«Os homens, uns mais que outros, tendem sempre a condenar os que falam muito, principalmente de coisas que não lhes dizem directamente respeito, chamando-lhes, até com desprezo, tagarelas e fala-baratos. E assim fazendo, não nos damos conta de que esse defeito humano, humaníssimo mesmo, e tão frequente, tem também o seu lado bom. Pois, o que saberíamos nós das almas e dos pensamentos alheios, dos outros homens e por consequência de nós próprios, de outros meios e de outras terras que nunca vimos nem jamais teremos oportunidade de ver, se não houvesse gente assim, com necessidade de dar a conhecer oralmente ou por escrito o que viram ou ouviram e o que em torno disso sentiram e pensaram? Pouco, muito pouco. E por mais que as suas histórias sejam imperfeitas, temperadas pela paixão e pelas necessidades pessoais, ou até mesmo inexactas, temos sempre a razão e a experiência para podermos julgá-las e compará-las umas com as outras, aceitá-las ou rejeitá-las, no todo ou parcialmente. Assim, sempre se salvará alguma coisa de verdade humana para aqueles que com paciência escutam ou lêem.»
Ivo Andric, O Pátio Maldito (1955), p. 49/50
Ed. Cavalo de Ferro, 2ªedição, 2008. Tradução de Lúcia e Dejan Stankovic


Um bleíssimo livro (ou livrinho, é pequeno). Excelente escolha. A Cavalo de Ferro editou ainda (pelo menos) mais dois de Andrić: A Crónica de Travnik e A Ponte sobre o Drina. Recomendo ambos pela escrita diferente daquilo a que nos habituamos. Fez-me lembrar por vezes Torga, na forma como escreve de forma leve sobre os temas profundos que aborda.
Cavalo de Ferro: uma das melhores editoras portuguesas. Cheguei a este livro graças a uma aposta que fiz comigo mesmo, no início do ano, de ler em 2014 sobretudo escritores galardoados com o Nobel ainda desconhecidos para mim. Por vezes vale a pena traçarmos objectivos deste género: é uma forma quase lúdica de aprofundarmos conhecimentos e alargarmos horizontes. Noutro ano procurei ler apenas romances de autores clássicos: também resultou.
Istambul foi uma cidade que me deslumbrou. Gostei de lá regressar nas páginas deste livro.
Istambul também me encheu as medidas. Tenho de lá voltar quando puder. Foi também demasiado curto, o tempo que lá passei.
Bem te percebo, João.