Legislativas (22)


Pedro Correia,

 

A DESCER

 

José Sócrates. Os portugueses fartaram-se de José Sócrates, das suas contínuas promessas por cumprir, do défice monstruoso, dos 700 mil desempregados, da pesada herança que deixa ao sucessor no palácio de São Bento. Esta legislativa, como era de antever, funcionou como um plebiscito ao homem que encabeçava o Governo desde 2005. O veredicto das urnas foi claro: o pior resultado do PS dos últimos 24 anos. Deixando sem margem de manobra o homem que ainda há bem pouco tinha recebido uma votação esmagadora no mais inútil e mais patético dos congressos do seu partido.

 

Francisco Louçã. Dir-se-ia que estas eleições seriam ideais para capitalizar os votos de descontentamento no Bloco de Esquerda. Nada disso aconteceu: os bloquistas sofrem uma pesada derrota que os faz reduzir para metade o grupo parlamentar eleito em 2009. Consequência directa dos clamorosos erros estratégicos do Bloco que foram sendo cometidos nos últimos meses e que mereceram aqui diversas críticas. O erro principal foi a tentativa de copiar o Partido Comunista, esgotando-se numa força de mera oposição, sem propor qualquer solução governativa. Louçã é o rosto da derrota eleitoral do BE.

 

Ferro Rodrigues. Regressado de Paris, foi o maior trunfo de Sócrates na elaboração das listas eleitorais. Cabeça-de-lista do partido da rosa, teve um discurso errático durante a campanha, em que destacou como um dos principais defensores de uma solução de bloco central – repetindo, aliás, um apelo que já fizera em 2009. Conduziu o partido a uma pesada derrota na capital, frente ao PSD encabeçado por Fernando Nobre, e perde assim margem de manobra para influenciar um cenário de sucessão nas hostes socialistas.

 

Participação eleitoral. Apesar da profunda crise em que o País mergulhou, com um cenário iminente de bancarrota, demasiados eleitores portugueses continuam divorciados das urnas. Estas foram, aliás, as legislativas menos participadas em quase quatro décadas de regime democrático: 41% dos inscritos recusaram votar. Esta questão faz suscitar outra, cada vez mais premente, sobre a profunda desactualização dos cadernos eleitorais. A percentagem oficial corresponderá à percentagem real?

 

Sondagens. Foi vergonhosa a tentativa de manipulação dos eleitores através de sucessivas sondagens que apontavam para “empates técnicos”. Nunca houve tantas sondagens numa campanha e nunca as sondagens falharam tanto. Os resultados das urnas demonstraram que não podia haver situações de efectivo empate técnico a tão poucos dias do exercício do voto. Aqui está um tema de urgente reflexão por parte dos responsáveis das empresas de sondagens e por parte dos responsáveis editoriais que as divulgam.

 

Pequenos partidos. Alternativas? Que alternativas? Os pequenos partidos continuam sem mobilizar os portugueses. Não há justificação para que muitos deles, que nunca conseguiram eleger ninguém ao longo de sucessivas eleições legislativas e autárquicas, continuem a receber apoios do Estado, nomeadamente na realização de tempos de antena eleitorais. A lei deve ser revista nesta matéria fazendo depender esses apoios de números mínimos de votos obtidos nas urnas.

12 comentários em “Legislativas (22)”

  1. Pedro e restante, pessoal, antes das coisas sérias: os vossos comentários curtos, durante a noite de ontem, foram o que de mais divertido eu li nestes últimos dias. Uma delícia. Um abraço.

  2. Ou muito me engano ou, com estes posts, o Pedro Correia corre o risco de continuar a ser acusado pelo Pacheco Pereira de estar ao serviço do PSD sem o declarar, ao contrário do “grande jornalista” Tadeu – que, esse sim, veio revelar publicamente, ao fim de largos anos, ser do PCP…

  3. Um grande partido preciso, em média, de 20.000 votos, para eleger um deputado. Um pequeno partido precisa de cerca de 60.000. O PCTP-MRPP teve 62.491 votos e não conseguiu eleger nenhum deputado. Sim, bem sei, é o método eleitoral que utilizamos. Mas daí a dizer-se que os “pequenos partidos continuam sem mobilizar os portugueses” vai um pequeno passo 🙂

    Um pequeno partido preciso é de se esforçar muitíssimo mais, do que um grande partido 🙂

    1. O caso do MRPP parece-me ser um caso extremo de um partido que vai vivendo anos a fio do erário público sem nunca ter eleito ninguém, Maria João. Devia haver limites para um caso destes. Sobretudo em tempo de crise.
      Os pequenos partidos, se quiserem, podem tornar-se médios. Ou até grandes. Aconteceu com o PRD em 1985. Aconteceu mais recentemente com o Bloco de Esquerda.
      Também acho que devia haver limite para o número de eleições em que um partido não concorra autonomamente, limitando-se a usar outro como barriga de aluguer. Refiro-me ao PEV em relação ao PCP.

      1. Haver um limite de eleições a que esses partidos pudesem concorrer não contribuiria para que estes desaparecessem? Não seria uma forma de excluir os pequenos? Os partidos que constituem o Bloco de Esquerda também andaram uma catrefada de anos a tentar, até terem conseguido.

  4. Atenção que a Abstenção Real (arrisco introduzir este conceito) não é 41%. Eu aponto para qualquer coisa dentro dos 25-30%. As contas são simples de fazer. Há aprox. 9.5 milhões de eleitores incritos mas, segundo o INE, a pop. com 18 ou mais anos anda pelos aprox 8.5 milhões. Ou seja, e muito por alto, há um milhão de eleitores fantasma. Ou seja simplesmente 10% não existe. Outros estarão emigrados e os emigrados votam pouco; outros estarão deslocados e não se dão ao trabalho de ir votar à “sua” freguesia, etc. Tudo isso somado deverá dar um número na ordem dos 10-15 pontos. Ou que quer dizer que a abstenção real (os que não votam) andou pela casa dos 25-30%.

    1. Concordo consigo, Javali. É um escândalo nacional esta desactualização dos cadernos eleitorais. A abstenção real é muito menor do que a abstenção oficial. Todos sabemos que os municípios não dão baixa dos eleitores que partem ou morrem para continuarem a receber verbas do Orçamento do Estado.

      1. De facto… É o somatório dessas pequenas “espertezas” de alguns que nos torna colectivamente no povo trapalhão que somos. É chegada a altura de encostar essa malta à parede de uma vez por todas.

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