinheiro limpo e sem espinhas.
É desta vez que Portugal decola. Até o Afonso Henriques coloca máscara. É da terra do conquistador que vem a salvação.
isenção de taxa para quem se comprometesse, sob compromisso de honra, a manter limpo um xis número de metros em torno da sua habitação
Então as pessoas já são obrigadas a limpar o lixo que as pessoas atiram, por cima do muro, para dentro do seu quintal, agora também seriam supostas o lixo que os outros deixassem na rua ao longo do quintal?!