Leituras


Pedro Correia,

 

«Os homens, uns mais que outros, tendem sempre a condenar os que falam muito, principalmente de coisas que não lhes dizem directamente respeito, chamando-lhes, até com desprezo, tagarelas e fala-baratos. E assim fazendo, não nos damos conta de que esse defeito humano, humaníssimo mesmo, e tão frequente, tem também o seu lado bom. Pois, o que saberíamos nós das almas e dos pensamentos alheios, dos outros homens e por consequência de nós próprios, de outros meios e de outras terras que nunca vimos nem jamais teremos oportunidade de ver, se não houvesse gente assim, com necessidade de dar a conhecer oralmente ou por escrito o que viram ou ouviram e o que em torno disso sentiram e pensaram? Pouco, muito pouco. E por mais que as suas histórias sejam imperfeitas, temperadas pela paixão e pelas necessidades pessoais, ou até mesmo inexactas, temos sempre a razão e a experiência para podermos julgá-las e compará-las umas com as outras, aceitá-las ou rejeitá-las, no todo ou parcialmente. Assim, sempre se salvará alguma coisa de verdade humana para aqueles que com paciência escutam ou lêem.»

Ivo Andric, O Pátio Maldito (1955), p. 49/50

Ed. Cavalo de Ferro, 2ªedição, 2008. Tradução de Lúcia e Dejan Stankovic

4 comentários em “Leituras”

  1. Um bleíssimo livro (ou livrinho, é pequeno). Excelente escolha. A Cavalo de Ferro editou ainda (pelo menos) mais dois de Andrić: A Crónica de Travnik e A Ponte sobre o Drina. Recomendo ambos pela escrita diferente daquilo a que nos habituamos. Fez-me lembrar por vezes Torga, na forma como escreve de forma leve sobre os temas profundos que aborda.

    1. Cavalo de Ferro: uma das melhores editoras portuguesas. Cheguei a este livro graças a uma aposta que fiz comigo mesmo, no início do ano, de ler em 2014 sobretudo escritores galardoados com o Nobel ainda desconhecidos para mim. Por vezes vale a pena traçarmos objectivos deste género: é uma forma quase lúdica de aprofundarmos conhecimentos e alargarmos horizontes. Noutro ano procurei ler apenas romances de autores clássicos: também resultou.
      Istambul foi uma cidade que me deslumbrou. Gostei de lá regressar nas páginas deste livro.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *