
Os livros estão em movimento perpétuo. Como todos nós, afinal.
Os livros levam-nos onde nenhum meio de transporte nos conduz. Seja de barco, seja de comboio, seja de avião.
Nos livros viajamos no espaço e no tempo. Conhecemos novos mundos, rasgamos horizontes, galgamos fronteiras reais ou imaginárias, conhecemos uma infinidade de pessoas das mais diversas proveniências.
Os livros são os mais fiéis e pacientes companheiros de percurso: nunca nos deixam sós.
Com eles subimos um rio, nas profundezas do Congo, navegando com o capitão Charles Marlow. Perseguimos uma baleia a bordo de um navio comandado pelo obsessivo capitão Ahab. Fazemos a pescaria da nossa vida logo reduzida a quase nada, ombro a ombro com o velho Santiago ao largo de Cuba.
De manhã deambulamos pelas margens do vasto delta do Mississípi com Huckleberry Finn, à tarde tomamos chá num Verão londrino com Clarissa Dalloway e subimos o Chiado com João da Ega, ao pôr do sol jantamos na mansão de Jay Gatsby.
Página a página, testemunhamos a paixão desmedida que une Sarah Miles a Maurice Bendrix nos escombros de Londres durante a guerra. Caminhamos com Mersault sob um sol escaldante numa praia argelina ou sentimos o frio trespassar-nos a pele e os ossos no campo de concentração siberiano onde Ivan Denissovitch vegeta.
Com os livros viajamos em calhambeques de camponeses esfomeados como o que levou — e levará até aos confins dos séculos graças à imortalidade da literatura — a família de Tom Joad do Oklahoma para a Califórnia.
Seguimos o Malhadinhas pelas veredas sinuosas das serras beirãs.
Brincamos em Salvador como os capitães da areia, que chegam a homens sem nunca serem meninos.
Descemos com outro capitão, chamado Nemo, às profundezas submarinas.
Arrastamo-nos nas sórdidas vielas da Londres vitoriana com Oliver Twist. Ou nas faiscantes festas novaiorquinas onde Holly Golighly brilha para a eternidade.
Exercemos medicina, como Jivago. Ou a advocacia, como Atticus Finch. Ou o jornalismo, como Santiago Zavala, o Zavalita.
Ou fazemos do segredo a nossa profissão, imitando George Smiley.
Enquanto leio, chamo-me D’ Artagnan e sou um galante capitão ao serviço da rainha. Cavalgo como Ivanhoe à conquista do coração de Lady Rowena. Transfiguro-me em Fabrizio Del Dongo, cruzando-me com Napoleão em Waterloo. E respondo pelo nome de Sandokan quando navego nos mares da Malásia.
Torno-me Winston Smith e vivo num sistema totalitário. Prendem-me e eu, Joseph K, não faço a menor ideia de qual será o motivo – ter-me-ão confundido com Raskolnikov?
Mas mesmo preso eis-me livre nos livros, Phileas Fogg percorrendo o globo em 80 dias, rumando ao planeta do Principezinho.
Matando como Tom Ripley, morrendo como Robert Jordan. Ou como o coronel Aureliano Buendía, recordando perante o pelotão de fuzilamento a tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.
Diletante como Dorian Gray. Solitário como Robinson Crusoe, solidário como Jean Valjean.
Apaixonado à primeira vista, às primeiras letras, por Margarida Dulmo.
Mario Vargas Llosa tem razão: fechado um livro, saímos dele «mais intensos, mais ricos, mais complexos, mais felizes, mais lúcidos», enquanto regressamos à «constrangida rotina da vida real».
Exactamente como me sinto agora.

Une journée d’Ivan Denissovitch (en russe : Один день Ивана Денисовича) est un roman court d’Alexandre Soljenitsyne publié dans la revue littéraire Novy Mir dirigée alors par Alexandre Tvardovski pour la première fois en décembre 19621. Le roman décrit les conditions de vie dans un camp du Goulag au début des années 1950 à travers les yeux du prisonnier Ivan Denissovitch Choukhov, que l’on suit au cours d’une journée. La parution du roman en URSS en 1962, même dans le contexte de la déstalinisation, fit l’effet d’une bombe. Pour la première fois, une œuvre littéraire présentait au lecteur soviétique un témoignage du Goulag.
com um pm com aspeto de velhinho estamos a dar o berro
«A Morte e a Morte de Quincas Berro D\’Água – Jorge Amado
CONTRA A REALIDADE. A negação da ciência, suas causas e
consequências
NATALIA PASTERNAK / CARLOS ORSI
«Em 2013, um grupo de cientistas italianos publicou um extenso estudo sobre o assunto. Os autores analisaram 1.783 trabalhos sobre segurança e impactos.
Bonito texto, sem dúvida. Os livros libertam-nos… (e só os déspotas é que os temem).
sem déspotas talvez não houvesse livros.
Boa frase.
Alguns déspotas até se atreveram a escrever livros. Nenhum deles recomendável.
Caramba, isto é que foi saltar de nenúfar em nenúfar. Qual dos poisos, o melhor 🙂
Gostei deste exercício de memória afectiva, Teresa.
Boa tarde Pedro Correia
Sendo todas as opiniões a respeitar, concordando-se ou discordando-se, tiro-lhe o chapéu por este texto.
Bom fim de semana, Saúde
António Cabral
E eu retribuo com gosto, caro António Cabral. Saúde.
Um dia na vida de Ivan Denissovitch tem tudo, ao ponto de surgir a dúvida: depois de o ler, vale a pena -salvo exercício de masoquismo – ir ao Gulag? Mas sim, vale, é claro.
Permita-se-me notar a pretexto deste ” post” dois, domésticos, especialmente queridos (além de Eça – a quem se nega por estes dias sossego aos ossos – e, sim, dessa depuradíssima escrita Vergiliana). Um começa por “Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado de Agra de Freimas”; no outro, absolutamente sublime, invoca-se certo “Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal [que] já era célebre, quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6.° ano dos liceus”.
Assim nos vamos formatando. No melhor sentido. Os que nos deixamos assim “formatar”.
Aqui,silenciosos,esperando um olhar, dedos deslizando pelas lombadas,convite para abrir e folhear,ler uma frase ou um parágrafo arquivado em memória remota.
Assim fiéis,escravos,aguardando na nossa duração ou na eternidade que lhes couber.
Alguém mais fiel ?