O problema? Sentir o pulso do país com os dedos da capital é um erro crasso. Muitos jornalistas e fotógrafos ficaram em Lisboa e aguardaram a vitória daquele que seria, ouvi dizer amiúde por aí, um presidente do PSD que iria tornar “a cena mais divertida”. A cena é a cena política.
Um militante de Viseu conta-me que votou no Rui Rio por saber que este não se coibirá se fazer governo com o Partido Socialista e que isso é um regresso à forma antiga, antes das maiorias Cavaco e de Sócrates, e o fim da chamada geringonça.
O facto de os militantes terem trocado a volta aos jornalistas deu origem a alguns incidentes sem relevância e a perplexidade estendeu-se gloriosamente até às direcções de órgãos de comunicação social. Facto consumado, a vida anda para a frente. Há uma tragédia em Tondela e a maioria dos jornalistas a trabalhar em Lisboa interroga-se: Tondela? Perto de Coimbra? Não, distrito de Viseu. E lá vão à cata de como contar a história, tal como fizeram com Pedrogão Grande cuja localização seria, para muitos, igualmente desconhecida até aos incêndios.
Conhecemos o nosso país através da comunicação social mais generalista e com maior impacto ao nível nacional. Existem terras e terrinhas sobre as quais nunca ouvimos falar e, consequentemente, militantes de partidos vários que desconhecemos. A realidade da política é distinta.
Não é o Pacheco Pereira a pontificar na televisão ou os 30 segundos de discurso crispado na Assembleia da República. O mundo faz-se de outra forma quando é visto com olhos que não os de um lisboeta. Não é um problema do jornalismo, é um problema de todos nós.
O que consideramos normal e adequado em Lisboa pode ser o inverso para a realidade do Samouco ou de Marco de Canaveses. Os exemplos são mais do que muitos e convém não esquecer que a capital, ou o Porto, reflectem apenas os gostos e atitudes, comportamentos e vontades de uns tantos, não da totalidade.
Os jornalistas aceitaram a vitória de Rui Rio com espanto, mas já estão a organizar-se. As pessoas a norte não se surpreenderam grandemente. Santana Lopes não percebeu nada.

Certeiro.
O ignorante provincianismo do “jornalismo” lisboeta…
Provavelmente não será só um problema dos jornalistas que estão nos grandes centros urbanos (Lisboa e Porto), também é bem capaz de ser um problema geral, quando digo geral refiro-me ao facto de se perder a noção de realidade quando não palpamos, calcorreamos, essa mesma realidade, realidade essa que passa por sair dos gabinetes (no caso dos políticos) e perceber que algumas leis que são implementadas não estão de acordo com a realidade que habita nas ruas deste país.
Nunca acreditei, e continuo a não acreditar que, fosse Santana Lopes, seja Rui Rio, algo vá mudar no PSD. São dois políticos já com muitos vícios instalados e quando os vícios existem e fazem questão de também persistir, ficará tudo na mesma como a tal da lesma. Para que mudanças existissem, para que uma lufada de ar fresco se fizesse sentir no PSD, teria que ter passado por outros rostos, por outras posturas. Não necessariamente mais novos em idade, apenas ideias novas, formas de pensar novas…
O PSD até que precisava de uma “cena mais divertida” – não falo de Santana Lopes, obviamente – pese embora o facto de ser só divertido não chegar, terá que ser antecedido por algo mais sério. Bem mais sério.
Jornalistas militantes conforme o vento que sopra no convés do acampamento.
Tondela? Perto de Coimbra? Não, distrito de Viseu.
Ser do distrito de Viseu não implica que não fique mais perto de Coimbra.
Castelo de Paiva fica mais perto do Porto, mas é do distrito de Aveiro.
Chaves perto da Galiza? Não, em Portugal no Distrito de Vila Real.
Os erros que a Patrícia atribui aos jornalistas lisboetas são, na verdade, extremamente vulgares entre a generalidade da população lisboeta. Eu diria que 80% dos lisboetas não conhecem nada do país a norte de Lisboa. Só conhecem Lisboa, o Alentejo e o Algarve. Todo o Centro e Norte de Portugal são ilustres desconhecidos para a grande maior parte da população de Lisboa.
Ora nem mais. Só não consigo deixar de ficar inquieto com a ideia final de que os jornalistas “(…) aceitaram a vitória de Rui Rio com espanto, mas já estão a organizar-se”. A organizar-se para quê? Para lhe fazer a folha? Tudo isto soa a algo corrupto e incorrecto.