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«A esquerda nunca conseguiu resolver o problema do nacionalismo»
Liguei-lhe pensando que talvez não estivesse receptivo a responder a inquéritos como este, exigindo resposta ao telefone, em cima da hora. Enganei-me. O criador de canções inesquecíveis, como Inquietação ou Eu Vim de Longe, entrou no jogo – mas à sua maneira, dando a volta a várias perguntas. Marca autoral nos mínimos pormenores: assim era José Mário Branco, falecido a 19 de Novembro de 2019.
Tem medo de quê?
Dos meus defeitos.
Gostaria de viver num hotel?
Não.
Porquê?
Gosto de ficar em hotéis esporadicamente. Mas a gente não vive em hotéis: vive em casas.
A sua bebida preferida?
Água. Passe a publicidade, água de Monchique. Por motivos de saúde, devido ao meu PH elevado.
Tem alguma pedra no sapato?
Não. Quando se é criador não se pode ter pedras no sapato.
A propósito: que número calça?
42, 43.
Que livro anda a ler?
Os Contos Maravilhosos, de Hermann Hesse.
Tem muitos livros à cabeceira?
Costumo ter três ou quatro. Não para serem lidos todos ao mesmo tempo, mas para serem lidos em sequência. Gosto de ter sempre um livro pronto a ser aberto.
Às vezes deixa um livro a meio?
Às vezes deixo.
A sua personagem de ficção favorita?
Demian, de Hermann Hesse.
Rir é o melhor remédio?
Para o fígado, sim.
Lembra-se da última vez em que chorou?
Não. Quando choro por qualquer coisa a minha preocupação é esquecer.
Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?
De conduzir.
É bom transgredir os limites?
Não. Às vezes é necessário mas nunca é bom.
Qual é o seu prato preferido?
Você está a falar com alguém que anda em dieta rigorosa e não pode comer praticamente nada daquilo de que mais gosta…
Hum… Falemos então em abstracto…
Adoro cozinha regional portuguesa.
De alguma região em especial?
Sobretudo do Norte.
E aprecia algum prato de dieta?
Um bom peixe escalado.
Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?
A preguiça.
A sua cor preferida?
O azul.
Costuma cantar no duche?
Não. Como é evidente, pois a minha profissão é cantar. Não é no duche que aqueço as minhas cordas vocais.
E a música da sua vida?
Foi Por Ela, do Fausto.
Sugere alguma alteração ao hino nacional?
As instituições do Estado e tudo quanto representam, incluindo o hino e a bandeira, são símbolos de uma sociedade iníqua e injusta contra a qual tenho lutado toda a vida. Não tenho qualquer respeito nem pelas instituições nem pelo que elas representam.
Parece-lhe bem a actual bandeira nacional?
A esquerda nunca conseguiu resolver o problema do nacionalismo. Anda desde 1848 a proclamar «Proletários de todos os países, uni-vos!» Isto implicava resolver a questão do nacionalismo, que nunca foi resolvida e que tem provocado alguns dos maiores desastres da humanidade.
Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?
O meu pai disse-me certa vez uma coisa muito sábia: quando admiramos muito um criador ou um político, devemos fazer os possíveis por não os conhecermos pessoalmente.
As aparências iludem?
Completamente. As aparências são a cara da ignorância.
Qual é a peça de vestuário que prefere?
Calções de banho.
Qual é o seu maior sonho?
Que haja bom senso suficiente para fazer a revolução.
E o maior pesadelo?
É deixar-me arrastar pela mediocridade.
O que o irrita profundamente?
O pós-modernismo.
Qual a melhor forma de relaxar?
Ver um jogo de futebol e adormecer a meio, com o verde em fundo.
O que faria se fosse milionário?
Comprava casas para os mais próximos e fazia uma fundação para promover as artes.
Casamentos gay: de acordo?
Completamente.
Uma mulher bonita?
Ingrid Bergman.
Acredita no paraíso?
É o que eu vivo todos os dias com os meus netos.
Tem um lema?
Pode ser o título do meu último disco: Resistir é vencer. Que foi o lema da resistência timorense.
Entrevista publicada no Diário de Notícias (20 de Novembro de 2010)

Mto Bom – “Qual é o seu maior sonho?
Que haja bom senso suficiente para fazer a revolução” – Um dos maiores de Portugal_ José Mário Branco.
Viva, José Manuel. Devo confessar que me soube muito bem revisitar esta entrevista, desenterrada dos meus arquivos.
Só lamento não tê-la reproduzido aqui há mais tempo, com ele ainda vivo.
Um abraço.
ok.
“Que haja bom senso suficiente para fazer a revolução” – Um dos maiores de Portugal_ José Mário Branco.”
Por outras palavras usar a violência para coagir o outro a não ser o que é…
pois, o costume.
Estou a apreciar sobremaneira esta tua série, Pedro (tens algo de obsessivo compulsivo na tua personalidade, certo? :))
Creio que esta entrevista foi a minha favorita. Aquilo das aparências, por exemplo, é sublime. Digo eu, que nunca tive ídolos, mas obviamente admiro um bom punhado, ou dois, de gente
Obrigado, Alexandra. Um elogio teu, que és muito comedida nesta matéria, tem ainda mais valor.
“tens algo de obsessivo compulsivo na tua personalidade,”
Se isto é um elogio? Vou ali já venho..
Há muito maluco assim…
Típico dos “malucos”: chamar isso a outros.
Dos “malucos” e dos asnónimos.
Frontal e directo, como sempre.
Gostei das escolhas literária e musical.
Faz cá muita falta, mas ninguém parece reparar nisso… 🙁
🌿🌼
Maria
Fica a música. Que o imortaliza.
Uma pessoa de quem se gosta. A cantar e a falar. Parece uma personalidade cativante. Em mim continua presente.
Cresci a ouvir as músicas dele.
Para além de tudo o mais o que gosto mesmo é da irritação dele.
Também eu.
Gostei muito, sobretudo das ideias sobre os ideais, que nunca enfraqueceram.
Tem a mesma noção de paraíso do que eu e o mesmo tipo de postura sobre muitos dos jogos de futebol televisionados :). Next!
Muito interessante a resposta sobre transgredir os limites.
E excelente paraíso! Embora eu nem sequer tenha filhos, achei uma magnífica resposta.
Uma entrevista que foi ganhando intensidade e acutilância, resposta após resposta. Percebi melhor agora, ao revisitá-la.
Qual é exatamente o título deste artigo no DN de 2010? Muito obrigado.
Vem neste recorte, inserido no Arquivo José Mário Branco: spot.com/2010/12/quem-fala-assim-jose-ma rio-branco.html nl.pt/content/ligacoes-relevantes
http://transatlantico-viajante.blog
https://arquivojosemariobranco.fcsh.u