Jorge Silva Melo: a chamada que nunca fiz


Pedro Correia,

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Foto: Jorge Gonçalves

 

Aconteceu-me há anos com Raul Solnado, volta a acontecer-me agora. Com Jorge Silva Melo, falecido esta semana. Dois homens que gostaria de ter entrevistado. Por algum motivo, nunca calhou. 

O meu desencontro com o encenador teatral, actor e realizador agora desaparecido, com apenas 73 anos, é ainda mais imperdoável. Porque tinha o número do telemóvel dele, um amigo comum facilitara-me o seu contacto, mas por aqueles imponderáveis que nos fazem adiar coisas importantes acabei por não lhe ligar quando estava decidido a isso. Agora já será tarde.

Queria dizer-lhe o que deixo escrito aqui. Li com deslumbramento um livro dele intitulado Século Passado, editado em 2007: considero-o um dos melhores livros de memórias redigidos no nosso idioma – muito bom, logo a começar no excelente título. Mesmo não tendo sido escrito com a intenção deliberada de funcionar como registo confessional: é uma recolha de textos publicados na imprensa. Mas cada um, afinal, serve de capítulo dessa autobiografia não assumida.

Pelo estilo literário, pela sábia narração de histórias polvilhadas de mil leituras cruzando a ficção e o real, pelo tom de amena cumplicidade com o leitor sem a menor concessão à vulgaridade ou ao falso coloquialismo, Século Passado é um livro que merecia muito mais do que os elogios esparsos que foi escutando, alguns sob a suspeita de virem de gente amiga.

 

Eu nunca conheci Jorge Silva Melo. Sabia ter fama de feitio difícil, dizem-me que viveu os últimos anos ensimesmado e recolhido. Mas as crónicas dele – que li sobretudo no Público – pareciam raios de luz, trespassadas de vitalidade mesmo quando nubladas de nostalgia. Se as lêssemos com a atenção devida, cada uma delas ensinava-nos a escrever. Tal como as de Paulo Varela Gomes, tão cedo desaparecido. 

Abro ao acaso Século Passado, amplo volume de 534 páginas, tropeço em trechos como este: «Ele havia Salazares, a Pide era mesmo ao lado do São Luiz, a censura não estava longe, mas aquele foi um dia rasgado, puro e limpo, o dia sob a ditadura em que vi os Verdes Anos.» Numa crónica justamente intitulada «Paulo Rocha: Verdes Anos, filme da minha vida».

Rasgado, puro e limpo: de algum modo isto define também a sua escrita. Aliás ele prestava tributo desassombrado ao adjectivo. Como neste outro trecho que aqui transcrevi há mais de seis anos: «Teria eu lido o Gatsby, se Fitzgerald não lhe tivesse aposto o Great? A Enseada, se não me perguntasse por que é que Abelaira lhe chama Amena? O Anjo, não fosse ele Ancorado? As Palavras, não as anunciasse Maria Judite como Poupadas? O Dia, não o pintasse Mário Dionísio de Cinzento? Como veria eu o mundo da colonização se Shakespeare não o entrevisse “admirável” (brave) e “novo” (new)? Teria eu sido tingido pela soturnidade e pela melancolia de Lisboa/Cesário se o desejo de sofrer não fosse subitamente absurdo?»

 

Dele também conheço um livrinho que congrega textos inéditos irmanados com recolhas de crónicas, em que se inclui uma das mais belas declarações de amor ao cinema que alguma vez li. É um ensaio intitulado «E a vida que nos filmes deixaram», originalmente publicado num catálogo da Fundação Calouste Gulbenkian (1987). Indispensável a qualquer amante da Sétima Arte e, mais genericamente, aos apreciadores da arte de representar.

Este livro, Deixar a Vida (Cotovia, 2002), levou-me a trazer aqui o seguinte destaque: «Ao contrário do teatro, em que os anos do palco “ensinam” a vida da arte, e onde os actores que são grandes envelhecem em sabedoria e graça, poucos são os actores que, no cinema, tenham aprofundado a sua maneira de representar. Tal como começam, assim se vão. E entre a Bergman do Intermezzo e a da Sonata de Outono, não sinto o mesmo que vai entre o jovem Gielgud e aquele que fez No Man’s Land de Pinter.»

 

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Gostei tanto do Século Passado que tomei a liberdade de lhe extrair uma frase para um livro meu que publiquei em 2015, intitulado Presidenciáveis.

Regresso a esse excerto que me serviu de epígrafe: «Não é este um país em que a ironia permita subir aos mais altos postos, em que a ironia tenha um reconhecimento público evidente. O sarcasmo sim, o humor talvez, mas não esse doce cepticismo, essa suave insinuação, esse incerto optimismo.»

Nada mais singular, nada mais verdadeiro.

 

Mesmo não o conhecendo, senti a obrigação de lhe ligar, já com o livro nas mãos, para lhe oferecer um exemplar. Os acasos da vida acabaram por adiar esse contacto, agora para sempre. Tantas vezes nos acontecem coisas destas. Em momentos de balanço, acabamos por lamentar o que podíamos ter feito e não chegámos a concretizar.

Falta-me conhecer outra obra dele que mantenho à cabeceira: A Mesa Está Posta – outro título feliz. Verifico agora: já a tenho desde 2019. Trouxe-a da Feira do Livro de Lisboa, a última pré-pandemia, quase parece ter vindo de outro mundo.

É esta a força maior da literatura: pôr-nos a dialogar com gente que já não está aqui. Como Jorge Silva Melo, a quem fiquei a dever aquele telefonema que jamais lhe fiz.

22 comentários em “Jorge Silva Melo: a chamada que nunca fiz”

  1. Há frases num primeiro livro que levam a ler toda a obra de um autor até então desconhecido. Aconteceu-me com Julian Barnes, depois de ler em «Nothing to be worried about» (título delicioso para um livro sobre a morte e a eternidade), escrito pelo punho desse ateu e homem bom, isto: «A fúria do ateu ressuscitado, esse sim, seria um espectáculo digno de ser visto». De Jorge Silva Melo guardo o encanto e surpresa do Anfitrião e Alcmena, do grupo de teatro de letras, e um pequeno anúncio a «E não se pode exterminá-los», uma pequena maravilha inesquecível: Jorge Silva Melo encostado a um candeeiro, olhando a câmara, e suspirando por fim: «Aaah, o futuro já não é o que era». São coisas assim que…
    Um abraço, caro vizinho

    1. As memórias são assim, meu caro vizinho: umas puxam as outras. Todas juntas, compõem o retrato de uma época.

      Este desencontro com Jorge Silva Melo deveu-se em grande parte à pandemia. Que nos tolheu durante os malfadados dois anos que ficaram para trás – sobretudo quando tínhamos de contactar pessoas mais velhas, como era o caso.
      Durante uns tempos largos, não tive o contacto dele.
      Depois, faltava-me um exemplar adicional do livro para lhe oferecer (hoje volto a não ter nenhum comigo além dos dois que fazem parte do meu espólio e receio que a editora já tenha incinerado as sobras em armazém, seguindo uma péssima prática vigente, sem sequer me ter informado disso).
      Seguiu-se o pesadelo do coronavírus que nos reduziu ao mínimo os contactos sociais, e por motivos acrescidos qualquer contacto com pessoas não conhecidas.

      Enfim, restam-me as memórias dos excelentes textos dele que acompanhei durante largos anos como leitor atento. Perguntando-me sempre por que motivo não seria mais valorizado do que foi.
      Razão acrescida tenho para continuar a perguntar isso agora, embora já não sirva para nada.

      Um abraço.

  2. Muito bonito este este texto, Pedro.
    Uma homenagem sentida e comunicada com aquele sentimento de culpa, que quer queiramos, quer não, está sempre na mochila que carregamos connosco.
    Achei fantástico o título da autobiografia (não autorizada por assim dizer).
    Como és um homem da imprensa, proponho este título para a tua autobiografia (daqui a muitos anos, claro):
    “Século prensado”.
    A minha terá um nome semelhante:
    “Século pensado”.
    Dir-me-ás:
    – Escolheste esse nome por seres um homem de pensamento?
    – Não. É tudo colado com pensos rápidos, daí o pensamento.
    (fica o comentário e uma tentativa de homenagem à ironia de Jorge Silva Melo, que a terra lhe seja leve)

    1. Não, o «Século Passado» não é uma Autobiografia.
      Na Nota Final do livro, Jorge Silva Melo escreve:
      «Pois é, este pode parecer mas não é um diário, são só os dias de festa, os centenários, mortes, casamentos, é um calendário privado mas sazonal, mas também foi assim que vivi e vivo.
      O diário, não o fiz.
      Nem juntei os textos sobre os Artistas Unidos, meu sarcófago móvel. Nem aqui juntei o que sobre teatro também fui escrevendo, e sobre os amigos de todas as manhãs. Fica para depois.
      Vou vivendo e, feliz, trabalhando. Sobre isso, ainda não sei escrever.»

      1. Por isso lhe chamei um livro de memórias.
        Se lhe quisermos pôr um rótulo – e eu dispenso-os – será esse, acima de qualquer outro. Porque aqui desfiam-se memórias, desfilam memórias de tempos que até os contemporâneos já esqueceram.
        É um luxo, este livro. Compensa-nos de tanto lixo que por aí anda.

    2. É algo que nos falta, Pedro. A ironia. Como escreveu JSM naquele trecho que seleccionei para epígrafe do meu livro.
      Ao invés dos ingleses, cultores da ironia, sobra-nos o sarcasmo. Característica que as chamadas “redes sociais” vêm acentuando.
      Enquanto a ironia pode ser criativa, o sarcasmo costuma ser estéril. Pelo menos aquele que por cá se pratica com mais frequência.

      Agradeço-te a sugestão de título. As minhas memórias ligadas ao jornalismo (que se estendem por quatro décadas) estão em parte já publicadas aqui.
      O resto há-de ser recriado como ficção, num livro que tenho “escrito” na cabeça.

      Abraço.

  3. Muito bom! A aguçar o apetite para ir comprar uma dessas obras. Confesso que conheço mal a escrita de Jorge Silva Melo.
    Obrigado, um abraço.

    1. Quem goste de saber o que se ia lendo e ouvindo e vendo numa certa época, na camada mais letrada da burguesia lisboeta dos anos 50 a 70, sobretudo, tem aqui um manancial. Gosto de pessoas com biografia. Jorge Silva Melo era uma dessas pessoas.

  4. quando o realizador de cinema brasileiro Stefan Wohl veio a Lisboa para contratar Raul almoçamos juntos
    juntamente com Manuel Cavaco conversámos largamente no GOL
    não sou nem aprecio a área, mas conheci Stefan, judeu de Viena de família de banqueiros de origem Polaca.
    viajou na Urss de vagon atulhado de gente e regressou em1ª classe
    ‘é a vida !’

      1. a última vez que vi Raul foi no Bairro Azul frente à Mesquita
        disse-me sou filho dum funileiro
        não sei estava a brincar
        não me interesso pelo ponto de partida, mas pelo de chegada

    1. Encontra no mercado de segunda mão – ou das sobras que andam por aí, a preços mais que módicos.
      Foi assim que comprei ‘Deixar a Vida’ e ‘A Mesa Está Posta’.
      O ‘Século Passado’, comprei-o no pavilhão da Cotovia de uma Feira do Livro de Lisboa. Em estado novo (passe o trocadilho).

  5. agora desaparecido, com apenas 73 anos

    Apenas nada. É uma idade muito boa para se morrer. Em vez de se ficar por cá uma eternidade a viver à custa dos outros. Aos 73 anos, já se fez basicamente tudo o que se tinha para fazer neste mundo.

  6. Fiquei mais descansado ao ler aquele parágrafo dizendo que os adjectivos também têm direito à vida, quanto mais não seja nos títulos de livros que caso contrário seriam pouco lidos.

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