Legislativas (6)


Pedro Correia,

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Hoje só a extrema-esquerda defende a “social-democracia”, o que demonstra bem como as coordenadas ideológicas andam pelo menos tão baralhadas como a semântica dos partidos. Não por culpa do dirigente X ou do líder Y, mas por “culpa” da realidade: eppur si muove, como ensinava o outro.
O que resta do Syriza, na Grécia, reclama-se da herança histórica dos sociais-democratas: depois da falência do “modelo Hollande”, que era afinal um nítido nulo, ele representa hoje a última esperança da clássica esquerda europeia. Mas convém que esperem sentados: o engenheiro Tsipras pode ter militado na juventude comunista, pode ainda fechar o punho nos palcos dos comícios, mas jamais o ouvimos reclamar algum quinhão da herança ideológica do marxismo-leninismo. Ele sabe que isso não serve para ganhar votos nem para governar países europeus no século XXI.
Da mesma forma, por cá, não voltámos a escutar a palavra de ordem “Partido Socialista, partido marxista” muito proclamada após a Revolução dos Cravos: dos socialistas espera-se que possam gerir, com mais umas gotas de “sensibilidade social” do que os restantes, a política económica imposta pelos parâmetros financeiros de Bruxelas e Frankfurt.
O PSD abandonou há muito a “inspiração marxista” que constava do seu programa original: o partido estacionou no liberalismo tradicional, sem disfarces, e o último social-democrata genuíno que conserva o cartão de militante é Alberto João Jardim, estatista por excelência, que aplicou a receita na Madeira, com os resultados conhecidos.
Já o CDS despediu-se há duas décadas da democracia-cristã – falecida um pouco por toda a parte no continente europeu excepto na Alemanha da “senhora Merkel” a quem agora tantos batem palmas pela corajosa política anti-xenófoba face aos refugiados sírios – e abraçou o populismo eurocéptico antes de se converter ao liberalismo eurófilo, que aliás o PSD pratica com bastante maior convicção e desenvoltura.
E o PCP, falidos todos os seus modelos e convertida a própria China ex-maoísta ao capitalismo mais desbragado, é comunista só de nome, como de resto já era no tempo em que o líder histórico Álvaro Cunhal ainda dirigia os seus destinos orientado pela bússola de Moscovo. A foice foi-se. E a mirífica “sociedade sem classes” ainda plasmada no programa do partido é como o pote de oiro no fim do arco-íris: não existe em lugar algum.

0 comentários em “Legislativas (6)”

  1. Finalmente uma posição sem meias tintas do Pedro Correia que tinha passado despercebida num outro post.

    Que o queiram para os outros para com isso ganharem vantagens próprias é natural, é da natureza da grande maioria das pessoas não exceptuando sequer os idiotas que proclamam “Welcome Refugees”. No entanto serão sempre os 1º a fugir ao remédio que defendem para todos os outros e exemplos não faltam.

    Como isto só tem tendência a piorar porque como diz (e bem) nós já não mandamos nada que ao menos alguém tenha a coragem de o assumir.

    1. Este texto, convém salientar, surgiu em resposta automática a um comentário seu noutro contexto:
      http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/legislativas-4-7725788#comentarios
      Geralmente costumo reunir estes textos na rubrica ‘penso rápido’. Mas abri uma excepção desta vez pois aplica-se como uma luva à série ‘legislativas’.
      E comprova como são úteis estas trocas de impressões que aqui vamos travando.

      1. Tendo eu valores de “direita” no que concerne ás questões fracturantes, ser de “direita” no que se refere á economia em que basicamente quem toma más opções deve pagar por elas, defender que todos os sectores económicos monopolistas devem ser propriedade do Estado, que a educação a saúde e segurança social se devem ser proporcionadas pelo estado em 1º lugar e nunca deverá haver subsidiação directa ou indirecta do mesmo aos actores privados nestes sectores e verificando que tudo isto foi abandonado em favor do Neo-comunismo reinante e que cada vez mais a vida em sociedade parece um conto de far-oeste em que o vale tudo é a bitola mínima , reconhecendo que os ditos partidos de direita não estiveram a altura das suas responsabilidades e ainda fazem pior que o ” PS ” que com palavras doces leva a Pátria cada vez mais ao fundo só me resta a opção lógica de optar por quem se mostra mais capaz de limitar os danos que o conluio entre a maçonaria politica e os pseudo campeões da economia de mercado que vivem num regime de proteccionismo económico á conta das rendas que sugam a todos Nós (Estado) e que nem assim conseguem de deixar de cair ao 1º abanão.

        Estando o sistema podre desde a base ao topo, carente de bons exemplos e faltando melhores opções só resta dar força a todos os que em devido tempo avisaram e bem, dos resultados das politicas dos últimos 20 anos seguidas pela nomenclatura instalada contra a Pátria e o Povo.

        “As liberdades ilimitadas destroem-se a si próprias.”

  2. O que descreve traduz apenas o ponto em que estamos do pêndulo dos movimentos da história. O capitalismo conseguiu libertar-se de algumas das amarras que o colocaram ao serviço das sociedades durante as décadas que se seguiram ao pós-guerra.

    Mas isso, a história também já demonstrou, gera um contra-movimento. Aqui? Ainda não é claro. Mas olhe para os Estados Unidos. Quem lhe diria há 10-20 anos que um assumido “Socialista” viria a dar luta numas primárias Americanas?

    A história não chegou ao fim Pedro Correia. As notícias do seu final são claramente prematuras.

    1. A história não chegou ao fim, claro. Nem chegará: só Marx apontou nessa direcção com o seu socialismo “científico”, de pendor determinista. E alguns neoconservadores oriundos da “esquerda radical” que não abandonaram os mecanismos de reflexão hegeliano-marxista, numa espécie de reflexo condicionado.
      Mas, sinceramente, eu aconselho-o a não esperar que os amanhãs que cantam surjam do “socialismo” dos EUA, o país menos socialista do globo.

  3. Aqui temos um post com várias verdades e que de entre uma delas destaco a da Resignação.

    É sabido que parte do mundo ocidental conseguiu evoluir porque desde a II Guerra Mundial se estabeleceu o denominado Equilíbrio do Terror. Destes países os que mais se destacaram foram os modelos implementados na Escandinávia, porque conseguiram fazer do socialismo uma prática verdadeiramente integradora e souberam pensar seus recursos. Há relativamente pouco tempo, a Finlândia consegue descolar do modelo miserável que a aprisionava através da política “Todos São Necessários”.

    A Alemanha, Inglaterra, França e os restantes países que entraram na Comunidade do Carvão e do Aço, que origina mais tarde a CEE, decidiram que o modelo social a implementar devia ser o da partilha quebrando fronteiras aduaneiras e abrindo-as também à circulação das populações.
    Tornou-se possível este modelo porque existia também a consciência, por parte dos EUA, que da injecção de capital através do Plano Marshall para reconstruir uma Europa destroçada material e socialmente dependia a sua sobrevivência, gerando-se assim bem-estar.
    E um desses bem-estar residiu precisamente em corrigir e anular as causas e consequência originadas pela queda de Wall Street, melhor, o que levou à sua queda. Ao contrário do que muitos pensam, a Europa de então entrou em crise porque os seus governos, em particular os Ingleses e Franceses, usavam suas reservas e disponibilidades monetárias para especular na bolsa americana, recebendo como contrapartida taxas absolutamente elevadas para suas aplicações.

    Com o surgimento do liberalismo Selectivo de Reagan/Thatcher, que arrasta a Europa e o mundo para o modelo que o definia, o da Selectividade, fez-se acreditar que este seria o Novo Paradigma de bem-estar das populações, e os resultados estão à vista.
    Curiosamente este modelo Selectivo assenta nas premissas do capitalismo de estado usado a leste e vai mais longe entregando ao poder financeiro a definição da governabilidade dos povos e dos estados.

    É com a introdução desta foice na ceara Universal, coadjuvada pela queda da cortina de leste também com alguma ingenuidade por parte de Gorbachev, que assistimos ao revivalismo das ideologias e que marcará a luta das próximas gerações.

    O liberalismo selectivo vai cair, mas até lá arrastará consigo até mesmo aqueles que o defendem.

    Por último, o tema dos refugiados continua a parecer que cria divisões entre bonzinhos (os que desejam acolher) e os mauzinhos (os que não os querem). Eu entendo que devem ser acolhidos, em particular pelos países para onde desejam ir (Alemanha, Inglaterra, França e Holanda).
    Porquê? Porque é a única forma de pressionar as potencias Ocidentais e a Rússia e China a um compromisso para que se resolvam os problemas na origem.
    Afirmei isto desde o início e os factos começam a comprovar que eu estava certo.
    Estava certo porque quer a França quer a Austrália pretendiam e afirmaram que iriam começar a bombardear o EI. Mas como os russo não são burros também andam pela Síria:
    http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=1&did=198757

    Mas o assunto não fica por aqui: a China vem agora anunciar que está disposta a ajudar neste compromisso, depois dos russos terem avançado para a Síria (note-se):
    http://www.sapo.pt/noticias/china-diz-estar-aberta-para-comunicar-com-a_55f2c7de96053ed111529bbb

    Mas há mais, como anunciei por aqui:
    http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=788688
    http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=789257

    Não tenho muitos mais caracteres para poder expandir o raciocínio, mas sobra-me espaço para dizer que há um liberalismo à portuguesa, o dos sonhos cor de rosa que batem sempre contra cortinas já não de ferro mas de aço.

  4. Com tanta hipocrisia e descaramento particularmente com quem tem o dever de informar e escutar, revoltado estou eu com uma tralha de gente que se mostra muito incomodada em falar de um passado recente de pouco mais de 4 anos a que ainda sentimos o bafo, e que se calhar passado mais de 45 ainda castigam o fóssil Salazar pelo estado em que deixou o País. Falta de caco ou de vergonha? Quero destacar a D. Judite que admoestou Passos Coelho dizendo-lhe para não falar do passado quando isso era absolutamente necessário para desmontar mais uma alarvidade de Costa.

  5. De ser difícil ler um texto mais deturpador sobre a “social democracia”.

    Hoje o Estado colecta quase 50% de riqueza produzida , com empresas semi-publicas, para-publicas e municipais a adicionar a esse poder, interfere como nunca na vida dos Portugueses.
    Um “social democrata” como Sá Carneiro e um Socialista como Mário Soares nunca sonharam alguma vez que o Estado tivesse este poder hoje. Mais de 50% do poder económico a passar pelas mãos do Estado. Para não falar do poder regulatorio extraordinariamente aumentado.

    Nunca Portugal foi tão Social Democrata como hoje.

    Os “sociais democratas” Manuela Ferreira Leite e Pacheco Pereira Co. viveram num Estado Neo-Liberal nos anos 80 por comparação com este.

    O que mudou foi que a Esquerda percebeu sem o dizer – afinal ser de Esquerda é não ter de pedir desculpa- que é preferível sair do jogo produtivo e deixá-lo aos “capitalistas”.
    A Esquerda não quer mais siderugias, industrias do que quer que seja.
    Não quer mais responsabilidades.
    A Esquerda quer é ser o Pai Natal. Adorada e amada. Narcisista.

    Tudo o que é incerto não é para a Esquerda de hoje.

    Por isso fica a distribuir riqueza – pelo Estado Social e por ONG’s – e a acusar os outros de serem ingratos quando não lhe dão dinheiro – leia-se poder.

    1. “Ser de Esquerda é não ter de pedir desculpa.” Além de não perceber o uso da maiúscula, não entendo de todo o significado de frases como esta, que parecem inspiradas na personagem de Ali McGraw em ‘Love Story’: “Love means never having to say you’re sorry.”

      1. Esse “E” também o não entendo. A não ser como uma espécie de reflexo condicionado, uma consequência perversa de quatro décadas (porque ainda vai sendo assim) em que ser-se de direita era coisa digna de lapidação pública e muita gente, alegadamente dotada de capacidade pensante, sentia e sente a necessidade de, antes ou depois de ocasionais declarações de elementar bom senso, assegurar o auditório – sabe-se lá porquê – que até é de esquerda.

        Já quanto a isto: “Ser de Esquerda é não ter de pedir desculpa”, é-me difícil discordar. Desde a actuação do PC que arruinou o país no PREC (o facto de, segundo alguns, também se lhe dever a paragem desse criminoso delírio, a um curtíssimo passo do abismo, não releva as suas responsabilidades), passando pela geral loucura elitista e utópica da esquerda convencionalmente tida como “caviar”, até à já absolutamente descarada plutocracia e ao nepotismo de freio nos dentes do PS, a esquerda – no fervoroso dogma da sua superioridade moral – desconhece a noção de erro próprio, reescreve a História sempre que o achar necessário e como o achar necessário, e de facto não pede, achando-se acima dessas humilhações, desculpa.

        Costa

  6. Quem viveu os últimos 41 anos mínimamente Informado em Portugal e no Portugal europeu, não pode de modo algum discordar do que escreveu, Pedro.
    Em não podendo mudar de olhos e enxergar diferentes realidades, tente mudar-se de lentes. Ver desfocado quantas vezes não ajudará mais a percepção do que é a nossa realidade, aquela que interpretamos sempre á luz dum prisma que só reflete uma cor.

    1. Obrigado pelas suas palavras tão sensatas, Dulce. Nesta época de indignadinhos de sofá, que saltitam de emoçãozinha em emoçãozinha sem diferença de tom nem grau, é difícil argumentar com um mínimo de racionalidade.

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