Liberdade de imprensa


Sérgio de Almeida Correia,

Hoje foi dia de manifestação.

Há uns milhares de almas preocupadas com a liberdade de expressão, com as pressões do Governo sobre a comunicação social, com a forma como se quer controlar os jornalistas e os seus patrões.

Aqui neste blogue também estamos todos preocupados, uns por umas razões, outros por outras. Não troquei impressões com os meus parceiros mas sinto isso no ar. E sei que alguns até foram manifestar-se.

A preocupação parece-me legítima. Eu também me tenho preocupado muito com a liberdade de expressão, com o direito a uma imprensa livre, descomplexada, e a uma informação rigorosa.

Agora já não me preocupo com isso. Neste momento é o que menos preocupação me suscita. O Pacheco Pereira que se entretenha, ele é que tem tempo para esse tipo de preocupações. Eu antes tinha um papel e uma caneta, ultimamente sou mais de  computador, acesso à Internet por banda larga e dedinhos para "teclar". 

O que hoje me preocupa é que haja jornalistas e patrões de jornais manipuláveis e que querem, imploram, por ser manipulados. Que haja políticos dispostos a quererem controlar a imprensa e uma imprensa que aceite ser controlada. Que haja assessores tentados a meter umas coisas nos jornais, que haja procuradores e funcionários do Ministério Público, a quem estão confiados processos sob investigação, que permitam o acesso de terceiros a escutas integrais e que haja jornais dispostos a publicá-las, embora só parcialmente e acompanhados de comentários, adjectivação abundante e juízos de valor. Preocupa-me que a justiça tenha dois pesos e duas medidas, que os dirigentes políticos passem a vida a dar o dito por não dito, que tão depressa firmem contratos com os eleitores para logo a seguir inventarem mil e uma razões para os violarem.

E preocupa-me, ainda mais, que aquelas que eram as condições de existência e do exercício da democracia sejam enxovalhadas e postas em risco.

Por mim, se quiserem publicar escutas telefónicas nos jornais, mesmo as mais escabrosas, publiquem-nas e não escondam nada. Tudo corrido, só com a hora e o dia, e os palavrões, e a merda toda que lá quiserem pôr. Se quiserem violar o segredo de justiça com a conivência dos senhores procuradores ou das polícias, violem-no. Mas violem-no de uma vez só, violem-no decentemente. Se entendem que decisões tomadas pela hierarquia do poder judicial de acordo com os procedimentos legalmente adoptados devem ser desobedecidos, então desobedeçam. E desobedeçam às claras, tenham coragem de enfrentá-los, assinem por baixo, queimem as decisões frente às televisões entre as 20 e as 21h. Mas queimem essa gaita toda de uma só vez.

Afirmar o rule of law como condição do exercício da democracia é uma falácia, são coisas que vêm de fora, porque tudo deve fazer parte da liberdade. Pelo menos entre nós há quem queira que seja assim.

Mas se amanhã essa liberdade for pelo cano abaixo, se perderem os vossos empregos, se os vossos filhos virarem bufos, se nos tornarmos todos delatores, se fizermos fila à porta do Parlamento para prestarmos declarações a uma qualquer comissão de inquérito,  que é hoje em dia uma espécie de choldra com trâmites formais, então não teremos de que nos queixar.

É um vento de insânia que por aqui anda, é um estupor que há muito nos paralisa.

A liberdade de imprensa está em perigo? Não, nem pensar nisso.

Não se iludam. A liberdade de imprensa, o direito de opinião, a livre crítica, estão de boa saúde. A democracia é que estiolou.  

8 comentários em “Liberdade de imprensa”

  1. As “milhares de almas preocupadas” não compareceram hoje à chamada… Se calhar porque já sabiam ao que iam, ou não será? Demasiada demagogia ás vezes tem destas coisas.

  2. Caro Sérgio, acrescentar algo seria estragar um dos mais limpos e brilhantes textos que já li sobre o tema e que já te vi publicar.

  3. Excelente, Sérgio. É pena que não possa partilhar das mesas opiniões qd falas de futebóis…mas isso só significa que não andamos tão asfixiados quanto nos querem fazwer crêr. Abraço.

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