Falamos de mais. Da vida dos outros e até da nossa. Quando qualquer delas só deveria interessar aos próprios.
Desvendamos as nossas casas como se elas não fossem o nosso mais intimo refúgio e como tal não devessem apenas ser reveladas ao mais próximos. Partilhamos casamentos, baptizados e divórcios. Falamos das nossas doenças e até fazemos livros sobre elas. Enfim, nesta pós modernidade, habituámo-nos a viver nus. De corpo e de alma, sem que isso pareça já incomodar ou surpreender alguém. Ou seja, como se diz no nosso povo sábio “pomo-nos a jeito”!
É evidente que se podem abordar todos estes temas – afinal eles fazem parte de viver – mas não há nenhuma necessidade de os personalizar.
Se há algo que não faço sobre os outros, são juízes de valor ou de carácter, embora quem navegue na net seja isso que encontra em grande profusão, numa leitura do que é publicado e sem o menor conhecimento da vida real ou circunstâncias das pessoas em causa. São criaturas que fazem a sua própria catarse, bolsando ódio sobre os outros e sabendo sempre melhor que os próprios, o que fariam no seu lugar. A mim confrange-me um pouco porque sei o que está por detrás desses comentários odiosos.
A imprensa e a net têm sido o caldo de cultura e o desagradável veio de transmissão de tudo isto. Mas há uma responsabilidade individual que assaca todos nós, os consumidores de tais enormidades. Não há, de facto necessidade, como diria o nosso diácono Remédios!


Há até várias ideologias dedicadas a interferir na vida dos outros:comunismo, islamismo, socialismo,sociais democratas, centristas etc..
O seu texto, Helena, é interessante. Não certamente pela novidade, que não contém, mas porque em torno do mesmo permitir-nos-á dissertar e dissecar vários aspectos.
Afirma a Helena em sua reflexão que “A imprensa e a net têm sido o caldo de cultura e o desagradável veio de transmissão de tudo isto”. Concordo e discordo parcialmente. Concordo que a imprensa e a net têm sido (também) um desagradável meio de transmissão de tudo isto, e discordo que a imprensa e a net sejam o caldo de cultura. Não são o caldo de cultura, elas têm transmitido a cultura que, transversalmente, tem alimentado gerações de portugueses.
Na realidade há uma instituição nacional que superintente todas as outras instituições, até à família: essa instituição leva por nome má-língua e má educação no que respeita à nossa privacidade e à dos outros e, mais grave ainda, julga-se (essa tal instituição) acima de tudo e até mesmo no direito de tudo regular.
Posto isto, considero, irrevogavelmente, que o caldo de cultura inicia-se no berço. É verdade que a má-língua tinha como hábito encerrar-se à sucapa e entre quatro paredes (paredes de qualquer lugar, entenda-se) e daí atravessar outras por forma a que o interesse subjacente penalizasse o alvo, quase sempre sem que o alvo soubesse do porquê de sua “morte”.
Agora não, agora “pomo-nos a jeito”, “dá-nos” jeito e com jeitinho “procuramos” ajeitar o que não tem jeito.
Sim, Helena, concordo com o Drummond de Andrade, também parcialmente, o “de não interferir na vida dos outros”, ainda que saiba que é muito difícil não dar resposta quando os outros interferirem na nossa.
Infelizmente, hoje, em nome de um estado de direito, interfere-se com a vida de todos e “refugiamo-nos” na desculpa de não poder dizer para justificar perante o(s) visado(s) o que queremos dizer e fazer.
Dizia o Grande Ghandi: “se adoptarmos a política do olho por olho corremos o risco do mundo ficar cego”. Ele, o mundo, já anda vesgo; daqui à cegueira o passo é curto.
Vejamos por partes:
Quando falo de caldo de cultura refiro-me ao meio em que estes dislates se produzem, grande parte dos quais nasce em gente que até tem instrução. O que não soube aprender foi a educação…
O problema de ela se “iniciar” no berço é que há muita gente que o não teve. Não por sua culpa, mas porque lhos não nasceram nele.
Finalmente “pensar diferente” é bom. Discutir ideias também. Mas os “tais” não discutem, ofendem, fazem julgamentos de carácter sem se olharem ao espelho e perguntarem a si próprios se têm autoridade moral para o fazerem. Infelizmente, este é o nosso conceito de liberdade e de democracia…
Ocorreu um erro no envio do meu comentário a este seu comentário e vou novamente abordar o tema da minha resposta:
Helena, eu percebi o seu texto e a minha resposta foi no sentido deste entendimento. Por isso mesmo discordei e concordei parcialmente.
Por outro lado, a instrução, nesta matéria, nunca foi e não é passaporte, mas a educação sim. E o facto desta educação se efectuar no berço tinha como sentido a absorção de conhecimentos, experiências e, digamos, a transmissão de uma mundividência.
A educação, em regra, transmitida é uma educação formal, ritual, feita para “si” mesmo e dirigida para um aplauso público (públicas virtudes e pecados privados). Existia, e ainda existe, uma espécie de “diplomacia” (fingimento social) e outros rocócós que permitem encapotar uma insuficiente educação, transversalmente.
Sim, pensar diferente é bom, e foi exactamente o contrário disto (entenda-se a uniformidade e viciação de pensamento) que eu pretendi contrariar em meu comentário, que é causa da nossa reflexão. Esta uniformidade mantém-se, só que o conceito de vergonha e o medo desapareceram. Ainda hoje, em nome de um falsa transparência e de uma “mente aberta”, cometem-se os mesmos erros que outrora julgava-se ficarem encerrados numa gaveta.
Nos primeiros tempos de minha aprendizagem ao cristianismo, com a consequnte aprendizagem da tradição judaica e suas raízes (sem esquecer a inculturação e a antroplogia social), deparei-me com uma afirmação que me perturbou e que só mais tarde compreendi seu sentido, é esta: “os filhos pagarão pelos erros de seus pais”.
À medida que fui crescendo em conhecimento, vivência (com erros e virtudes, e sempre apreciando os erros que conduziram às virtudes) e experiência compreendi que Jesus, o Cristo por antonomásia, também foi vítima da tradição (entenda-se educação de uma sociedade), até à morte de Cuz. Por isto mesmo faz todo o sentido a afirmação: “quem deita as mãos ao arado e olha para trás não está preparado para o reino”. E é isto que ainda hoje vigora na nossa educação.
Este reino de que Jesus nos deu, e dá, conta é comparado a uma pequena semente que depois de lançada à terra permite que a árvore cresça e proporcione que seus ramos frondosos abriguem as aves do céu, mas também a uma mulher que possui 3 medidas de farinha e juntando-lhes um pedaço de fermento espera que a massa levede.
Significa isto que este reino é feito de espera, conhecimento, paciência, dor e tanto mais. Logo, a educação que não possua estes ingrediendes, e espere que a semente se transforme eem árvore ou que a massa levede, é meramente formal e nada funcional, que é ainda o nosso caso.
No entanto, o conceito de democracia e liberdade que vivemos em Portugal não é diferente do que se vive nos restantes países do hemisfério ocidental, e até mesmo conhecemos uma importação de muitos desses conceitos e vivências.
Finalizando, é necessário compreender que todos os filhos em todas as gerações foram vítimas de erros anteriores e também autores de outros tantos, porque a tradição, mesmo quando a contrariamos, deixa profundas raízes no ser. Infelizmente, o que hoje ainda assistimos não é nada mais nada menos que o reflexo desses erros, só que agora a céu aberto.
Temos de iniciar o testemunho de todos os nossos erros e pecados (pecado, no hebraico, significa errar o alvo), em todas as gerações viventes e adultas, sem medos e sem os preconceitos que tanto atam este povo. Tudo isto para ver se evitamos a cegueira.