«Shukhov adormeceu plenamente satisfeito. Tivera muita sorte nesse dia: não o tinham metido na prisão; não tinham enviado o grupo para a colónia; conseguira deitar mão a uma malga de kasha ao jantar; o chefe-de-grupo conseguira boas percentagens; construíra uma parede e gostara de o fazer; conseguira passar à revista o pedaço de fita de serra; Tsezar dera-lhe qualquer coisa à noite; comprara tabaco. E não adoecera. Resistira à doença.
Um dia sem uma sombra. Quase um dia feliz.
Havia três mil seiscentos e cinquenta e três dias cumpridos como este. Desde o primeiro toque de carril ao último.»
Alekxandr Soljenítsine, Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, p. 182
Ed. Guimarães Editores, Lisboa, 1963. Tradução de Fernando de Melo Moser e Paulo Madeira Rodrigues

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Li-o há imensos anos, numa edição de capa dura do Círculo de Leitores. Era um livro pequeno mas impressionou-me enormemente.
Lembrei-me dele recentemente ao ler ‘Le Météorologue’ do Olivier Rolin. É a história verídica de um meteorologista do regime, injustamente preso como sabotador.
Nas cartas didácticas (com desenhos lindíssimos) que vai escrevendo à filha e à mulher conta a sua miserável vida no campo de concentração.
Mas fala também das auroras boreais, do gatinho cinzento de pelo sujíssimo, que é o seu melhor companheiro e, o que é mais incrível, dos muitos requerimentos que envia ao camarada Estaline, em quem continua a acreditar até morrer.
O Rolin escreveu o livro depois de ter lido essas cartas dirigidas à filha do meteorologista, que também teve um fim bastante trágico.
Enfim, é um livro bem triste mas que me atrevo a recomendar.
🙂 Antonieta
Já anotada a sua sugestão, Antonieta. O livro de Soljenitsine é uma obra-prima da literatura universal – desde logo por ser o primeiro relato, escrito com conhecimento directo, do que era o quotidiano dos outros campos de extermínio, aqueles de que quase ninguém fala. Os campos de extermínio do comunismo estalinista. Que serviram de modelo a outros – da China de Mao, do Camboja dos Khmers vermelhos, da ditadura norte-coreana, etc.
Excelente livro.
Uma realidade negra num fundo branco que termina com a felicidade possível que aquece a alma de quem a consegue alcançar.
Li pós 25, numa altura em que os “meus camaradas socialistas” ostracizavam Soljenitsin como revisionista e traidor… enfim.
Recomendo a leitura ou releitura 🙂
Li e reli e sempre com a mesma sensação de levar um murro no estômago. O ser humano no limiar da sobrevivência em condições extremas de penúria a todos os níveis e de solidão acompanhada num horizonte sem esperança. Simplesmente genial, diria eu se a palavra ‘genial’ não estivesse tão pervertida.
Que pena,muitos dos comentadores usuais,que enchem caixas de comentários com temas bem menos pertinentes,se remetam a um silêncio ensurdecedor,quando o tema versado é sobre as atrocidades da ideologia comunista. Que pena tanto silêncio…..Silêncios tumulares certamente!
Sugestão de leitura suplementar: andes-romances-23-7111358
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/gr
Noutro ” ambiente “, mas igualmente fortíssimo, “O Zero e o Infinito”, de Koestler.
Marcou uma geração.
Sem dúvida. Hei-de falar sobre essa obra inesquecível na minha série Grandes Romances.
Caro Pedro, ivros-BMC.htm
sobre este título apraz-me dizer que se algum deficiente visual o pretender ler, este título está disponível em formato audiolivro na Biblioteca Municipal de Coimbra: http://www.deficienciavisual.pt/v-audiol
Obrigado pela informação, caro António.
Caro Pedro,
(permita-me que brinque com as suas palavras)
se, por ventura, pretender levar um novo «murro no estômago» permita-me que recomende a “recente” tradução de António Pescada, feita directamente do russo e não da edição inglesa, como é aquela que recomenda ou a edição da Europa-América.
Sobre esta última e a tradução de António Pescada encontrei este artigo interessante, que partilho consigo:
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id _news=593433
Não sou eu que “recomendo” a edição, António: foi a edição que eu (re)li porque a tenho em casa. Daí aparecer esta capa. Aliás, foi a primeira edição em português – uma das primeiras fora da URSS, traduzida precisamente do inglês (e com a transliteração do cirílico de acordo com a norma inglesa também, o que me parece incorrecto). Teve o mérito do pioneirismo. Mas prefiro, logicamente, uma tradução como aquela que recomenda – traduzida directamente do russo.