Leituras


Pedro Correia,

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«A nação é de todos. A nação tem de ser igual para todos. Se não é igual para todos, é que os dirigentes, que se chamam Estado, se tornaram quadrilha. Se não presta ouvido ao que eu penso e não me deixa pensar como quero, se não deixa liberdade aos meus actos, desde que não prejudiquem o vizinho, tornou-se cárcere.»

Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam, p. 74

Ed. Bertrand, 1958

15 comentários em “Leituras”

  1. Há tempos vi a série na RTP-Memória e fiquei com vontade de ler o livro, mas não consegui encontrá-lo.
    Recentemente voltaram a passá-la e voltei a lembrar-me do livro.
    Agora aqui está ele no Delito: será que é desta?
    🍁
    Maria

    1. Li recentemente três romances de Aquilino – “Volfrâmio”, “A Casa Grande de Romarigães” e “Quando os Lobos Uivam”. Todos muito bons (da “Casa Grande” direi mesmo que é obra-prima). Além de ter relido a soberba novela “Malhadinhas”, para mim o melhor livro de ficção portuguesa da década de 1920.

      “Volfrâmio” (de 1943) e “Quando os Lobos Uivam” são livros “contemporâneos”. Aquilino, mesmo sem parentesco com a chamada literatura neo-realista (nem na linguagem, nem no estilo, nem na ideologia subjacente), escrevia sem peias sobre injustiças e prepotências do seu tempo. Com uma frontalidade raras vezes assumida pelos escritores seus contemporâneos – e mesmo de épocas posteriores.

  2. Esse livro e esse parágrafo corria livremente no mercado luso em 1958?
    É romance ou ensaio? Pois parece um parágrafo de análise estranho a uma obra de ficção. Conheço o título, mas nunca li a obra.

    1. É romance. Aliás, um romance muito bom. E com uma linguagem muito corajosa, desassombrada, chamando tudo pelos seus nomes.
      Há uma cena inesquecível, de uma “batida” da GNR aos aldeões serranos que defendiam os baldios. Outra, igualmente memorável, desenrolada numa audiência do Tribunal Plenário do Porto.
      Admira, de facto, que este romance tenha sido autorizado e editado – ainda por cima no sensível ano de 1958, o da campanha eleitoral de Delgado, de que Aquilino era um dos mais notórios apoiantes. Mas alguns exemplares foram apreendidos e a segunda edição esteve congelada.

      “Quando os Lobos Uivam”: logo o título já era um libelo contra a dita espécie animal.

      1. O longo capítulo centrado na audiência judicial do Porto (os tribunais plenários, como era sabido, foram criados pelo Estado Novo para julgarem supostos crimes “políticos”) é dos mais notáveis da literatura portuguesa do século XX. Quase todo em discurso directo, com as falas dos intervenientes adaptadas à origem e condição social de cada um, confirmando que Aquilino não era apenas o “regionalista pícaro” que lhe puseram como rótulo mas um escritor de rara sagacidade para apreender todas as subtilezas dialectais.

        Um aldeão das Beiras fala à moda dum aldeão das Beiras, um juiz do Porto fala à moda dum juiz do Porto.

        Tomáramos que este excelente ouvido para captar as diferenças do discurso oral estivesse presente na obra de muitos escritores portugueses contemporâneos (alguns dos quais até laureados com prémios diversos), incapazes de transpor as marcas da oralidade de forma genuína e verosímil. Desde logo porque apenas sabem escutar os ecos da própria voz.

  3. Nem de propósito: ofereceram-me as obras completas de Aquilino Ribeiro e de Camilo Castelo Branco.
    O Camilo tenho-o despachado em tardes de leitura,mas o Aquilino parece-me um pouco difícil.
    Estou curiosa só tenho de decidir por onde começar
    Sugestões…?
    Dno

    1. Esta mesmo, “Quando os Lobos Uivam”. Que aliás demonstra o profundo amor que Aquilino tinha pela natureza e pelos animais em particular. Muito antes de o ambientalismo ou o animalismo estarem na moda.
      Uma das “personagens” principais do livro é um cão.

  4. Não deixe de ler o violento conto ” António das Arábias e o seu cão Pilatas”.
    Quanto ao livro, foi proibido e apreendido pela censura. Além disso foi movido um
    processo ao autor que foi julgado em tribunal pleenário. Contava já mais de 70 anos. Entretanto, “o fradalhão de Sta Comba” fez sair uma amnistia que englobava o caso. É de referir, que o Dr. Salazar tinha manifesta e manifestada admiração por Aquilino enquanto escritor.

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