A RTP-África


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Quando há mais de um quarto de século fui viver para Moçambique a RTP-África emitia há pouco tempo. Durante os primeiros anos várias vezes falei – até profissionalmente – sobre o seu conteúdo. Não sobre a dimensão dos seus recursos e a forma como eram patentes no conteúdo, nem sobre a competência dos seus quadros. A questão sempre me foi a pertinência do olhar, da programação. Pois então sempre me pareceu uma RTP-I – esta vocacionada para os emigrantes (como então se chamava à agora dita “diáspora”) portugueses, polvilhada com alguns núcleos “para africano ver”… Ou seja, não uma questão de falta de recursos mas sim de alguma preguiça conceptual. Os anos passaram, deixei de ver. Depois voltei a Portugal, nem atentei ao seu estado.

Anteontem houve eleições municipais em Moçambique. Não tenho acompanhado a política do país, não atentei neste processo eleitoral. Mas ontem – numa rápida incursão no FB – li notícias e opiniões que algo me surpreenderam. Os partidos da oposição – que eu julgava em crise – clamam vitória em algumas das grandes cidades do Centro e do Norte, em várias das quais já tinham o poder autárquico (Beira, Nampula, Quelimane), o que não é surpreendente – mas muito o é a notícia da detenção do presidente de Quelimane, entretanto já libertado, algo que faz temer desatinos pós-eleitorais. Tal como não será de estranhar a vitória do Frelimo no Chimoio, ao que consta ancorado na excelência do seu candidato, presidente em exercício. Mas o verdadeiramente surpreendente é que o Renamo reclama vitórias, até expressivas, no Maputo e na Matola. O que, a acontecer, seria uma tremor de terra político.

Assim sendo, a curiosidade venceu-me. Ao levantar-me vim procurar notícias. A imprensa portuguesa privada, dita de “referência” (dn, publico, expresso, observador) nada diz sobre a matéria – apesar de todos esses de quando em vez albergarem uns doutores, proto-Milhazes africanistas, a perorarem sobre a grandeza da lusofonia, as “valências” da CPLP, as relações privilegiadas, etc…

Avancei então para um café diante da televisão. Desiludo-me ao perceber que o moçambicano STV desapareceu do meu painel de canais. E vou até ao serviço estatal, a RTP-África,. Entre as 7 e as 10 horas daqui – a alvorada nos diferentes fusos horários em África, a hora em que as pessoas ouvem notícias, a rádiotelevisão – a RTP-África emite o programa “Bom Dia, Portugal”. Ouço notícias sobre um documentário sobre Messi, outra sobre Emerson Fittipaldi, e uns incêndios em Portugal. Recuo a emissão e o teor é similar.

Enfim, quase 30 anos de emissões dedicadas aos… países africanos de língua oficial portuguesa. E a RTP-África continua isto, uma desadequação. Modorrenta, descalibrada. Às custas do dinheiro dos impostos, não esquecer.

Bebo o café, volto ao computador. E vou ao privado Facebook, do magnata capitalista Zuckerberg, tão menos virtuoso do que o Estado português. E avanço para as páginas de informação moçambicanas que lá estão alojadas.

E é isto a RTP-África.

10 comentários em “A RTP-África”

  1. Nada de novo.
    A RTP – África obedece às directrizes das autoridades dos países que foram territórios ultramarinos portugueses.
    Não me admiraria nada saber que as notícias sobre cada um desses novos países fossem previamente submetidas ao lápis azul dos respectivos governos.

    1. Pelo retrato que o autor JPT faz da RTP África, esta parece não ter sequer relevância para ser censurada.

  2. Será isso a RTP África. É isso a RTPi, que a minha vida profissional me leva a encontrar amiúde em hotéis por essa Europa. Querendo ver moças roliças, exibindo-se em espécie de “soft porn”, alegadamente como apoio coral de artistas de excelência do panorama musical doméstico, entre febras, sardinhas, bailaricos e foguetório, isso e telenovelas requentadas, será excelente escolha.
    Querendo conhecer da actualidade doméstica ou internacional, o serviço dito “internacional” da estação pública (pública, essa condição garante das maiores virtudes!) é, nos dias bons, miserável.

  3. Moçambique era, e é, um todo demasiado heterogéneo para poder ser entregue de mão beijada, como “um País”, na sua totalidade, a um mero grupelho de “gajos do Sul”, eles mesmos marionetas dos interesses geopolíticos internacionais ao tempo.
    A Frelimo fez o que quiz do negociante Mário Soares. O outro negociante, Almeida Santos, lá recebeu umas migalhas. Dizem que Salazar foi o culpado….
    Entretanto a democrática autoridade das Kalashes do Sul vai-se vergando à realidade. Só depois de deixar um horrendo historial de uma (tribal) guerra civil.
    As autoridades da ex-metrópole, meio século depois, ainda não perceberam e agem de acordo.
    Pobres “terras da boa gente”.

  4. Como aqui também já foi dito, tudo isto se aplica à RTPinternacional. Vivo há mais de trinta anos na Alemanha e raramente sintonizo o canal (modorrento e descalibrado, no mínimo).

  5. Agora mesmo está no ar a “Grande Entrevista África” com Joaquim Chissano.

    Tem sempre o “Reporter Africa”, “Africa Global”, o “Tem a Palavra” e o “Fórum África”.

    O “Zoom Africa”, “Africa Sport” e o “Viva Saúde” são também igualmente interessantes de assistir mesmo que ligação alguma haja com África ou Povos Africanos.

    O “Bem Vindos” é, diariamente, um grande esforço para conciliar e reunir a diáspora Africana e suas experiencias.

    Há muitos outros programas que, efetivamente, à primeira vista, parecem não fazer sentido mas daí a julgar o canal por não ser uma “CNN” África já é minorar e desprezar a qualidade que muitos programas já oferecem.

    Minha opinião, claro.
    Abraço.

    1. Obrigado pelo seu comentário. E, ainda mais, pelo aviso da transmissão da entrevista a Joaquim Chissano – que irei ver, tanto pela actualidade como pelo facto de ser um estadista que muito prezo, mesmo.
      Quanto ao que me diz sobre a programação da RTP-África. Como digo no postal eu não a sigo. Segui-a durante alguns anos, quando vivi em Moçambique. E sim, tem programas dedicados a questões africanas, alguns deles interessantes.
      Talvez o tom enfático do meu postal possa deixar transparecer que eu nego isso. Mas não foi isso que quis dizer. O que quis dizer – algo que penso há muito tempo – é que a programação do canal é um sortido mal amanhado, demasiado dependente de uma ideia, desde logo medíocre, de um canal para emigrantes – e Cristina Torrão, que vive na Alemanha, comenta acima sobre a qualidade da RTP-I. Eu vivi na Bélgica e nem sintonizava a RTP-I, tamanho o perfil antiquado daquilo (demonstra acima de tudo o desconhecimento do que são os núcleos de portugueses e lusodescendentes ainda lusófonos alhures).

      Mas não posso deixar de reclamar alguma injustiça no seu comentário. Em nenhum momento eu requeir uma CNN África. Pedir adequação de conteúdos e agilidade programativa é uma coisa, pedir um canal exclusivo de informação é outra. Mas já agora especifico: Moçambique tem (pelo menos) 32 milhões de habitantes – nem todos verão, claro, a RTP ÁFrica (cuja disseminação também semppre foi muito exagerada pelos nossos discursos, mas isso é outra conversa). Eu estou a escrever sobre o segundo dia pós-eleitoral, vivido sobre evidente tensão social – e factos que poderão, decerto, interessar angolanos, guineenses, caboverdianos, santomenses e gente de outras nacionalidades. Não exactamente por serem sociedades congéneres (que não serão) mas por algumas homologias nos processos políticos, pelo menos em alguns casos (mais especificamente em Angola…) Este é contexto. Às 7 horas da manhã (8 em Moçambique) a alvorada da RTP-África é um longo boletim (3 horas) sobre Portugal e alguns fait-divers mundiais, polvilhado de notícias sobre o mundo mais mediático (Israel e Palestina, Ucrania, e as reacções europeias sobre isso). Ás 10 da manhã (11 em Moçambique) começa um programa informativo (África Global, que V. referiu), o qual fui ver na expectativa de alguma informação – insisto, dado que nenhum outro órgão de comunicação social português se referia ao assunto. Consistia esse programa numa série de reportagens gravadas – algo antigas, decerto – de origem internacional sobre “temas” em África: Começou pela viagem de um simpático jovem ciclista oriundo de um país da Africa ocidental, que anda a cruzar um sem número de países africanos. Depois começou uma outra reportagem sobre músicos sudaneses que estão emigrados noutro país do litoral leste do continente. Desisti de ver o programa e fui à minha vida.

      Ou seja, parece-me evidente que não estou a pedir uma Al Jazeera lusófona. Mas sim um repensar da programação e da perspectiva. E mais agilidade.

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