Livros de cabeceira (23)


Sérgio de Almeida Correia,

 

Para se poder falar de livros de cabeceira, em primeiro lugar, é necessário que exista uma mesa de cabeceira ou algo parecido, em relação à qual possamos ter um sentimento de posse, onde exista a percepção de que aquele espaço nos pertence. Esta série apanhou-me não em terra de ninguém mas em cama alheia, num interregno entre dois espaços próprios, numa fase de instalação pessoal num mundo que vive oito horas à frente do fuso onde estão aos meus companheiros de blogue e a maior parte dos leitores.

Em segundo lugar, importa que se tenha o gosto de ler na cama, coisa que em regra não faço porque acho sumamente desconfortável. E também porque a concentração que a leitura muitas vezes pede obriga-me a tomar pequenas notas à margem dos textos – sempre a lápis – que podem assumir a forma de uma seta ou de um segmento vertical a marcar duas ou três linhas. Essas marcações são as minhas referências, o que há de interessante, o que merece atenção e registo, num sentido positivo ou negativo.

Não podia por isso, pelo que referi, apresentar-vos uma fotografia bonita, devidamente enquadrada, com obras da dimensão e profundidade daquelas que os meus antecessores produziram. Porém, o que venho de afirmar não quer dizer que não folheie, que não registe e não prepare leituras para quando estou fora da cama. Muitas vezes os livros que tenho ao pé de mim são os que ainda não iniciei a leitura e em relação aos quais pretendo ter uma abordagem preparatória. Para quando iniciar a leitura já possuir uma visão sumária do que me espera.

Neste momento, na mesa de cabeceira da casa onde estou provisoriamente a viver, tenho dois livros que há cerca de um mês me acompanham. O primeiro é de Almeida Garrett e trata-se de uma compilação, já com algumas dezenas de anos, dos Discursos Parlamentares, publicado pela Europa-América na colecção Saber. Garrett continua a ser para mim uma referência e nos tempos conturbados que Portugal atravessa é importante lê-lo muitas vezes. Não sei quantos dos nossos políticos e parlamentares terão lido Garrett e possuirão um conhecimento, mesmo básico, do homem, da obra e do seu pensamento, mas estou certo que se essa referência da nossa vida parlamentar, política e cívica fosse lida com mais atenção o País não teria chegado ao século XXI nas mãos de merceeiros rafeiros e ignorantes.

O outro livro que tenho lido é uma obra editada pela Tinta da China, bem mais recente e numa colecção que apesar da juventude consegue esforçadamente manter os dois “cês”, que tem por título Um Gentleman na Ásiae por autor um dos meus preferidos: Somerset Maugham. Bem escrito e melhor traduzido, trata-se de um livro que as minhas colegas de escritório, na Rua de Portugal, acharam por bem ofertar-mo na hora da minha mais recente despedida antes de rumar a Oriente. Maugham apresenta-nos o registo de uma sua viagem por terras da Birmânia, do Sião e da Indochina. São histórias e pensamentos com os quais muitas vezes me identifico e que fazem parte do meu contínuo processo de aprendizagem das leis da vida, porque, também, como fizeram o favor de me escrever na dedicatória citando Theroux, só quem está confiante de que vai descobrir algo de novo é que parte para uma viagem como a que encetei no último dia de Setembro.

 

Tenho também outras leituras, mais adequadas ao momento que vivemos e que permite estabelecer comparações entre regimes, como um pequeno opúsculo de Raul Rego que tem por título Os políticos e o poder económico, edição do autor datada de 1969, dedicado à memória de Pedro Monjardino e aos seus companheiros da Unidade Democrática na candidatura ao Círculo de Lisboa. Por ali se vê que o conúbio entre a política e a dança das cadeiras nas administrações de algumas empresas tem uma funda e detestável tradição de que o actual regime não se conseguiu livrar.

Quanto ao mais, artigos académicos sobre o aparecimento dos partidos e sobre o partido como base para um eleitorado mais responsável, ou a Asian Legal Bussiness, revista de assuntos jurídicos, não me parece que tenham qualquer interesse para os leitores. Pelo menos para os que lêem esta coluna.

Um comentário em “Livros de cabeceira (23)”

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *