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«É fundamental transgredir os limites. Aquilo que julgamos impossível diminui-nos, ri-se de nós»
José Luís Peixoto, um dos escritores portugueses mais celebrados nestas duas primeiras décadas do século XXI, fala um pouco como escreve. Com frases pausadas, que por vezes são verdadeiros aforismos, e um peculiar sentido de humor, talvez surpreendente para alguns. Tive ocasião de perceber isso quando o interroguei ao telefone. O resultado é este que podem (re)ler.
Tem medo de quê?
De mim.
Gostaria de viver num hotel?
Não, apesar de actualmente já costumar passar grande parte do meu tempo em hotéis. Caminhar à noite no corredor de um hotel pode ser uma experiência muito solitária. Ao fim de algum tempo, as miniaturas de sabonete acabam por perder o aroma. Pessoalmente, preferiria viver numa casa com jardim e netos.
A sua bebida preferida?
Prefiro sumo de laranja. Não entendo esse hábito muito divulgado entre nós de beber álcool socialmente.
Porquê?
Eu, nas raras vezes em que bebo álcool, é para me embebedar.
Tem alguma pedra no sapato?
Uso botas. As pedras têm muita dificuldade em entrar.
A propósito: que número calça?
43.
Que livro anda a ler?
Os Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, entre alguns outros.
Costuma ter muitos livros à cabeceira?
Tenho sempre livros a rodear-me completamente. Por dentro e por fora.
A sua personagem de ficção favorita?
Lena Grove, de A Luz de Agosto, de William Faulkner.
Rir é sempre o melhor remédio?
Depende da maleita. Em casos de pedra nos rins, duvido que resulte.
A despropósito: lembra-se da última vez em que chorou?
Foi no fim de semana passado. Chorei de felicidade.
Confesse lá: gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?
Gosto de andar de mão dada, como namorados.
É bom transgredir os limites?
É fundamental transgredir os limites. Aquilo que julgamos impossível diminui-nos, ri-se de nós.
Qual é o seu prato preferido?
Sushi.
Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?
O pecado capital que pratico com mais frequência é a luxúria. Ainda assim, acho que não a pratico com a frequência desejável.
A sua cor preferida?
Fúcsia.
Porquê?
Por causa do nome.
Costuma cantar no duche?
Sim.
Onde mais?
Também no trânsito e, ao telefone, com as pessoas que costumam ligar com regularidade a oferecer promoções.
E a música da sua vida?
Here I go again, dos Whitesnake. E mais umas mil.
Há quem sugira que o hino nacional deve ser alterado. Qual é a sua opinião nesta matéria?
Preferia que o hino nacional me sugerisse uma alteração a mim.
Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?
Gostaria de jantar com Barack Obama, obviamente.
As aparências são capazes de nos iludir?
É o que me aparenta.
O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?
Um verdadeiro cavalheiro nunca responde a perguntas sobre o seu cavalheirismo, insinuando-se implicitamente como um verdadeiro cavalheiro.
Qual é a peça de vestuário que prefere?
Piercing no mamilo.
Qual é o seu maior sonho?
É grande. Dura à volta de umas três horas.
E o maior pesadelo?
O pesadelo é ainda maior do que o sonho. Às vezes, depois de acordar, ainda continua.
O que consegue irritá-lo profundamente?
Irritam-me as pessoas que ficam a olhar no momento em que se está a pôr o pin do multibanco. Afinal, porque é que o fazem? Vão-nos assaltar a seguir ou é mera curiosidade? É algo que me ultrapassa.
Qual a melhor forma de relaxar?
Um abraço.
O que faria se fosse milionário?
Se fosse milionário pensava em coisas que não penso agora e teria, com certeza, muito mais preocupações do que tenho hoje.
Casamentos gay: de acordo?
É um pedido?
Olhe que não… Mudando de assunto: uma mulher bonita?
A minha.
Acredita no paraíso?
Sim. O paraíso é como uma lâmpada que tem mau contacto. Acende e apaga. Às vezes pode ficar acesa durante muito tempo. Outras vezes apaga-se e parece que nunca mais se vai acender.
Tem um lema?
Não tenho um lema, tenho vários.
Entrevista publicada no Diário de Notícias (6 de Fevereiro de 2010)

Muito, muito bom!
Mas eu sou suspeita, pois adoro o JLPeixoto.
Ele passou aqui pela cidade em Dezembro/2002 (Livraria Alma Azul, da Elsa Ligeiro, mesmo ao lado do Praça Velha).
Chegou um pouco atrasado (vinha de Viseu, salvo erro) e muitos já se tinham ido embora. Éramos poucos mas bons 🙂 e ficámos imenso tempo a conversar.
No fim ele autografou-me seis livros (todos já lidos) com dedicatórias e desenhos diferentes: enfim, um charme.
Lembro-me que foi por causa dele que comprei o Rayuela do Cortázar e que fiquei fã de um escritor que não mais deixei de ler [e o Pedro fez o resto com a sua série dos Contos :-)] .
Fiquei feliz com o sucesso (bem merecido) que ele alcançou em Portugal e no mundo; e do que tenho visto e lido, ele continua a ser igual ao jovem que conheci há 18 anos: simples, simpático, sem vedetismos idiotas, como acontece com tantos pretensos escritores que por aí pululam.
Muito obrigada por este presente de Natal.
🎄🎅
Maria
Grato pela partilha do seu testemunho, Maria. Confesso que também me soube bem revisitar esta entrevista.
Outras irão seguir-se. Espero que despertam interesse também.
Afiado e cortante.
E muito espontâneo, garanto.
Um escritor de que gosto muito. Sou fã do tipo de escrita e tenho lido todos os livros.
Nada peneirento, nada arrogante, muito acessível. Ao contrário de tantos outros.
A sério, este fenómeno de toda uma certa gente querer jantar com o Obama começa a ter contornos psicanalíticos.
Olá V.
Estava mesmo à espera que viesse aqui dizer isso…
Mas reparou que ele tem um sentido de humor muito peculiar?
Bom Solstício & Boas Festas!
☃️🎄
Maria
Quando falamos de personagens femininas lembramo-nos sempre dos clássicos: Fedra, Electra, Alcestre, Medeia e Antigona, etc., de Euripedes, Sófocles Séneca… Quando falamos de modernos lembramo-nos de Cordelia, do Rei Lear, de Shakespeare; de Matilde, do Vermelho e o Negro, de Stendhal; de Emma, do Madame Bovary, de Flaubert; e de Sónia e Dunia, do Crime e Castigo, de Dostoievski. Contudo ninguém fala de Lena Grove, do A Luz em Agosto, de Faulkner. Sem dúvida uma das personagens mais fascinantes da literatura moderna, que escapa ao cânone clássico da arte idealista (do espírito absoluto), como a designou Hegel, e que o levou a anunciar o fim da arte, com pesar, e, Nietzsche, com regozijo.
Numa época de discussão tão conturbada como a que vivemos, onde temas como Igualdade de género, racismo, fascismo, xenofobia, História, parentalidade, liberdade…, seria muito interessante analisar o papel da arte através da caracterização e evolução das personagens femininas na literatura ao longo da História. E, para
começo das hostilidades, porque não começar por Medeia e Antigona, Emma Bovary e Lena Grove? Ou a estética segundo Hegel e Nietzsche?
Tudo isto vem a propósito da escolha da personagem de ficção favorita de José Luís Peixoto.
Excelente comentário, a justificar destaque.
Obrigado, Pedro.
Gosto do JLP. Não é escritor de me tirar o sono, mas lê-se bem.
Com o sumo de laranja e os Whitesnake ( que preferia quando eram os Deep Purple) ganhou pontos. Este questionário foi fácílimo para JLP. Next!