
Há cerca de 30 anos, José Miguel Júdice ia a Macau com a Espaço T Magazine dar uma volta pelo mercado publicitário e, claro, aproveitava para “entrevistar” o então governador, contra-almirante Almeida e Costa (a quem ele chama repetidamente naquela revista Almirante Almeida Costa). Mão amiga acaba de me fazer chegar esse número da publicação, que remonta aos meus primeiros tempos dos 12 anos que passei em Macau.
«Este número especial de “Espaço T Magazine”, resultou em grande parte do meu desejo de conhecer pessoalmente Macau» — escreveu José Miguel Júdice à laia de editorial. «Como director da melhor revista portuguesa, posso considerar-me inserido na classe média alta, tendo por isso rendimentos que me permitem suportar o custo de uma viagem ao Oriente» — disse ele com a reconhecida modéstia que ainda hoje o caracteriza, ciente de que para pertencer à classe média alta não basta apenas ter classe, mas também é preciso ter pelo menos 1,75 metros de altura.
Não espanta, por isso, o pesar que Júdice manifesta logo de seguida: «Infelizmente, as viagens a longa distância por avião não estão à disposição de todas as pessoas» — por acaso sempre estiveram à disposição de todos, mas alguns preferiam ir a pé, por não gostarem de voar — «mas os que constituem a classe média alta da Europa (directores, técnicos especializados, gerentes, agentes de vendas, médicos, advogados, etc.) podem perfeitamente concretizar uma viagem ao Extremo-Oriente.» Lá está, a tal classe média alta: advogados, pois claro, e directores das melhores revistas portuguesas, digo eu, mesmo os que se esquecem de datar as melhores publicações.
Júdice conclui o pequeno texto a confessar que foi sugestionado pela «magia de Macau», mas logo tranquiliza o leitor: «Estou certo de que a minha tradição racional de europeu me permitiu o necessário equilíbrio.»
Uma evidência escusada, está bom de ver. Já haveria alguém há 30 anos capaz de negar a tradição racional de José Miguel Júdice e o imenso equilíbrio da “entrevista” laudatória ao governador Almeida e Costa?

Alguém sabe dizer-me se este Júdice da classe média alta com a revista então instalada em Lisboa no chiquíssimo Palácio Sottomayor é o mesmo que precisou de um lugar camarário baratucho na capital a fim de instalar um restaurante de luxo que alguns insistem que devia ser um espaço destinado a indigentes?

Desse negócio do restaurante, não sei. Ouvi falar numas coisas, mas não tenho informação bastante. Mas sei que este Júdice, que mais tarde fez de dono da Ordem dos Advogados, é um acérrimo defensor de que o “ónus da prova”, nos casos de enriquecimentos ilícitos, deve pertencer ao Estado, e que esse ónus nunca, por nunca, deve ser “invertido”. Será por isso que dizem que ele deve estar rico e que o não quer é ter chatices?
Nisso do ónus pertencer ao acusador ele é capaz de ter razão. Já do resto, vá lá saber-se. Neste país sempre houve quem ganhasse muito em tempo recorde.
Ou “vá-se lá saber”?
É “vá lá saber-se”, embora quase toda a gente diga como V. diz. O reflexo, no caso, pertence ao verbo “saber”. O que está em causa não é ir (vá-se), mas saber (saber-se).
Ainda há pessoas que não sabem que o JC é um mestre em língua portuguesa. E em outras línguas, claro…
🙂
«por acaso sempre estiveram à disposição de todos, mas alguns preferiam ir a pé, por não gostarem de voar»… ah, como se conhece tão bem o país onde se vive… ou terá sido por onde andar em Macau?
Nem uma coisa, nem outra. As viagens, todas as viagens, sempre estiveram (e estão) à disposição de de todos, de toda a gente. É só comprá-las e pagá-las…
«É só comprá-las e pagá-las»: pois. Esse é (era ainda mais há 30 anos!) o problema para muitos e muitos portugueses.
Exactamente por isso é que eu escrevi com ironia que «alguns preferiam ir a pé, por não gostarem de voar». Capice?
Está bom de ver que Júdice pertence à classe média. Enfim, média alta. Quer dizer, ligeiramente mais alta que a média, mas, mesmo assim, média. Classe alta, ele? Nem pensar!!! Classe alta são o Bill Gates e o Warren Buffett. Ele, Júdice, pertence apenas à modesta classe média. Alta.
Correcto e afirmativo.
Foi assim que ele começou a empochar…
Em zonas para a classe média alta pouco conflituais…