Há livros que nos abrem o apetite para conhecermos países e cidades. De tal maneira que, mal chegamos ao fim da obra, nos apetece logo fazer a mala e embarcar. Aconteceu-me com a capital francesa depois de ler Paris É uma Festa, de Hemingway, e vários policiais de Simenon. Aconteceu-me com Barcelona, depois de ler Os Mares do Sul, de Vázquez Montalbán. Aconteceu-me com Londres, depois de ler O Livro das Cidades, de Cabrera Infante. Aconteceu-me com Amesterdão, depois de ler A Porta no Chão, de John Irving. Aconteceu-me com o Rio de Janeiro, depois de ler esse fabuloso livro homónimo que lhe dedicou Ruy Castro – autêntica carta de amor à Cidade Maravilhosa.
Mas também podemos apaixonar-nos por uma cidade que ainda não conhecemos ao ver um filme. Aconteceu-me com Viena assim que vi Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, espécie de Casablanca dos anos 90 sem guerra nem nazis. Corria ainda o genérico final no ecrã e já eu fazia planos para rumar sem demora à capital austríaca, seguindo os passos de Ethan Hawke e Julie Delpy nesse filme hipnótico. E assim foi. Com uma diferença de pormenor, que neste caso era de pormaior: o filme passa-se no Verão e eu aterrei em Viena no Inverno, faiscavam as luzes de Natal na Rathaus. Com seis graus negativos, as águas do Danúbio estavam geladas e a animação de rua reduzida ao mínimo. Mas apanhei o eléctrico do Ring, andei na roda gigante do Prater e era capaz de jurar que o fantasma de Sissi andava em Schönbrunn, na manhã luminosa em que lá estive, com as alamedas ajardinadas transformadas num deslumbrante mar de neve.


Interessante, aquilo que nos leva a sentir o poder de atracção.
Curiosamente, também passei por Viena nessa época do ano, em que a cidade se transforma num postal de Natal. Infelizmente, passei demasiado depressa.
Gostei tanto que me apetece voltar este Natal a Viena e Salzburgo.
Estes seus textos são mesmo inspiradores. Se eu tivesse capacidades hermenêuticas atrever-me-ia a dizer-lhe que são textos sóbrios e ternos, objectivos mas plenos de significados, extremamente didácticos e muito mais coisas, que eu não sei dizer, exactamente porque não sou hermeneuta…. Assim, digo-lhe só que gosto francamente de os ler.
:)))
A minha vénia, Maria do Sol
(vénia muda pois deixou-me sem palavras).
Espetacular. Eu já estive diversas vezes em Viena, mesmo por períodos assaz prolongados, e nunca tomei nenhum elétrico no Ring, nunca andei na roda gigante do Prater, e nunca visitei Schoenbrunn.
Mas já tomei banho e nadei no Danúbio (mais precisamente, no novo Danúbio).
Não pude tomar banho no Danúbio, Luís. Estava transformado numa vasta placa de gelo.
E dois, Pedro. No meu caso, demorei quase 10 anos a cumprir a viagem, mas lá foi o Prater, o Ring, a praça com o pequeno café e quase todo o resto (faltou o cemitério dos Namenloss – trocado pelo cemitério onde está Mozart). Em frente à Rathaus estava uma enorme pista de gelo e ainda deu para ver as Bodas de Fígaro na Volksoper por tuta e meia (em pé, claro).
Muito bem, meu caro. Também não fui ao cemitério (gosto sempre de deixar alguma coisa para ver em futuras visitas).
A influência que um filme pode ter…
Normalmente e enquanto der (euros) vamos passar o final de ano(4 a 5 dias) a uma cidade da Europa, a cidade de Viena foi a cidade em que mais me diverti.A cidade vive o final de ano nas ruas, com as suas barracas de comes e bebes, com música e todos têm um lança foguetes para o fazer ir pelos ares ás 00:00 do dia 1. Nessa noite comprámos porquinhos da sorte para todos.
Perdi o meu gorro da Académica no eléctrico…Uma cidade a revisitar sem dúvida.
Sem dúvida. Mesmo com frio é sempre quente.
Tenho com Viena uma relação de grande ambivalência. Estive duas vezes em Viena, uma em trabalho no Verão e outra pela altura do Natal e não é cidade que me agrade muito. É áspera e fria, a monumentalidade não me impressiona e não fiquei com vontade de voltar. O mais engraçado é que, ao contrário de tantas cidades das quais passei a gostar mais da segunda vez, Viena não me fez gostar mais dela. É estranho. Claro que o Belvedere alberga um dos quadros da minha vida e só por isso tem um lugar especial. E achei os austríacos muito antipáticos, quase a roçar a falta de educação.
Quanto às cidades e livros, padeço de um mal parecido, Pedro, que piora quando volto. Foi assim com Havana, li avidamente literatura cubana durante uns tempos após o regresso.
Carnaval no fogo também é um dos meus livros preferidos. Ruy Castro escreve sempre bem. Estou neste momento a acabar O Leitor Apaixonado e a gostar tanto como todos os outros que li dele. Muito bom. E por falar no Rio. Já leste algum policial do Garcia-Roza ? Consegue fazer-se um roteiro exacto do périplo do Delegado Espinoza . Gosto muito também.
HUm. Esse autor de policiais não conheço, Leonor. Gosto mesmo de conhecer as cidades em livro antes de as conhecer ao vivo. Depois sabem melhor.
Vi o filme antes de visitar a cidade. Estive em Viena há uns anos, em Março, altura em que apanhei também neve; tenho fotos nos jardins do palácio de Schönbrunn, como o Pedro Correia (e que autêntico postal de Natal era o lago e as árvores atrás da Glorietta!), mas parece-me que a imagem acima é do Hofburg.
Também andei de eléctrico no centro, experimentei dois tipos de tarte (a Sachertarte, do hotel Sacher e um bolo de massapão), jantei em heuriges, estive numa sessão no edifício da ONU, conheci a “movida” vienense, assisti a duas representações na ópera – Cavaleria Rusticana e Pagliacci – e fui a um baile de gala, onde não faltaram debutantes (lembro-me de um convidado que exibia um enorme casaco militar de coronel austro-húngaro dos tempos da 1ª Guerra, um legado de família, segundo ele), e onde aprendi mais ou menos a dançar a valsa autêntica. E, claro, visitei o Belvedere, a Catedral de Santo Estêvão e a Karlkirch.
Ah, e pelo meio deu para ver o fim de um comício de Jorg Haider (havia eleições locais dias depois) e uma manifestação de curdos com cartazes de Oçalan.
Andei na roda e de eléctrico, fui ao palácio de Schonbrunn, deliciei-me com a Sachertorte, fiz tudo isso e algo mais mas no Verão e eu adorava rever Viena assim, cheia de neve…
Olá, João Pedro. Também comi aí a sachertarte, também bebi vinho novo (o equivalente ao beaujolais) em heuriges, fui à opera, visitei o Belvedere e a catedral. Tentei seguir o circuito de outro filme de que gosto muiito, também passado em Viena: ‘O Terceiro Homem’, com Orson Welles. Por isso não resisti em andar na grande roda do Prater, cenário de uma cena capital desse belíssimo filme. Só não vi o Haider. E não senti a falta…
Bem me parecia que me tinha esquecido de algo: sim, andei na roda do Prater na qual vi o estádio, ali perto), mas à época não tinha visto nem lido O Terceiro Homem (vi o filme logo depois de ler o livro). Esqueci-me em cima de lhe perguntar se tinha também visto o fantasma de Welles por lá. Nessa cena, ele pronuncia uma frase com uma comparação memorável. Recorda-se de qual era?