DEBATE JOSÉ SÓCRATES-PEDRO PASSOS COELHO
Se este frente-a-frente era “o debate decisivo” das legislativas de 2011, como vinha apregoando a RTP, Pedro Passos Coelho tem motivos para estar satisfeito. Porque foi ele o vencedor deste confronto com José Sócrates. O primeiro-ministro mostrou-se, mais que nunca, esgotado e sem ideias neste embate – o seu primeiro de sempre – com o actual presidente do PSD. Tentou reeditar com Passos a estratégia que montou com eficácia perante Manuela Ferreira Leite no debate televisivo das anteriores legislativas. Objectivo: procurar conduzir a discussão para as propostas sociais-democratas, evitando assim o escrutínio ao seu Governo.
Ferreira Leite, em 2009, caiu na esparrela. Passos – que deve ter visto várias vezes o vídeo desse debate – não se deixou enredar na armadilha do secretário-geral socialista. E disse-lhe algumas das frases mais fortes que Sócrates tem escutado desde sempre. “Este foi um governo incapaz e um governo incompetente”, acentuou. Sem se esquecer, desta vez, de aludir aos 700 mil desempregados: “Temos o desemprego mais elevado de sempre em Portugal.”
Sócrates ainda ensaiou o habitual número de ‘animal feroz’. Mas desta vez sem sucesso. Embrulhou-se, uma vez mais, na questão da taxa social única. Aludiu à crise internacional como tentativa de justificar o estado em que o País se encontra, esquecendo que até a economia grega já está a crescer e Portugal deverá ser o único país do mundo em recessão no próximo ano. E regressou a um tema já morto e enterrado, procurando atirar para cima do PSD a responsabilidade do chumbo do PEC 4. Aqui, Passos interrompeu-o sem meias palavras: “Sabe porque é que o PSD não votou o PEC 4? Porque não servia. E porque o senhor falhou o PEC1 e o 2 e o 3.”
A única fase do debate em que o líder socialista conseguiu remeter o social-democrata à defesa foi na questão das posições do PSD sobre a saúde, acusando o partido laranja de pretender acabar com o Serviço Nacional de Saúde “tendencialmente gratuito”, como indica a Constituição da República. Mas Passos acabou por reagir com uma contundência de que muitos não o imaginavam capaz antes deste debate: “Porque é que não tem a coragem de discutir a sua responsabilidade à frente do governo de Portugal num país que chegou praticamente à bancarrota?”
O líder socialista, a partir daí, perdeu margem de manobra: talvez se lembrasse daquele tempo, não muito recuado, em que elogiava Passos Coelho como um bom parceiro para “dançar o tango”. A certa altura já não conseguia melhores argumentos do que acusar o seu adversário de “dizer mal do País” e de “utilizar expressões como bancarrota” no seu discurso político. “O senhor diz mal de tudo”, concluiu.
Era um Sócrates já nitidamente fatigado que se repetia no ecrã – facto que se tornava ainda mais evidente quando era filmado em grande plano. Sem ideias, sem recursos estilísticos, sem o dom da iniciativa, sem capacidade para surpreender. Como, de algum modo, já tivesse interiorizado a derrota eleitoral. A televisão, nesta matéria, pode ser um instrumento cruel. Sócrates, que tantas vezes beneficiou dela, hoje foi sua vítima. O debate terá mesmo sido decisivo. A RTP estava cheia de razão.
………………………………………………………….
FRASES
Passos – «José Sócrates é o primeiro-ministro que mais maldades e malfeitorias fez ao estado social. Foi o primeiro primeiro-ministro que cortou salários na função pública, que mais reduziu as prestações sociais, que elevou os custos do acesso à saúde, diminuindo as comparticipações de medicamentos, que eliminou milhares de abonos de família…»
Sócrates – «As suas propostas rompem com o consenso social na Europa.»
Passos – «Portugal é o único país da Europa que enfrenta uma recessão séria.»
Sócrates – «O senhor é responsável por ter criado uma crise política no nosso país. Essa crise política foi uma completa irresponsabilidade.»
Passos – «O senhor está agarrado ao lugar de primeiro-ministro.»
Sócrates – «O senhor quer combater o desemprego permitindo mais despedimentos.»
Passos – «O engenheiro Sócrates não gosta de ouvir falar dos resultados do seu governo nem dos 700 mil desempregados.»
Sócrates – «Por amor de Deus! O senhor diz sempre mal de tudo, diz mal do País, utiliza expressões como bancarrota…»
Passos – «Não é por amor de Deus. São os factos.»
………………………………………………………….
ADENDA
Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate José Sócrates-Manuela Ferreira Leite da campanha legislativa de 2009.



Óptimo. Enough is indeed enough.
Indeed.
Excelente. O debate e a análise.
Obrigado, meu caro.
Faço minhas as palavras de Jaa.
A minha vénia agradecida, Ana Duarte.
a estratégia de PPC de nunca se desviar das suas ideias foi fundamental para a sua credibilidade, por muito que SOcrates o tentasse desviar.
o discurso de Socrates já está a ficar gasto e velho. Ele devia também apresentar propostas e ideias.
Está a sair o tiro pela culatra.
PPC ganhou alguns votos mas tem de fazer uma campanha sem erros
Este foi um momento de viragem da campanha, Francisco. Em 2009 aconteceu precisamente o oposto ao PSD: o debate Ferreira Leite-Sócrates foi desastroso para a então líder social-democrata, que vinha de uma vitória nas europeias e desbaratou por completo o capital político com uma campanha digna de manual (como exemplo do que não deve ser feito). A partir desse debate, de que saiu como claro vencedor, Sócrates foi somando pontos.
Muito provavelmente, alguns não concordarão com esta (excelente) análise de Pedro Correia. Desconfio quem sejam… Adiante. A verdade verdadeira é que Passos Coelho “cilindrou” José Sócrates. Quanto às eleições, o povo decidirá.
Durante o dia de hoje os blogues mais desbragadamente pró-governamentais permaneceram num magoado e ensurdecedor silêncio, Gonçalo. É outra maneira de se perceber até que ponto o secretário-geral socialista perdeu o debate.
Excelente análise, Pedro. Passos Coelho ensinou a Sócrates uma coisa: nem todos os cidadãos-políticos são banhas-de-cobra…
Sócrates estava nitidamente desgastado, cansado, sem ideias, sem vigor. Transmitiu uma imagem de esgotamento aos portugueses que acompanharam o debate (cerca de milhão e meio). Como pode alguém assim liderar o País durante quatro anos nesta situação dramática de pré-bancarrota?
Está-me a parecer que o vendedor de banha da cobra já esgotou a mercadoria…Ou então o povão já não se deixa enganar pela K7 mil vezes repetida…
Francisco Fernandes
E a mim parece-me que a paciência dos portugueses já se esgotou.
Vi o ‘animal feroz’ com o rabo entre as pernas no final do debate e pensei: ACABOU!
Falta votar. E contar os votos.
Entre alguns habituais jornalistas comentadores, no concurso contorcionista de hoje registei a pérola da noite num debate na RTPN . A moderadora pergunta, quem ganhou o debate? Uma colega jOrNaLiStA saiu-se com esta pérola merecedora de troféu de latão: “Para os PS`s foi Sócrates, para os PSD´s foi Passos Coelho. Ai as novas oportunidades!
Essa sumidade chamava-se La… Palice?
digo aqui aquilo que já escrevi noutros sítios: No debate Passos/Sócrates, consegui ver Sócrates perdido no início e no fim e ainda este colocou Passos a explicar as propostas do PSD. É um feito!
Mas sofri enquanto Sócrates ensaiou o ataque com o sistema de saúde…
Repare, Carlos: Sócrates é incapaz de mencionar uma só medida positiva do seu governo posterior a 2008. Isto diz muito da credibilidade que ele confere ao seu legado governativo.
PPCoelho conseguiu derrubar Sócrates: sobranceiro, irritante e cansado. Contra todas as previsões mostrou-se tacticamente inteligente mesmo nos momentos em que levou “porrada” (saúde) – não dando demasiada importância. Insistiu na incompetência de Sócrates: bancarrota, desempregados e sem estudo/opinião sobre a TSU.
A direita ganhou um Líder.
Este debate teve uma curiosa assimetria: Sócrates começou melhor e foi-se afundando, Passos começou pior e foi crescendo.
Em determinada altura quando os dois tentavam falar ao mesmo tempo, PPC, que tinha deixado Socrates acabar uma exposição, disse: Agora é a minha vez.
Para mim essa é a frase do debate.
Simbolicamente, sem qualquer dúvida.
TEMOS 1º MINISTRO! PEDRO PASSOS COELHO DEMONSTROU BEM QUE OS “POLÍTICOS À ANTIGA E A FORMA ANTIGA DE FAZER POLÍTICA” TEM OS DIAS CONTADOS! CHEGOU A HORA DA MUDANÇA!
Para “termos primeiro-ministro”, como diz, há que votar primeiro. E contar os votos depois.
Promovido como um grande espectáculo este terá sido o campeão das audiências, tal era a expectativa.
Uma expectativa natural – estavam frente a frente os dois candidatos à chefia do próximo governo do país – mas uma grande expectativa em torno das prestações de cada um: de um lado Sócrates, dado como imbatível neste tipo de frentes – um mito, mesmo – e do outro Passos Coelho, dado como o cordeiro às mãos do lobo, com uma trajectória duvidosa neste tipo de desempenhos – que incluía mesmo uma estrondosa derrota perante Paul Portas – e com o estigma dos tiros no pé, que vinha arrastando particularmente desde o arranque da pré-campanha.
Pariu a montanha um rato?
Não, acho eu! Pareceu-me um bom debate: provavelmente o melhor debate e, ainda provavelmente, o pior moderado. Mas o moderador pouco conta para esta guerra! O que conta é que Passos Coelho, contra todas as expectativas – as atrás enunciadas e mais não sei quantas – ganhou o debate em toda a linha, com uma entrada de leão que o embalou para aquilo que o futebolês chamaria uma primeira parte de luxo!
E caiu o mito da invencibilidade de Sócrates no campeonato do debate político, com a tal primeira parte de rastos, no tapete. Tentou reagir a partir do meio do debate recorrendo ao seu único argumento: a cassete. Só que a cassete, de tão gasta, já não funcionou!
Viu-se então um Sócrates desesperado, com uma cara que não escondia a derrota, e já claramente convencido que o seu tempo já passou.
Nunca Sócrates me pareceu tão esgotado como neste debate, Eduardo. Esgotado de ideias também.
Estiveram um para o outro, incapazes des dizer ao país o que irão fazer para o tirar do atoleiro, limitaram-se a atacar-se um ao outro. Mesmo você não conseguiu destacar uma medida anunciada no debate. Mas a aferir pela caixa de comentários toma-se o desejo pela realidade, mas isso não basta. À falta de ideias coloca-se a troika a governar o país…
Na sua opinião, ao que deduzo, perderam ambos. Não me parece que tenha sido assim.
Ver José Sócrates quando o debate caminhava para o fim usar o argumento do “Você diz mal de tudo” diz muito acerca do que lhe aconteceu! Acabaram se lhe os argumentos.
Sócrates estava à espera que a estratégia de mandar perguntas ao adversário em vez de explicar o que quer fazer resulta-se, mas deu-se mal!
Emanuel Santana
De facto, essa do “você diz mal de tudo” representa o grau zero da argumentação política. Nesse momento Sócrates já se tinha apercebido de que perdera o debate.