DEBATE JOSÉ SÓCRATES-FRANCISCO LOUÇÃ
Pode a mesma receita funcionar duas vezes para vencer o mesmo adversário num frente-a-frente televisivo? Pode. José Sócrates demonstrou-o esta noite ao suplantar Francisco Louçã num debate na SIC. E bastou-lhe, para o efeito, reeditar a estratégia que já pusera em prática no confronto com o coordenador do Bloco de Esquerda para as legislativas de 2009. Na falta do programa eleitoral do Bloco, que ainda não foi divulgado, recorreu à moção estratégica que Louçã levou à recente convenção bloquista para traçar dele a imagem de um dirigente radical, associando-o ao adjectivo “irresponsável”. De papel em riste, o secretário-geral dos socialistas leu dois trechos desta moção: “O problema de Portugal é a sua burguesia” e “o objectivo do socialismo é derrotar os donos de Portugal”. Embalado, Sócrates resumiu a seu modo os principais desígnios programáticos do Bloco: “Nacionalizar e não pagar a dívida”.
Foi em torno da controversa questão do pagamento da pesada dívida externa portuguesa que decorreu quase toda a segunda parte do frente-a-frente, com Sócrates a refutar a tese da “renegociação” defendida por Louçã: “O País pagaria um preço em miséria, desemprego e falências.” O coordenador do BE, por seu turno, invocou como argumento de autoridade uma revista “burguesa”: a Economist, que não hesita em advogar a reestruturação da dívida de países como a Grécia e Portugal. Mas nesta fase do frente-a-frente – muito bem conduzido por Clara de Sousa, que se confirma como a melhor moderadora de debates políticos na televisão portuguesa – a capacidade de iniciativa pertencia a Sócrates: o líder socialista acusou Louçã de “ser a muleta da direita” e considerar o PS como “adversário principal”. Ao ouvi-los agora em Maio, ninguém diria que apenas há quatro meses andavam irmanados no apoio à candidatura presidencial de Manuel Alegre…
Louçã ainda o aconselhou a “voltar a Portugal”. Mas era já patente que tropeçara nas artimanhas retóricas do seu antagonista, repetindo o erro cometido há menos de dois anos. E no entanto quem assistisse apenas aos primeiros 20 minutos não teria a menor dúvida em proclamar o líder bloquista como vencedor. Louçã chegou com a lição bem estudada, confrontando Sócrates com uma carta dirigida pelo ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, ao FMI em que prometia“conseguir uma grande redução da contribuição patronal para a segurança social”. O dirigente socialista foi pouco convincente nesta fase do debate em que ouviu Louçã traçar um retrato negro destes últimos anos da sua prestação governativa: atacar os abonos de família, congelar pensões, reduzir os salários, “ir ao bolso da classe média”. Sem meias palavras, o bloquista apontou o dedo acusador ao primeiro-ministro, que continua a ser incapaz de reconhecer um erro:“O senhor é o campeão do aumento do IVA”. Acusou-o ainda de ser responsável por “mais cem mil desempregados” a curto prazo e não se esqueceu de anotar que, segundo estimativas oficiais, “Portugal será no próximo ano o único país da Europa em recessão”.
Palavras fortes? Seguramente. Sócrates mereceu escutá-las? Sem qualquer dúvida. Mas um debate televisivo é como uma partida de futebol: não adianta chegar a meio com vantagem se na etapa complementar deixamos o adversário dar a volta ao jogo. Foi isso que sucedeu. E Louçã só pode queixar-se de si próprio.
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FRASES
Louçã – «O que nos trouxe aqui? Sucessivos erros, sobretudo no último ano.»
Sócrates – «Ha um erro que nunca cometi: o de não agir, o de não fazer.»
Louçã – «Temos uma crise económica gravíssima e uma crise social gravíssima.»
Sócrates – «O senhor é um dos responsáveis por esta crise política que prejudicou o País de forma irreparável na sua reputação.»
Louçã – «Isto não é um combate de boxe. Era preferível não haver sucessivas interrupções.»
Sócrates – «Há um bocado o Francisco Louçã disse que esteve a ler o programa do PS. Eu quero fazer aqui um ponto de ordem…»
Louçã – «Não vai mostrar uma pastinha, não? A mesma graça dita duas vezes não tem graça…»
Sócrates – «Não. Mas o senhor ainda não tem programa. Não acho leal vir para os debates sem programa.»
Louçã – «Sócrates diz uma coisa e faz outra.»
Sócrates – «O FMI veio para Portugal pela sua mão, não pela minha.»
Louçã – «Senhor engenheiro, quero convidá-lo a voltar a Portugal.»
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ADENDA
Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Francisco Louçã-José Sócrates da campanha legislativa de 2009.



Sinceramente misturando a 1.ª e a 2.ª parte penso que dá empate, com o facto de que naquilo que Sócrates perdeu destruiu os efeitos dos ataques que o PS fizera ao PSD e com danos internos gravosos por evidenciar mais a estratégia de negar em discurso o que se põe por escrito e com isto foi Passos que ficou a ganhar neste debate.
Possivelmente, admito, Passos Coelho beneficiou com este debate. Veremos se o benefício não ficará anulado no seu frente-a-frente com o líder socialista. Um frente-a-frente que só vencerá se não se deixar relegar para os terrenos que Sócrates escolher. Seria bom que Passos revisse com atenção o vídeo do frente-a-frente Manuela-Sócrates, em 2009. O líder do PS levava a lição bem estudada: tinha lido detalhadamente o programa eleitoral do PSD e passou o tempo a falar disso. Espantosamente, MFL nunca mostrou ter lido o programa do PS e passou o tempo a justificar as posições sociais-democratas, sempre numa posição defensiva.
Completamente de acordo, mas é mais fácil discutir o programa do PSD, por ser muito mais pormenorizado, do que o do PS que é demasiado vago e onde é difícil dizer que não se concorda ou se concorda com este ou aquele princípio que não está devidamente definido e permite o jog de cintura de Sócrates.
Não sei, não… a carta para o FMI pode causa mossa!
Poder, pode. Até por isso não entendi como é que Louçã perdeu por completo o gás na segunda metade do debate. Está visto que Sócrates lhe toca num ponto fraco cada vez que faz menção à esquerda “extremista” e “radical”.
«Ha um erro que nunca cometi: o de não agir, o de não fazer.»
Não percebo como os seus adversários deixam sempre escapar esta: bastava atirarem-lhe à cara que quem trabalha de forma errada como Sócrates trabalha (fazendo alianças com os países errados, utilizando recursos do Estado para fazer propaganda, martelar números e estatísticas, empenhar o País) tem a obrigação de estar quieto.
Na hora da verdade, surge sempre ali um estranho temor que os faz calar em vez de dizer certas coisas essenciais. Também é verdade que Louçã não estava muito à vontade nesta matéria, pois há quatro meses andava a descer o Chiado de braço dado com os socialistas a promover a fracassadíssima candidatura de Manuel Alegre à presidência.
Concordo. Além disso, O PS e o Bloco partilham muito mais eleitorado do que parece à primeira vista. Aliás, tirando os “modernos-primitivos” que andam para aí a soprar naquelas cornetas australianas e o pessoal das companhias de Teatro subsídio-dependentes, duvido muito que o Bloco tenha um eleitorado propriamente dito.
A carta, os juros a pagar sobre o empréstimo (assinar um contracto sem conhecer o valor), a recessão e por consequência a impossibilidade de pagar a dívida colocou Sócrates num teatro de marionetas manipuladas pela tróica.
Os devedores podem sempre sentarem-se com os credores e renegociar.
Retirar duas frases de uma moção a um congresso não faz ideologicamente um partido, seria o mesmo que catalogar o PS de esquerda.,só porque defende o SNS, SNS muito diferente do original.
Sócrates está cansado, maduro e K7 teiro ( Pec 4, crise política, crise política, Pec 4).
Louça venceu.
Caro José Manuel: Louçã é muito útil, nestes debates com Sócrates, para fazer o secretário-geral socialista demarcar-se da “tenebrosa” esquerda “radical”, o que continua a agradar a um certo eleitor de classe média – precisamente (mas as coisas são que são) aquele que mais tem sido afectado pela governação socialista. Não esqueçamos: este Sócrates “centrista” e moderadinho, de falas mansas em comparação com a esquerda “extremista”, levou a a água ao seu moinho em 2005 e em 2009.
Concordo. Sócrates em debate com Louça e Jerónimo passa por ser o responsável de esquerda. Em 2009 perdeu a maioria, porque o BE cresceu.
Escala de valores
Penalizo com 1 ponto negativo cada “desvio” do inofensivo Louçã.
Dou-lhe, ou a quem quer que seja 10+ sempre que sejam desmascaradas as emboscadas do perigoso Sócrates.
Ganhou ele, ganhamos nós.