Júlio Isidro: «Canto ópera no duche»


Pedro Correia,

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«Aquela parte [do hino nacional] em que se fala de marchar contra os canhões não me agrada muito. Prefiro marchar contra a mediocridade»

 

É o mais antigo profissional de televisão em actividade entre nós: podemos vê-lo regularmente na RTP Memória, conduzindo entrevistas muito interessantes. Desta vez foi ele o entrevistado: respondeu sem hesitar a todas as perguntas que lhe fiz ao telefone. Sem nunca perder o sentido de humor.

 

Qual foi a maior decepção que sofreu até hoje?

Ter entrevistado a Jamie Lee Curtis, ter faltado a luz durante essa entrevista, ter estado 15 minutos às escuras sem ver a Jamie Lee Curtis e voltar para casa sonhando no que teria acontecido se estivesse às escuras com a Jamie Lee Curtis. Não aconteceu nada.

Gostaria de viver num hotel?

Tive essa experiência durante oito meses, no Porto. Fiquei com a certeza de que nunca quererei repetir a experiência da Beatriz Costa. Um hotel às vezes até parece a casa da gente. Mas não é.

A sua bebida preferida?

Ice tea.

Que número calça?

Depende: 42 em formato normal, 43 em ténis.

Que livro anda a ler?

Leio sempre vários ao mesmo tempo. Estou a terminar A Fórmula de Deus, de José Rodrigues dos Santos: aquilo não é um livro, é uma arma de arremesso, que pesa cerca de meio quilo! Leio também as Confissões de uma Liberal, de Maria Filomena Mónica, um livro de crónicas de António Lobo Antunes, e Bocage – A vida apaixonada de um genial libertino, de Luís Rosa.

A sua personagem de ficção favorita?

Lili Caneças.

As aparências iludem?

No caso vertente, não.

A sua cor preferida?

É o azul, apesar de ser sportinguista dos pés à cabeça.

E a música da sua vida?

Sem dúvida Bridge Over Troubled Waters, de Simon e Garfunkel.

Costuma cantar no duche?

Canto trechos de ópera e canções napolitanas.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Gosto do hino. Mas aquela parte em que se fala de marchar contra os canhões não me agrada muito. Prefiro marchar contra a mediocridade.

Que pecado capital pratica com mais frequência?

Objectivamente, a preguiça. Sou um preguiçoso frustrado. Gostava de não fazer nenhum.

Gosta de gravatas?

Gosto muito. Tenho imensas.

Com quem gostaria de jantar?

Primeiro convidem-me. Depois direi se aceito.

Qual o seu maior sonho?

Jamais conseguirei concretizá-lo, porque estou casado e sou feliz: era estar casado e ser feliz com a Sigourney Weaver.

O maior pesadelo?

Imaginar que os presidentes dos Estados Unidos podiam candidatar-se a um terceiro mandato.

O que o irrita profundamente?

Irrita-me a atitude “intelectual fresca” daqueles que me olham como se eu nunca tivesse lido em toda a minha vida outra coisa além do Tio Patinhas.

Em equipa que ganha não se mexe?

Mexe-se. Convém estar atento: nada se mantém sempre a ganhar.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Tratando-se do automóvel, gosto de conduzir. Na vida, adoro que me conduzam.

Casamentos gay: de acordo?

Estou de acordo com as uniões de facto gay.

Um exemplo de mulher bonita na política?

Em termos internacionais, a Ségolène Royal. A nível nacional, Teresa Caeiro: é muito bonita e tem muita graça natural.

O que faria se fosse milionário?

Dava a volta ao mundo com a minha família num avião particular. E organizava o maior campeonato do mundo de aeromodelismo. Muito privado, só meu.

Acredita no paraíso?

Acho que sim, desde que não seja um voo charter para a República Dominicana. Definitivamente, a República Dominicana cheia de charters não é um paraíso.

Tem um lema?

Aguenta-te, Júlio.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (14 de Julho de 2007)

4 comentários em “Júlio Isidro: «Canto ópera no duche»”

  1. Grande Júlio Isidro!
    Sempre correctíssimo, gentilíssimo, com uma postura irretocável.
    Os anos (e o currículo!) não o tornaram nem um pouco arrogante, ou condescendente, ou “o chato de serviço”. Pelo contrário, sempre esbanjando um entusiasmo genuíno e inteligente.
    Grande “persona publica”!
    Longa vida, Júlio Isidro!

  2. Júlio Isidro: o maior descobridor de Portugal a seguir ao Vasco da Gama e ao Pedro Álvares Cabral.
    E é mesmo verdade: ele descobriu e lançou nos seus programas inúmeros artistas, quase todos muito bons.
    Cresci a vê-lo na tv, a preto e branco e depois a cores.
    E mais recentemente, voltou a fazer aquilo em que é exímio na RTP-Memória: boas entrevistas, boas conversas, a espalhar conhecimento e memórias, sempre com simplicidade, charme e muito sentido de humor.
    Gostei muito desta entrevista e só espero que ele tenha mesmo descoberto o elixir da eterna juventude – pelo menos é o que parece…
    🌿🍂
    Maria

  3. Sábia resposta: Irrita-me a atitude “intelectual fresca” daqueles que me olham como se eu nunca tivesse lido em toda a minha vida outra coisa além do Tio Patinhas.

  4. O Júlio Isidro é um ícone da nossa televisão.
    Dezenas de profissionais de todas as áreas do entretenimento devem a carreira ao Júlio Isidro.
    E ler Tio Patinhas ensina muitas coisas também. Tem lá também um Mancha Negra.
    Grande entrevista, Sr. Júlio Isidro. Next!!

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