
«Se fosse rei uma semana, afianço-lhes que mondava Portugal. Uma fogueira em cada oiteiro para os ministros, os juízes, os escrivães e os doutores de má morte. Para estes decretava ainda cova bem funda, com obrigação de cada homem honrado lhes pôr um matacão em cima. Uma choldra de ladrões!»
Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas (1922), p. 119
Ed. Bertrand, 2018. Colecção Obras de Aquilino Ribeiro

Que falta faz este tipo de escrita. Bruta e de belo corte
É verdade, Vorph. Tenho pensado nisso mesmo.
No último ano li (ou reli) quatro excelentes livros de Aquilino. E todos eles me deixaram essa impressão.
Pelos vistos já não é populismo…agora é “bruta e de belo corte”…fosse o Ventura e já voltaria a ser não só populismo mas incitação à violência contra os “órgãos de soberania”.
Um discurso populista, próprio de um André Ventura.
É necessário enterrar o sistema numa cova bem funda.
“O Malhadinhas” retrata-nos o Portugal serrano de meados do sec.XIX, logo após a guerra civil que deixou marcas fundas na sociedade portuguesa, algumas prolongando-se até ao inicio do sec. XX.
Nada disto, obviamente, tem a ver com o Ventura e a política portuguesa nesta terceira década do séc XXI, num mundo globalizado e com Portugal inserido há 35 anos na Comunidade Europeia.
Qual sistema?
O seu Marketing ao André Ventura?
Ventura é publicitado a toda a hora sobretudo por gente que diz detestá-lo. Mas vão-lhe fazendo propaganda em sessões contínuas. Como se o adorassem em vez de o detestarem.
Não quero desiludir, mas um autor dos dias correntes que se atrevesse a escrever coisas semelhantes em voz alta seria crucificado pela santa irmandade dos humoristas e humanistas de trazer por casa que vigiam a opinião pública, sob a acusação de se tratar de conversa de taberna.
Como e sabido, antes de alguém se predispor a escrever o quer que seja que possa vir a ser lido por outros, tem que fazer um curso de escrita criativa, defender que só através da humor se desacreditam os adversários e abdicar de ter sangue na guelra transformando-se numa ameba.
Hoje é assim, Isabel. Mas no tempo de Aquilino chamavam-se as coisas pelos seus nomes. Ele, pelo menos, fazia assim. Com uma linguagem que é um monumento à língua portuguesa.
Este Malhadinhas é uma das personagens mais politicamente incorrectas de toda a nossa ficção literária. Até por isso sabe muito bem regressar a esta obra.
“Após explicar o seu passado fabril e parlamentar, o actual secretário-geral do PCP mandou então calar o deputado do PSD, por “mandar ‘bocas'” e “ofender esta Assembleia”, ao que Sousa Tavares respondeu: “Olhe, vá à merda! Idiota! Mandrião! Vá trabalhar, que foi aquilo que nunca fez na vida! Calaceiro!”. Sousa Tavares aparenta liderar o uso da palavra merda na Assembleia da República, qualquer que fosse a situação parlamentar. A 18 de Janeiro de 1980, na discussão final do Programa do Governo, questionava como “cada português trabalhador pagava 30 000$ para a ‘merda’ – desculpem-me a expressão – dos seguros sociais que nós temos”. de-um-deputado-dizer-m-na-assembleia-da-r epublica
https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/po
Agora vão aos debates da I Republica…
Entretanto passaram 40 anos. Outro tempo, outra mundividência. Francisco Sousa Tavares distinguiu-se precisamente pela têmpera e coragem.
Sem dúvida.
Os Republicanos que mataram o Rei na altura não são os mesmos republicanos que se alambazam agora na ucha. Acredito até que gostariam de lhes limpar o sarampo.
Nem eu nem alguns tipos da Odisseia
Abraço, Bom Ano
Igualmente. Abraço
Uma espécie de taxista do séc XIX.
Com bastante mais estilo.
Vocabular.
Vou cabular – é o tema de muitos outros.
Ou lema, melhor dizendo.
É impressão minha ou é mesmo verdade que bastos comentadores estarão persuadidos de que no “Malhadinhas” constam os discursos completos do deputado Aquilino Ribeiro à Assembleia da República?
Pedro, se não leu “Um escritor confessa-se”, leia pois é uma delícia. A tradução do Dom Quichote é outra maravilha.
Obrigado pela recomendação. Por acaso esse é mesmo um livro que ando com vontade de conhecer há muitos anos. Sei que esteve fora do mercado durante décadas. Mas julgo que a Bertrand já colmatou essa lacuna.