José Cutileiro – In Memoriam


João Pedro Pimenta,
Entre outras qualidades havia duas que apreciava particularmente em José Cutileiro: tinha, tal como eu tenho, um tipo de escrita com frases longas e adjectivadas (embora lamentasse não usar muitas vezes o artigo definido) e escrevia os magníficos obituários do Expresso, o espaço In Memoriam, amiúde de figuras excêntricas de que nunca antes tinha ouvido falar, ou de que não saberia à altura que tinham morrido se não os tivesse lido. O último saiu precisamente ontem, com destaque para Iris Love e Little Richard, o criador da célebre Tutti Frutti.

Cutileiro era formado em antropologia e destacou-se como diplomata (sem ser de carreira), exercendo cargos de relevo na Comissão de Paz para a Jugoslávia, uma missão quase impossível, onde nfelizmente as suas ideias para a Bósnia não vingaram, e como secretário-geral da UEO. Para além dos cargos oficias, mantinha colunas nos jornais e na rádio, como a supracitada ou o Visão Global, da Antena 1, e claro, as da personagem A.B. Kotter (que influenciaria outros cronistas-fantasma no futuro, alguns ainda em actividade), recolhidas na colectânea Bilhetes de Colares.

É muito estranho pensar que nos deixou o autor dessa necrologia de elite, embora já me tivesse ocorrido quem os faria quando ele por sua vez partisse. Esperemos que o espaço não fique em branco para além da próxima semana. E também quem fará o epitáfio jornalístico do próprio Cutileiro. Seja quem for, não será a mesma coisa.

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2 comentários em “José Cutileiro – In Memoriam”

  1. Aquando da guerra da Bósnia, tive, em Roma um colega da Erzegovina (Dragan Filipovic’) que, para além dos estudos que partilhávamos, e de uma grande amizade (para mais tínhamos por cá um futebolista homónimo e ele me dizia ser eu o único colega que sabia pronunciar bem o seu nome…) fazia viagens para a sua terra conduzindo camiões com ajuda, nomeadamente de medicamentos. Um dia disse-me: “temos muita esperança num senhor português – “Cutilher”, assim pronunciava ele – que vai assumira condução das conversações de paz”.
    Foi a primeira vez que ouvi falar de José Cutileiro, Embaixador, pois o apelido apenas me apontava para um artista conhecido. Fiquei orgulhoso e, não sabendo exactamente qual o seu papel no desfecho do conflito, uma coisa é certa, ele terminou pouco tempo depois.
    Quando ouvi a notícia da morte dele, pensei: um dos poucos que não nos deixaram mal… mas já ninguém falava dele. Senti-me grato pela sua obra nomeadamente pela esperança que semeara no coração daquele meu colega Filipovic’ (acentuem a primeira sílaba…)

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