Legislativas (29)


Pedro Correia,

 

DEBATE JOSÉ SÓCRATES-FRANCISCO LOUÇÃ

 

Há pequenas frases que dizem tudo. Um político pode ficar amarrado a elas para sempre. Aconteceu hoje à noite com José Sócrates, na RTP, no mais acalorado debate até agora realizado nas televisões durante esta pré-campanha para as legislativas. Francisco Louçã, o seu antagonista, acabara de dizer que foi "socialista laico e republicano toda a vida" quando o líder do PS lhe replicou nestes termos: "Eu sempre me filiei no socialismo democrático. Nunca tive outra família política."

Sabendo-se que Sócrates esteve filiado no PPD de Francisco Sá Carneiro – grande rival do PS de Mário Soares – logo após o 25 de Abril de 1974, esta frase confirma que Sócrates tem uma relação difícil com a realidade. "Volte a pôr os pés na terra", atirou-lhe Louçã. Tinha razão para falar assim: o país do primeiro-ministro é o país da propaganda, das previsões não concretizadas, dos promessas desmentidas pelos factos.

Dito isto, há que sublinhar o seguinte: Sócrates levou a melhor neste debate ao enredar o líder do Bloco de Esquerda na estratégia que levava bem estudada. A maior parte deste frente-a-frente foi preenchida não com a análise detalhada destes quatro anos e meio de governo socialista dotados de maioria absoluta mas a analisar o programa eleitoral do Bloco. Sócrates forçou Louçã a jogar à defesa, encurtando-lhe a margem de manobra. Enquanto o homem forte do BE se justificava das acusações do primeiro-ministro, que lhe colava os rótulos de "extremista" e "radical", iam decorrendo preciosos minutos. Para se debater o programa do Bloco, não se debateu o País.

Louçã percebeu ainda a tempo que estava a perder o debate, que até lhe tinha começado bem com a sua devastadora invocação de casos como a entrega da GALP a Américo Amorim ou do terminal de contentores de Alcântara à empresa construtora de Jorge Coelho sem concurso público. Nessa altura foi o chefe do Governo quem se viu remetido a posições defensivas, recorrendo a truques de retórica já estafada.

"Candidato-me para vencer a direita", disse o socialista.

"Candidato-me para vencer a crise", retorquiu-lhe o bloquista.

Foi então que Sócrates abriu o programa eleitoral do seu adversário e começou a questionar a política fiscal do Bloco, o amplo programa de nacionalizações do Bloco, o "ataque à classe média" supostamente protagonizado pelo Bloco, "a estratégia clássica da esquerda radical" defendida por Louçã. Acenos evidentes aos eleitores da classe média que têm vindo a a ser atraídos pelo BE, como as últimas europeias demonstraram.

O líder bloquista invocou precisamente a derrota do PS nas europeias para referir que "Manuel Alegre, sozinho, teve mais votos" que os socialistas neste último escrutínio. Namoro evidente à ala esquerda do partido que tem governado Portugal em 11 dos últimos 14 anos. De Bloco Central ninguém falou. Mas é cada vez mais perceptível que essa é uma solução governativa que está a ser equacionada por dirigentes do PS e do PSD. Não foi o próprio Sócrates que neste debate, lembrando a sua própria experiência de militante, acentuou que os dois partidos integram a mesma "família politica"?

41 comentários em “Legislativas (29)”

  1. Louça venceu porque não mentiu, foi verdadeiro, quer se goste ou não Louça é Socialista. E Sócrates faz de conta que é social/ Democrata e é Centrista. Hoje discutiu-se pela 1ª vez Ideologia Pura, finalmente!

  2. «Tinha razão para falar assim: o país do primeiro-ministro é o país da propaganda, das previsões não concretizadas, dos promessas desmentidas pelos factos.»
    Caro Pedro, e o resto?

        1. Francisco, terei outras ocasiões para falar nisso. Esta noite prefiro concentrar-me – com a objectividade possível – no debate Sócrates/Louçã, que foi interessante e revelou dois políticos portugueses de primeiro plano, concordemos ou não com eles.

    1. acho, ao contrário da imprensa toda, que louçã não perdeu o debate.
      aliás, revolta-me imenso ver a imprensa declarar que louçã escorregou por se ter enganado no caso das autoestradas. que o caso dos contentores é como ele diz, ninguém questiona.
      a que ponto de merda chegou este país.

    2. Também achei, Jorge. Sócrates é um tacticista – e nisto é exímio. Esta noite vendeu com eficácia um PS ‘centrista’, atemorizando as classes médias contra o ‘extremismo’ do BE e preparando já, de algum modo, o terreno para um diálogo à direita com vista à formação da próxima solução governativa.

  3. Por acaso sabe que os meses em que Sócrates esteve na JSD, coincidiram com a tentativa de Sá Carneiro se integrar no Bloco social-democrata e socialista democrata europeu.
    Sabe que Sá Carneiro chegou a sugerir a Soares a fusão dos partidos?
    Sabe que foi Soares que impediu que Sá Carneiro entrasse no Grupo europeu acima referido?

    De facto Sócrates sempre foi social-democrata.

    1. Factos: PS e PPD não são da mesma família política. Nunca foram. Pelo contrário, com Sá Carneiro foram sempre partidos rivais – nessa altura ainda mais rivais do que são hoje. Nem estiveram nunca na mesma família política internacional, como sabe. Isto são coisas tão elementares que nem valeria a pena estar a sublinhá-las aqui. A menos que ache que Mário Soares poderia ter sido quadro do PPD (de Sá Carneiro e Mota Amaral e Alberto João Jardim) e, inversamente, Sá Carneiro poderia ter sido dirigente do PS. Não acha, pois não? Então estamos de acordo.

  4. Concordo em absoluto com a tua análise, Pedro. No entanto, não me parece que a afirmação de Sócates, no concernente à sua família política, seja algo de novo ou surpreendente. Ele sempre foi social democrata e, em minha opinião, ´poderia ser o líder ideal para o PSD. Sinceramente, só percebo o azedume dos laranjas contra Sócrates, pelo facto de ser líder do PS. Invocar a falta de credibilidade de Sócrates não colhe, num partido que tem como líder MFL.
    Quem melhor do que Sócrates faria uma política convergente com o PSD? O Bloco Central existe há quase 30 anos e vai continuar a existir, independentemente dos resultados de 27 de setembro.
    O reforço da esquerda – que poderia obrigar Sócrates a fazer uma política mais à esquerda- parece-me hoje mais comprometido.

    1. Claro que está mais comprometido, Carlos. E neste aspecto nem digo que as culpas estejam apenas de um lado: a intransigência do BE e sobretudo da CDU não dão sequer margem de manobra a entendimentos pós-eleitorais com o PS. Hoje para mim ficou ainda mais evidente que Sócrates prepara já uma possível plataforma de entendimento com o PSD, com ou sem Ferreira Leite.

      1. Pedro Correia

        O seu problema é o da maioria dos jornalistas: tem uma agenda própria e por isso tenta distorcer a realidade naquilo que lhe convém. Claro que a sua agenda é a do bloco central e portanto faz os seus comentários nesse sentido.
        Claro que para mim poderá existir um governo de Salvação Nacional a seguir às eleições para tentar recolocar o país no caminho que estes anos de poder socialista (com a excepção infeliz dos anos Barroso/Lopes) destruíram Mas esse governo, a existir, terá de ser sempre sem Sócrates e eventualmente com MFL .

        1. Acerta ao lado, Observador. Essa tese já tem barbas: é a de José Pacheco Pereira, que pretende com esse cliché desqualificar toda a opinião dos jornalistas que se interessam por política. De si esperava que fosse um pouco mais longe. Ou, reparando melhor, talvez não.

  5. No global acho que este debate teve um vencedor mas foi um jogo de perde-perde.
    O balanço final conduz a uma perda de votos da esquerda. Sócrates minimizou a sangria para o BE mas as questões levantadas por Louça (em benefício da democracia) vão levar a votos em branco de entre os votantes típicos do PS.

  6. Apesar de se “apoderar” ilegitimamente dos votos de Manuel Alegre, Francisco Louçã começou bem o debate marcando pontos na questão do Terminal de Contentores de Alcântara e também na questão europeia.

    Mas a grande vitória de Louçã no debate foi conseguir com Sócrates o que não conseguiu com Manuela Ferreira Leite. Ou seja, provocar uma resposta nervosa aos ataques pessoais. É neste terreno que Louçã é forte.

    Depois foi-se abaixo e perdeu terreno para Sócrates nas questões fiscais. A ideia do BE sobre as grandes fortunas é uma coisa sem sentido (aliás nisto MFL é que tem razão: deixem-nos ter €s p/ comprar iates, etc. E aumente-se os impostos nesses produtos de luxo).

    Louçã foi “menino” e não esperava o ataque de Sócrates às suas propostas na questão dos benefícios fiscais. Aqui, perdeu vários pontos para o líder do PS. Apesar de tudo Louçã conseguiu uma melhor recta final, não por mérito seu mas por demérito de Sócrates.

    Primeiro o PM entrou pelo ataque pessoal sobre passados políticos e perdeu. Depois mostrou arrogância ao tentar moderar o programa… “Não vamos falar de política externa?” […] Judite: “já lá iremos se tivermos tempo”

    Para finalizar, na ânsia de atacar o PSD, Sócrates desprezou a última pergunta de Judite de Sousa e demonstrou mais uma vez falta de respeito pelos orgãos de comunicação social e pelos jornalistas.

    1. É conhecida a arrogância do PM em geral e perante jornalistas em particular. Curiosamente, não faltou, ao longo destes anos, quem o elogiasse por isso. No caso de Judite Sousa, é evidente que existe ali um problema de carácter pessoal: não há um só debate ou entrevista em que Sócrates não se pegue com ela. Não faço a mínima ideia porquê.

    1. Pois. Sócrates precisa de estancar a previsível sangria de votos do PS para o BE, que será o partido com maior crescimento eleitoral nestas legislativas. Terá conseguido esse objectivo apenas numa pequena percentagem. Porque, não nos iludamos, a grande maioria dos eleitores já decidiu neste momento a sua orientação de voto.

      1. Apesar de as sondagens confirmarem em absoluto a tua tese, não sei se o crescimento do BE será tão significativo como alguns pensam…
        E quanto a um governo de Bloco Central, continuo a manter a ilusão de que não se concretizará. Pelo menos com estes protagonistas…

  7. Embora a maior parte das opiniões vá no sentido de uma clara vitória de Sócrates, eu não penso que tenha sido bem assim. É certo que Louçã se deixou enredar um pouco pelas armadilhas que o opositor lhe lançou, uma vez que Sócrates conseguiu, mais uma vez, amedrontar Judite de Sousa e tornar-se ele próprio no moderador do debate, relegando-a para o papel de um ‘décor’. Nisto, na verdade, levou a palma a Louçã, mas não no debate nem no confronto de ideias onde este se aguentou razoavelmente bem e conseguiu até, levar algumas vezes o adversário ao tapete. Então, quando foi obrigado a defender o amigo Jorge Coêêêlho, o homem até mudou de cor.

  8. Estou a ver que perdi um debate interessante,
    terei sempre oportunidade de o visionar na “net”, de qualquer maneira se porventura eu não tivesse “orientação” de voto, com a análise do Pedro e os comentários ao debate, eu ficaria esclarecida quanto ao “sentido” – em quem não votar :))

  9. “Candidato-me para vencer a crise”, retorquiu-lhe o bloquista. E esta frase é transponível para a realidade? ou apenas um soundbyte?

  10. Não vi o debate!
    Pelo seu comentário, fiquei a saber o que se passou por lá e concluo que talvez não tenha perdido um grande momento televisivo-político.
    Há qualquer coisa de deja vu nestes dois personagens. Algo de comum, algo de previsível, algo de desinteressante…

    Cumprimentos.

  11. Desta vez vi o debate praticamente todo, pois estava á espera de ver Sócrates a perder por KO, puro engano, Sócrates surpreendeu e sai do debate estancando percas para o bloco e com novo folego para sábado.Há quem no PSD esteja muito preocupado com a prestação de Ferreira Leite, eu sou um deles,como é sabido.
    abraço

    1. Pois eu vi os seis debates, Pedro. E até agora, na minha opinião, foi assim:
      Sócrates-Portas – venceu Portas
      Louçã-Jerónimo – venceu Louçã
      Sócrates-Jerónimo – venceu Sócrates
      Louçã-Manuela – venceu Louçã
      Portas-Jerónimo – venceu Portas
      Sócrates-Louçã – venceu Sócrates
      Como já aqui escrevi, o jogo das expectativas também ajuda a definir o vencedor de um debate. Neste caso, partir de uma expectativa mais baixa ajuda – e vice-versa. Foi isso também que prejudicou Louçã.

  12. “o PPD de Francisco Sá Carneiro – grande rival do PS de Mário Soares – logo após o 25 de Abril de 1974”

    Isto é falso. Logo após o 25 de Abril de 1974, o PPD e o PS foram grosso modo aliados contra o PCP e a extrema esquerda. O grande rival de Mário Soares foi Álvaro Cunhal e não Francisco Sá Carneiro.

    Sá Carneiro só se virou contra o PS mais tarde, a partir de 1977 talvez. Creio que Jośe Sócrates saiu da JSD por essa altura.

    1. Escrevi que o PPD de Sá Carneiro foi um grande rival do PS de Mário Soares. Isto é factual: não depende de apreciações subjectivas. Nem poderia ser de outra forma: Sá Carneiro integrara a Assembleia Nacional marcelista enquanto Mário Soares fora remetido ao exílio pelo regime de Marcelo Caetano. O grande rival eleitoral do PS foi logo nessa altura (Abril de 1975, constituinte; Abril de 1976, primeiras legislativas) o PPD de Sá Carneiro. Os dois partidos nunca partilharam a mesma família política, ao contrário do que Sócrates afirmou no debate com a ligeireza do costume. A mesma ligeireza que o levou em Julho a afirmar desconhecer a intenção de compra da TVI pela PT e já em Setembro garantir desconhecer se Pina Moura fazia ou não parte da administração deste canal. Este homem às vezes nem parece viver no país que governa.

      1. Mas você é inocente e acredita no que escreve ?
        O homem é um mentiroso nato e quer fazer os outros de parvos, é só isso e mais nada…

        1. Observador:
          Sempre critiquei quem desqualifica os outros recorrendo ao insulto. É o que faz neste seu comentário, com a agravante de ser anónimo.
          Chamar ‘mentiroso’ a um político é paleio de barbeiro ou de café. Tentemos elevar um pouco o nível da conversa, está bem?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *