Legislativas (21)


Pedro Correia,

 

 

O BLOCO CENTRAL REVISITADO

 

Sejamos claros. O que está essencialmente em jogo, na campanha para as legislativas, é a política de alianças pós-eleitoral. É um tema incómodo, do qual os líderes políticos fugirão a dar respostas claras – comprometendo assim, ainda mais, a relação de confiança e de transparência com os eleitores.

Mas podemos trabalhar no campo das hipóteses. E aqui as alternativas são mais claras do que parecem: ou a votação no CDS é suficiente para possibilitar uma aliança eleitoral, qualquer que seja, ou PS e PSD estão condenados a entender-se – com estes ou outros líderes. Não foi por acaso que na sua recente visita à Áustria o Presidente da República elogiou a ‘grande coligação’ lá existente, espécie de reedição do bloco central que por cá tivemos na década de 80: é nessa direcção que convergem já os estados-maiores dos dois principais partidos. Também não é por acaso que, como sublinha o Paulo Gorjão, no próprio dia da apresentação do tardio programa eleitoral do PSD, um dos seus principais candidatos, João de Deus Pinheiro, defende em entrevista ao i uma coligação com os socialistas. É a resposta simétrica às recentes declarações de Ferro Rodrigues ao Expresso que apontavam na mesma direcção. Deus Pinheiro, sublinhe-se, não é um novato na política: é um homem da estrita confiança simultânea de Cavaco Silva, de quem foi ministro, e de Manuela Ferreira Leite, que o designou como cabeça de lista às legislativas por Braga.

É esta a solução que está a desenhar-se no horizonte enquanto há quem pretenda atirar poeira aos olhos dos eleitores, fingindo cavar trincheiras só para dar algum colorido à campanha. Pura ilusão de óptica, como Ferro Rodrigues e Deus Pinheiro já perceberam. O cenário pós-27 de Setembro já está montado. E tem pontes entre os supostos rivais, não tem trincheiras.

27 comentários em “Legislativas (21)”

  1. Concordo Pedro. Parece ser essa a única dúvida. E o facto de os partidos não serem claros sobre o assunto poderá aumentar a votação do CDS, que poderá capitalizar isso.

    Quanto às objecções de muitos, que Sócrates e MFL não quereriam uma coligação PS/PSD, essas são inúteis. Qualquer que seja o derrotado, não é de esperar que se aguente no partido muito tempo. Sócrates ou MFL, um deles cairá. Sócrates porque é uma criatura de poder. MFL porque tem um pelotão de facas afiadas nas suas costas.

    1. Deduzo que acredita numa maioria eleitoral PS-BE. O problema é que os dirigentes do BE, a começar por Francisco Louçã, sempre têm dito que jamais farão qualquer coligação eleitoral com os socialistas. Neste aspecto, e salvo variações de pormenor, não há grande diferença em relação ao que têm dito os principais responsáveis do PCP.

      1. Não deduzo nada!
        Limito-me a registar o que se passa e a desejar que não haja maiorias absolutas e que as clientelas instaladas no poder possam progressivamente vir a ser reduzidas até zero!
        Até o nada é preferível a este estado de coisas!

        1. Estamos em sintonia nesse aspecto. Também considero desejável que não haja qualquer maioria absoluta na próxima legislatura. Ganhe quem ganhar, terá de negociar com outras forças políticas. É a vida: isso mesmo se passa na grande maioria dos parlamentos da Europa.

  2. Se o PS vencer e o BE permitir ter maioria absoluta no parlamento, com um candidato às Presidenciais comum, acredita mesmo numa coligação PS/PSD ?

    Se o PS vencer e se só os votos do PSD lhe permitirem a maioria absoluta, acredita numa coligação PS/PSD, quando ambos os partidos irão ter candidatos Presidenciais distintos e campanha essa que começará pouco depois das legislativas ? deveria ser bonito, vêr José Socrates a atacar o Presidente da Republica…

    Se o PSD vencer e se só o PS lhe garrantir a maioria absoluta no Parlamento, acredita numa coligação PSD/PS, em que ambos os partidos terão candidatos distintos às Presidenciais, cuja campanha se iniciará pouco depois das legislativas ?

    se com o CDS bastar ao PS ou ao PSD terem a maioria absoluta, ai sim acredito numa coligação, pois o CDS é “a prostituta do regime”

    Se o PS ou PSD vencerem acredito em acordos pontuais, nomeadamente no orçamento, mas isso não é nada de novo. Agora coligação PS/PSD em ambiente de eleições Presidenciais, nãããããã….

  3. Deu nos livre e guarde dum tal desastre; pior do que os interesses instalados dum partido do centro, só os interesses instalados dos dois partidos do centro. Chiça!

  4. Sem sombra de dúvida: a defesa do Bloco Central por Deus Pinheiro «é a resposta simétrica às recentes declarações de Ferro Rodrigues» no mesmo sentido. E isto derruba o que restava do fraco interesse da campanha eleitoral que se segue. Além de confrangedora por todos os motivos, deixa também de ser séria por não ser clara.

    1. João, o seu último comentário parece-m demasiado derrotista; muito se joga nas eleições que se avizinham logo duas, há poderes na sombra que espreitam os despojos e o próximo governo da nação, estou seguro, não será uma coligação centrista.

      1. O derrotismo não é da minha natureza, Carlos. Interessa-me a ética, a lisura, a abertura, a clareza, a competência, o desapego. Como não encontro nada disso, vou ali e volto já. Mas nem sei se vale a pena voltar.

  5. Quando há dias tracei aqui os meus cenários, não incluí essa hipótese, porque a pensava inverosímil. Depois das recentes declarações que referes, comecei a ficar com a pulga atrás da orelha…
    Se essa hipótese se vier a concretizar, o melhor é começar a olhar para o mapa mundi e escolher o melhor destino.
    Para mim não é problema. Com ou sem Centrão, já não falta muito tempo para me pirar…

  6. É importante que não esqueçamos que, quando não estamos convictos do nosso voto, devemos comparecer na urna de voto votando em branco.
    Só assim aquela percentagem de abstenções que ocorre sempre ( 40% a 60% ) se revela muito útil em contagem real.
    E assim podemos expressar de forma legalmente VÁLIDA a nossa opinião, que deverá contribuir para mudar a nossa sociedade se assim o quisermos.

  7. Depois de ler o post e os comentários, vou ver se com uma noite bem dormida me passa a angustia. É que não tenho a sorte do Carlos de me poder pirar daqui…

  8. A questãq Bloco Central/governo de Salvação Nacional poderá ser em Setembro ou depois de um governo minoritário com vida curta.
    O “engenheiro” não fará parte dessa solução, o mesmo não direi de MFL.
    Serão os tais seis meses para fazer as reformas imprescindiveis ao País que MFL falou há uns tempos atrás ?

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