Junta médica com dislexia mental…


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Mantenho um amigo desde a juventude. Casou, tem dois filhos e continuo amigo deles todos. Um dos rapazes anda actualmente pelos 20 anos. É disléxico. As primeiras dificuldades notaram-se desde tenra idade e os primeiros tempos de escolaridade confirmaram uma dislexia profunda na leitura e na escrita.

A luta dos pais, a boa formação e educação do agregado, foram sempre essenciais. Encontraram muita gente compreensiva e colaborante, mas tiveram de lutar contra muitos professores e contra o Ministério da Educação vezes sem conta,  ao longo dos anos. Apesar de o Jorge ser inteligente e ter sido sempre muito esforçado, não faltaram docentes (imagine-se) a defender a ideia de que, tal como os deficientes motores não se movem como as pessoas saudáveis, também os disléxicos têm de encarar deixar o ensino pelo caminho!

A verdade é que lá foram vencendo cada luta travada e cada processo a reivindicar direitos óbvios. Hoje, o Jorge aceita muito bem a sua fragilidade. Tem sido um estudante bem sucedido, graças à família, aos professores (de português, designadamente, que o foram dando como apto para poder progredir) e ao seu próprio esforço. Está numa faculdade, a caminho de obter um curso de que gosta, certo de que o seu futuro profissional nunca passará pelo domínio de outras línguas.

O Jorge tem uma bolsa de estudo, claro, para a qual foi fazendo prova anual do seu problema limitador e do rendimento académico. O actual governo, que tenta cortar quaisquer benefícios a todo o custo, quis que ele fosse avaliado este ano por uma junta médica. E ele lá foi cumprir a determinação do Ministério da Educação.

Entrou e o primeiro dos cinco médicos presentes a abrir a boca perguntou-lhe:

— Então tem dislexia, não é verdade? E como é que apanhou isso?…

30 comentários em “Junta médica com dislexia mental…”

  1. Bem, João, agora começo a perceber como funcionam certas juntas médicas… Já ouvi histórias verdadeiramente incríveis, mas essa é a mais incrível de todas…

  2. Não posso acreditar que isso não fosse uma piada… o médico estava a fazer-se engraçado. Não teve graça, claro, mas isso é outra história.
    (de qualquer maneira, o que tenho sabido de algumas juntas médicas neste país é uma autêntica anedota, embora de humor negro)

  3. João Carvalho:

    Li, reli e voltei a ler, o que escreveu e muito sinceramente a única coisa que me ocorre é dizer que estamos entregues a uma “corja iluminados” desde o PM até a alguns colegas de trabalho.
    Tudo isto me entristece e deixa revoltado. A questão colocada pelo médico não tem qualificação, (só se tirou o curso na Independente num domingo).
    Triste país este, mas claro situações destas são coisas pontuais, dirão os responsáveis.
    Porreiro, pá!!!

  4. Isto é uma anedota e só como anedota deve ser tomada. Um comentário jocoso por parte do clínico para fazer conversa e empatia ainda vá mas tomar a história pelo que não vale, é tão ridículo como as razões presumivelmente técnicas que são invocadas por alguns funcionários (alguns deles médicos) para recusarem as pretensões dos apelantes.

    Até para batermos no governo temos de o fazer com algum bom senso, senão arriscamos-nos a cair no ridículo e a obter reacção contrária àquela que pretendemos.

      1. Tanta indignação democrática…
        Para além da indignação, algum argumento?
        Fique tranquilo, anotei devidamente e a importância é tanta que o episódio fará parte das minhas memórias.

        1. Argumentos???
          Não seja insolente, Paulo. Aqui não é costume tratar mal seja quem for. Está no seu direito de duvidar, mas seja mais sóbrio, porque falta-lhe qualquer motivo para me desmentir e eu já lhe disse que não brinco com coisas sérias. Nem me daria ao trabalho de desenvolver um texto como o que fiz para contar uma anedota. Ainda por cima entendeu que eu estaria a «bater no governo»: acha que é uma junta médica que nos governa?
          Estamos agora entendidos ou também não percebe à segunda vez?

  5. O Google é uma invenção genial para nós, os disléxicos. Podemos trocar as sílabas à vontade k ele pergunta educadanente: “Será que quis dizer…?”. Por isso uma das mi nhas expressões mais frequentes é JFGI (Just Fucking Google It)

  6. Li o texto e pensei que o palerma do médico tinha tanto jeito para fazer humor e descontrair o ambiente como eu tenho para a física quântica. Li o texto e pensei que o palerma do médico é dos preconceituosos que acham que só uma boa leucemia ou um grande cancro na pâncreas poderão ser motivo de ponderação para dar uma pessoa como incapacitada para determinada função. Li o texto e pensei que muitos dos problemas que temos em Portugal se devem a palermas como este.
    Depois de ler os comentários e as respostas que foi dando não quero acreditar que exista um médico a exercer funções com tamanho grau de incompetência.
    De certeza que ele ouviu bem “dislexia”? É mau demais para ser a sério.

  7. Esse médico faz-me lembrar o Groucho Marx, quando diagnosticou à Margaret Dummond pressão arterial alta no braço direito, e pressão arterial baixa no esquerdo… Faz parte da cultura geral que a dislexia não é uma doença contagiosa, e um médico desconhece esse facto? Mas no nosso país não é necessário ter-se notas altíssimas para passar a medicina? Que tal passar-se a exigir senso-comum. Gostava de saber que cara fizeram os colegas dele.

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