Livros de cabeceira (15)


lauraramos,

Ao contrário do que me acontecia em criança (depois do ‘recolher obrigatório’, eu e a minha irmã líamos às escondidas, com a mão na pera do candeeiro para ser premida ao menor som de passos) hoje em dia leio durante pouco tempo, na cama. Deito-me sempre demasiadamente tarde, e os livros com enredos empolgantes, aptos à devora, não são consentâneos com a disciplina do sono, que nunca fez parte dos meus amigos íntimos. Por isso, os livros que moram na minha mesa são sempre do género que aguenta uma leitura intermitente e que nunca perdem interesse: autobigrafias, poesia, correspondência.

No caso, a obra de Jaime Nogueira Pinto, Jogos Africanos: se não leram, não percam este relato fascinante e autêntico sobre uma África portuguesa que eu nunca conheci e que finalmente, começo a entender.

Depois, Os Dias e os Anos, Diário 1970-1993, de Marcello Duarte Mathias: o período diz tudo sobre a minha curiosidade. Não é propriamente um relato político, mas é a política que o envolve, numa prosa muito bem escrita em episódios, apontamentos ou reflexões que nos arrancam sorrisos, como no caso do retrato de Mário Soares, manso mas certeiro, a páginas 106. É claro que tem de ser-se muito complacente para aturar aquele outro lado deselegante da sua intelectualidade que irrompe, indisfarçável, aqui e ali: a soberania pesporrente, muito à la diplomate, assim como se detivesse a chave da plenitude lógica, ética, estética da vida.

Por fim, a inesgotável Poesia Completa e Prosa, de Vinicius de Moraes, brochura com muitos anos e com lugar cativo. Este está longe de ser O meu poeta, entre os tantos de quem dependo, mas é talvez a música que acompanha os seus versos aquilo que me faz transportar para o calor de trópicos e para uma vida que gira em torno dos sentidos, sem horários nem regras… Quem não queria tê-la? 

Ainda um dia hei-de voltar a ler até clarear, lá fora…

5 comentários em “Livros de cabeceira (15)”

  1. Identifico-me totalmente com o teu primeiro parágrafo: vou tão tarde para a cama que já só consigo ler em farrapos, quase sempre poesia. Mas teimo em ter muitos livros na mesa de cabeceira (nas duas, aliás) para ir sempre tentando outras leituras, embora no dia seguinte tenha invariavelmente que recuar dois ou três parágrafos. Teimosias. 😉

  2. Três autores que conheço bem e que aprecio, em graus diferentes. De Jaime Nogueira Pinto li recentemente o romance quase-biográfico ‘Novembro’, que recomendo. Gosto muito dos diários e do ensaio sobre Camus de Marcello Duarte Mathias, que encontro frequentemente numa esplanada próxima do Estoril (hei-de pedir-lhe um autógrafo). E tenho essa mesma obra do Vinicius, mestre da escrita, com a mesmíssima encadernação.
    A reler, sempre. À luz do sol ou à luz eléctrica. De preferência com uma banda sonora apropriada em fundo.

    1. Novembro já está na calha. A Felicidade em Camus: peguei-lhe pela primeira vez há muitos anos, ou não fosse sobre Camus. Na altura não gostei nada, mas como pode uma teenager gostar de ensaios, mesmo armada ao pingarelho? Adoro estes livrinhos da Aguilar, como o do Vinicius, mas nem sempre foram fáceis de encontrar.

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