DEBATE CATARINA MARTINS-PASSOS COELHO
Um debate com substância. Assim foi o frente-a-frente desta noite, na RTPi, que opôs Catarina Martins a Pedro Passos Coelho. Muito centrado na segurança social – tema que dá pano para mangas, pois interessa a todos os eleitores.
A porta-voz do Bloco de Esquerda – como lhe competia, e sem defraudar expectativas – jogou ao ataque neste debate moderado pelo jornalista Vítor Gonçalves, acusando a coligação PSD/CDS de “esconder os números” enquanto procura entregar parte da segurança social a fundos especulativos.
O presidente do PSD, deixando claro que qualquer alteração só se aplicará a novos contratos, rejeitou que esteja em estudo um corte de 600 milhões da segurança social. Mas continua a induzir a ideia de que nesta matéria o Executivo esconde muito mais do que explica.
O Bloco voltou a evidenciar-se como voz incómoda para a coligação, confirmando que Catarina Martins se apresenta em boa forma nesta campanha e disposta até a alargar as fronteiras tradicionais do seu partido. Ao ponto de hoje ter apelado sem rodeios ao voto “nas pessoas que [em 2011] votaram em Passos Coelho e Paulo Portas e se sentem traídas com o que aconteceu”. E também ao apertar Passos com a questão aparentemente irresolúvel da dívida pública, que teima em manter-se com setas ascendentes.
Raros temas incomodam tanto o primeiro-ministro como este.
Mais duvidosa é a insistência bloquista em invocar Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix como figuras de referência: isso aconteceu esta noite, pelo segundo debate consecutivo, quando a líder do BE voltou a mencionar estes dois vultos conservadores em abono da sua tese de que “a dívida portuguesa é impagável”.
Neste ponto Passos tocou na corda mais sensível dos bloquistas: o modelo grego, que entre Janeiro e Julho Catarina Martins tanto enaltecia. O governo Syriza chegou ao poder de peito feito, anunciando o fim da austeridade e a reestruturação da dívida, e acabou feito em estilhaços, impondo aos gregos um pacote de restrições financeiras ainda mais severas do que o anterior.
“Acho incompreensível que um país que tem que assegurar o pagamento às famílias, às empresas e ao Estado diga aos credores que não está em condições de pagar a dívida. Nesse dia deixa de ter condições para se financiar”, declarou Passos, aludindo ao comportamento errante do ex-ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis. Remetida à defesa neste ponto, Catarina viu-se forçada a dar o dito por não dito: “O programa que está hoje a ser imposto à Grécia é um programa mau para a Grécia, mau para a Europa, não é o nosso programa.”
Não custou a Passos colar a sua oponente ao Syriza – o Bloco grego – neste debate nada morno no fundo, que quase replicou alguns dos tensos diálogos entre Catarina Martins e o primeiro-ministro na Assembleia da República, sem deixar de ser cordato na forma. O chefe do Governo também se esquivou sem grande dificuldade à questão do Novo Banco: enquanto a sua oponente acusava o Executivo de lesar os contribuintes, Passos questionou os custos incomportáveis de um cenário alternativo: “Se a nacionalização do BPN custou 5 mil milhões, a do BES custaria dez vezes mais.”
Ficou sem réplica. Catarina Martins optou por virar a agulha: “Nestes quatro anos, o senhor roubou sete meses de salários dos funcionários públicos”, disse-lhe ela. “A senhora deputada aparece com um discurso de quem sabe que nunca vai ter que chegar ao Governo e tomar medidas”, retorquiu-lhe ele.
Condenados a desentender-se, está mais que visto.
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FRASES
Catarina – «O PIB português recuou 15 anos [desde 2011].»
Passos – «O que trouxe os sacrifícios foi a crise [anterior à posse do Governo].»
Catarina – «Há dez mil novos milionários em Portugal, doutor Passos Coelho.»
Passos – «Acha que eu fiz dez mil novos milionários? Não foi com certeza à custa do Estado, senhora deputada.»

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