Hoje em dia, comer bem significa comer mal e quanto mais caro, melhor. Você se certifica disso toda vez que se deixa tapear por mais um restaurante que acabou de abrir na sua cidade e que ficou na moda. Depois de sobreviver a um baita engarrafamento para chegar e a 45 minutos de fila de espera no bar do dito, você se vê finalmente sentado diante do prato. Neste, que acabou de sair pelando do microondas, a comida lembra uma delicada instalação minimalista, com um design irresistível e cores dignas de Natalie Kalmus, a dona do Technicolor. É um arranjo tão bonito que dá pena destroçá-lo com garfo e faca e transformá-lo naquela mixórdia a que todos os pratos, de Paul Bocuse ao prato feito, estão condenados depois que você manda brasa.
Bem, além das cores e do design indisfarçavelmente novo-rico, o que esse prato tem a oferecer em troca do sacrifício? Um bifinho muito do mixuruca ou um insosso peixinho, uma massa quase sempre medíocre ou uma micro-porção de arroz “selvagem” e – aí está o segredo – belas firulas na louça com o molho de cassis e três talinhos de nirá circundando os quase invisíveis ingredientes. Quinze minutos depois, você está raspando sofregamente o fundo com o último pedaço de pão e pensando em pedir uma feijoada para rebater.
Ruy Castro & Heloísa Seixas,”Viagens ao redor do estômago”, Terramarear.


As divindades do cosmpolitismo que me perdõem mas já não aguento mais brasileiro.
São as minhas leituras e felizmente não se regem por critérios assim. Gosto muito do português do Brasil e da literatura brasileira.
Eu também gostava, principalmente de Cecília, João Cabral e Drummond.
Mas agora torna-se penoso ler em brasileiro. Talvez um dia.
Ó Leonor eu também gosto muito de uma certa literatura brasileira. Não gosto da escrita de Chico Buarque, só para dar um exemplo.
Mas depois deste texto excelente, eu terminaria com um bom cozido à portuguesa, regado de um bom tinto local.
São estas pequenas singularidades entre Brasil e Portugal que me deliciam!
Eu gosto dos livros que li do Chico Buarque e sou fã indefectível da literatura brasileira.
Este pedaço de prosa é muito engraçado. Escolhi-o porque é ipsis verbis o que penso. Não que tenha de ter um prato alarvemente cheio, longe mas longe disso, mas detesto snobeiras. A seguir ele fala sobre Portugal, sim, e as particularidades da nossa gastronomia.
A prosa é deliciosa, mas não resisto dizer que o único local onde se pode comer “fashion” (inserir ironia) mas mantendo a tradição é no Alentejo. 😉
Comida alentejana é deliciosa 🙂