DEBATE JERÓNIMO DE SOUSA-JOSÉ SÓCRATES
José Sócrates, como é costume, levava a estratégia bem montada. Pretendeu fazer do frente-a-frente desta noite na SIC, com Jerónimo de Sousa, uma espécie de ensaio geral para o decisivo debate de sexta-feira com o presidente do PSD. E atacou o secretário-geral comunista como fará certamente com Pedro Passos Coelho: utilizando o programa eleitoral do seu antagonista como arma de arremesso. Isto permitiu-lhe, durante alguns minutos, marcar o tom e o ritmo da contenda. “Já debati aqui com dois líderes que não tinham programa. Hoje estou a debater com um líder que tem o mesmo programa de há dois anos”, ironizou o líder do PS, reduzindo as propostas comunistas a três grandes ideias-força: a reestruturação da dívida (“igualzinha à do Bloco de Esquerda”), sair do euro (“isto nem o Bloco de Esquerda!”) e um amplo programa de nacionalizações. Rematando em bom estilo: “Onde iria buscar dinheiro para comprar estas empresas [a nacionalizar]? São mais de 50 mil milhões de euros.”
Esta tirada do líder socialista teve o condão de acicatar Jerónimo. Que não tardou a dar-lhe o troco: “José Sócrates, quando ouve falar em nacionalizações, fica com urticária. Mas foi lesto a nacionalizar o BPN, ficando os milhões de milhões de custos para o povo português.” Isto assinalou uma certa viragem no debate – e raras vezes, a partir daqui, voltámos a ver Sócrates na ofensiva. Pelo contrário, o secretário-geral do PCP conseguiu ultrapassar Paulo Portas e Francisco Louçã na capacidade de forçar o líder do PS a justificar o seu controverso currículo governativo. Lembrou o abortado cheque-bebé de 200 euros acenado por Sócrates na campanha legislativa de 2009, o “corte de mais de 600 mil abonos de família”, o congelamento de salários e de pensões, e“uma política fiscal que carrega sempre contra os mesmos”. Curiosamente, ao invocar a obra feita, o secretário-geral socialista limitou-se a mencionar medidas assumidas entre 2005 e 2009 – do complemento solidário para idosos à reforma da segurança social.
O debate foi vivo e pelo menos num sentido também foi esclarecedor: a unidade da esquerda portuguesa continua a ser um sonho adiado. O PCP persiste em manter as portas fechadas a qualquer entendimento com os socialistas. “Os três partidos – PS, PSD e CDS – têm um programa comum”, justificou Jerónimo. Sócrates, se vencer a 5 de Junho, tem um problema sério pela frente: nenhuma força política, à esquerda e à direita, parece disposta a coligar-se com ele. “Deve haver um governo maioritário”, sublinhou o líder socialista, que em resposta à moderadora, Clara de Sousa, deixou um recado ao Presidente da República lembrando uma enraizada “tradição” na política portuguesa: “Quem ganha as eleições é que vai para o Governo.” Mas a sensação que transmitiu neste debate é que para ele isso será um quebra-cabeças. O que sucede, em boa verdade, por culpa própria: em nenhum momento do frente-a-frente Sócrates fez um esforço mínimo para cativar um voto comunista. Pelo contrário, chegou a revelar – por palavras e esgares – alguma arrogância, nomeadamente quando acusou Jerónimo de ser “incapaz de compreender” a lógica do sistema fiscal português.
São pormenores. Mas que ajudam a perceber por que motivo José Sócrates é hoje a figura mais solitária da cena política nacional.
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FRASES
Jerónimo – «O candidato José Sócrates tem uma forma esquisita de defender o estado social.»
Sócrates – «O PCP cometeu um erro de análise ao aliar-se à direita para provocar uma crise política.»
Jerónimo – «O ónus está sempre nas costas de quem trabalha.»
Sócrates – «Reestruturar a dívida significa calote. Pagar-se-ia com pobreza, desemprego, miséria e falências.»
Jerónimo – «Ainda havemos de assistir a José Sócrates a defender a reestruturação da dívida.»
Clara de Sousa – «Porque é que este memorando [com a Comissão Europeia e o FMI] não foi traduzido oficialmente em versão portuguesa para que os portugueses o percebam?»
José Sócrates – «Estou convencido que essa tradução existe. (…) Se não há, devia haver.»
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ADENDA
Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Manuela Ferreira Leite-Paulo Portas da campanha legislativa de 2009.



Caros Amigos,
Acabei de ler e assinar a petição online: «HAJA DECORO»
O Jerónimo não estudou inglês ao Domingo!
O Jerónimo não tinha vagar porque trabalha desde os 12 anos!
O Sócrates estudou inglês técnico podia ter traduzido ao Domingo.
Se Sócrates não oferecer já amanhã uma tradução do acordo ao Jerónimo, façamos uma manif contra o Sócrates.
O momento do debate foi sobre a tradução.
estou como catroga…. estamos a discutir coisas inuteis….
aposto que vai ser tema de campanha
Clara de Sousa confirmou ser a melhor moderadora de debates políticos da televisão portuguesa.
SÓCRATES (em geral): O PSD originou a crise política por ter sede de poder.
SÓCRATES (no debate): “Quem ganha as eleições é que vai para o Governo.” (referindo-se à hipótese de o PS ter maioria não absoluta e não ter com quem se coligar para constituir um governo estável).
COMENTÁRIO: Afinal quem tem sede de poder?
SÓCRATES (em geral): O PSD é oposição há 6 anos e só agora apresentou o seu programa eleitoral.
SÓCRATES (no debate): “Já debati aqui com dois líderes que não tinham programa. Hoje estou a debater com um líder que tem o mesmo programa de há dois anos”.
COMENTÁRIO: Uns deviam ter um programa eleitoral (o PSD), ainda que fosse recesso (com 6 anos); outros (a CDU) tinham de ter um programa eleitoral fresquinho (ou quentinho) – acabadinho de fazer. Não há mesmo solução: é-se morto por ter cão, ou por o não ter.
CONCLUSÃO: o cúmulo da coerência é…
Aprovar o programa eleitoral hoje; celebrar o acordo com a “troika” amanhã; e vir dizer aos eleitores que se irão cumprir ambos.
Com uma lógica imbatível como esta, não há FMI que resista!