BEN-HUR
de Lew Wallace
Ainda criança, li A Morgadinha dos Canaviais. E A Selva. E os habituais livros de aventuras muito em voga naquela época, com capas e lombadas que fixei para sempre. Os da Biblioteca dos Rapazes, da Portugália, com capas de Infante do Carmo, Câmara Leme e Júlio Gil: nessa altura, que era o tempo certo, dessa colecção marcharam Os Três Mosqueteiros, de Dumas, A Ilha do Tesouro, de Stevenson, Robinson Crusoe, de Defoe, e O Príncipe e o Pobre, de Twain — os primeiros romances “juvenis” que me deslumbraram ainda em miúdo (o primeiro romance infantil que li, e que jamais esquecerei, foi Pinóquio, de Carlo Collodi).
Mas os meus preferidos, nesses anos das primeiras leituras, eram os da Colecção Histórias, editados conjuntamente pela Bertrand e pela Editorial Íbis. Pelas suas capas multicoloridas, quase sempre representando uma cena de acção, e pelas originais lombadas, onde figuravam os rostos desenhados das quatro principais personagens do livro — fosse ele o emocionante Miguel Strogoff, de Verne, ou o pungente Oliver Twist, de Dickens. Ou o Robin dos Bosques. Ou o Rob Roy.
O meu interesse por estes romances surgia na proporção inversa ao bocejo que me causavam as obras da chamada “colecção para raparigas”, com títulos como Heidi, Fabíola, Mulherzinhas e A Cabana do Pai Tomás. Se fosse hoje, não faltaria quem dissesse que estas colecções dicotómicas se limitavam a reproduzir “estereótipos de género”, aprofundando a natural tendência das meninas para brincar com bonecas e dos meninos para brincar com carros.
A verdade é que os meus primeiros heróis literários usavam capa e espada. Resgatavam donzelas em perigo. Viajavam sem temor até às mais remotas paragens. Faziam frente aos corsários. Tiravam aos ricos para dar aos pobres. Passavam mil privações por serem órfãos mas revelavam-se capazes de enfrentar todos os ventos adversos.
Alguns desses heróis não tinham o carisma de um David Crockett, a irreverência de um Scaramouche ou a ousadia de um D’Artagnan. Eram figuras quase anónimas, perdidas na imensidão gelada do Alasca, para onde me transportavam as páginas de aventuras de Jack London em obras como A Febre do Ouro, Smoke Bellew e Nas Florestas do Norte. Devo à Livraria Civilização, que as lançou em Portugal, alguns dos momentos mágicos desse tempo em que apenas gatinhava como leitor, muitos anos antes de prolongar essa sensação de encantamento em obras como Moby Dick, Pela Estrada Fora, Babbitt, A Curva do Rio, Memórias de Adriano, O Céu que nos Protege ou O Fim da Aventura.
Mas nem todos os livros têm o condão de nos prender, como não tardei a concluir.
Uma dessas obras da Civilização, livro de bolso em dois volumes, tinha um título insólito: Ben-Hur. Assinava-a um tal Lew Wallace, apresentado como escritor mas também como general do exército dos Estados Unidos, o que não deixou de me causar estranheza.
Os meus heróis costumavam ser de épocas antigas. Do século XVII, como Robinson ou D’Artagnan, da Londres vitoriana, como David Copperfield, ou até oriundos dos confins da Idade Média, como Ivanhoe. Mas Ben-Hur era muito mais antigo: do tempo de Jesus Cristo, como o extenso romance do general Wallace se apressava a informar logo nas páginas iniciais.
Várias vezes iniciei a leitura deste livro originalmente editado em 1880 — muito antes de saber que permaneceu durante mais de meio século no topo das vendas nos EUA, vindo a ser destronado apenas em 1936, com a publicação de E Tudo o Vento Levou. E várias vezes acabei por deixá-lo de parte, sempre com uma vaguíssima sensação de culpa, pois uma voz adulta havia-me em tempos assinalado a importância de tão popular obra.
Todas as tentativas fracassaram: foi talvez o único livro “juvenil” cuja leitura interrompi com carácter irrevogável. Só muito tarde, já bem adulto, veria o filme homónimo inspirado no romance: Ben-Hur, galardoado em 1960 com uma chuva de Óscares em Hollywood, incluindo melhor película, melhor realização e melhor desempenho masculino (Charlton Heston, herói das matinés, como então se dizia).
O filme, que é hoje lembrado sobretudo pela antológica cena da corrida de quadrigas, poderia ter-me reencaminhado para o livro. Mas a verdade é que isso não sucedeu. E Ben-Hur lá permaneceu, quase intocável, numa das prateleiras do fundo da minha biblioteca.
Perdi-lhe entretanto o rasto e não faço a menor ideia onde se encontra.
Desculpe qualquer coisinha, respeitável general Wallace. Mas agora, que já vi o filme e conheço a história, dispenso-se ainda mais de ler o que escreveu. Mais facilmente voltaria a embarcar pela enésima vez com Jim Hawkins e Long John Silver rumo à Ilha do Tesouro.






Receei que tivesse deixado a meio “Os Tres Mosqueteiros” da colecção Histórias que muito apreciei na minha juventude. Ainda tenho o Robinson Crusoe, o David Copperfield, os Três Mosqueteiros, o Vinte Anos Depois e constatei agora que mais três da mesma colecção mas que não vou citar por não me ter lembrado deles ao escrever este texto. Por qualquer motivo não gostei do Rob Roy ainda dessa colecção. E em tempos escrevi um post sobre o Robinson Crusoe, inspirado por uma ida ao dentista: http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2009/0 1/ilha-deserta.html
Deixar a meio Os Três Mosqueteiros? Nem pensar. Depois desse, li também ‘Vinte Anos Depois’. Faltou-me ‘O Visconde de Bragelonne’, que ainda hei-de ler.
O seu texto vem mesmo a propósito, meu caro. É precisamente esta uma das colecções que menciono: deixou-me muitas saudades.
(E grande imagem essa, de Olinda: só de olhar deu-me uma vontade enorme de viajar para lá.)
Caro Pedro
Gostei imenso das suas referências à colecção Histórias, que me deixa, como muitas outras de livros de aventuras, um enorme sentimento de saudade, e a Jack London, que, como contador de histórias, continua, para mim a ser inultrapassável. Não digo que seja o maior do género – esse lugar reservo-o, menos por razões de ordem literária que pela memória das inúmeras horas de prazer que me proporcionou, enquanto criança e adolescente, para o grande Emilio Salgari – mas é certamente, um extraordinário escritor, com uma imaginação prodigiosa e uma capacidade ímpar para nos manter presos àquelas personagens e cenários exóticos, normalmente as florestas do norte gelado e os mares do sul.
Jack London, sobre o qual muito haverá a dizer, morreu novo, com quarenta anos, e uma das excentricidades, se assim lhes posso chamar, que o distin guiram foi um socialismo ingénuo, que associou candidamente a um racismo que assumia sem problemas, tendo chegado a dizer que “sou socialista, mas acima de tudo sou branco”. Essa ingenuidade está particularmente presente num dos poucos romances que escreveu, O Lobo do Mar, a história do brutal comandandante Wolf Larsen e de Humphrey Van Weyden, um cavalheiro salvo de um acidente naval, usado pelo primeiro para os seus fins de domínio da tripulação e de experimentação dos seus conceitos sobre a natureza humana, em que visões quase infantis do marxismo, do darwinismo e de outras ideias que Jack London professava, sem, manifestamente, as dominar, são expostas com desarmante simplicidade.
Não é o momento de prolongar estas notas sobre Jack London, que, de certeza, conhecerá melhor do que eu. Mas, sabe como é, queria só dar-lhe conhecimento de mais esta afinidade, depois começo a estender-me e, se não me acautelo, faço com que perca a paciência para, mais uma vez, me aturar. Não faltarão ocasiões para trocarmos impressões sobre este e outros fantásticos autores de livros de aventuras. Como costumo dizer, quem, da nossa idade, não gostar do género não teve uma infância e uma adolescência felizes.
Um abraço e cordiais SL
Ainda bem que gostou, meu caro. Esta série ‘Livros que deixei a meio’ é uma forma – creio que original, sem falsas modéstias – de falar dos meus amores e desamores em literatura. Muito mais de amores do que desamores, aliás.
Há livros que nos marcam para toda a vida. Aconteceu com vários dos que menciono. E muitos desses títulos são inseparáveis de colecções juvenis (‘juvenil’: um termo que se usava muito então e se tornou quase anacrónico) que por motivos geracionais nos influenciaram também para sempre.
Esta colecção Histórias era particularmente feliz por conjugar títulos da literatura clássica com banda desenhada, algo muito inovador para a época. E que, de facto, contribuía para prender ainda mais a nossa atenção de miúdos irrequietos.
Tenho pena de não possuir hoje nenhum desses títulos, que aliás nunca vi reeditados. Mas se alguma vez puder hei-de recuperar alguns deles em alfarrabistas. Um saudável regresso ao passado.
Um abraço amigo, com inevitáveis Saudações Leoninas.