Hoje. Não pela muito fresca mas depois de o corpo ter descansado o suficiente e a alma estar mais enxuta para aproveitar o fim-de-semana enquanto não nos tiram também esse prazer, já que de direitos estamos conversados, encetei a tarefa hercúlea de fada do lar empedernida e providenciar para o lar e suprir as faltas. Rumo ao supermercado, encontro-me com um povo façanhudo e mal disposto, nem um sorriso, as almas vazias e os passos automatizados. Os supermercados podem ser locais muito deprimentes, tanto mais deprimentes quanto mais casais às compras. Há alturas em que a solidão pesa menos e a solidão a dois pesa sempre mais. Infinitamente mais. Na fruta ouço alguém chamar João, anda cá. Vejo aproximar-se uma criança sozinha, entre os três e quatro anos. Põe-se à minha frente com uma alface dentro do saco. A mãe repreende-o e fala-lhe como se tivesse vinte anos, de tom seco e indiferente. Essa senhora estava à tua frente. Tens de esperar. Sorrio-lhe e digo Deixe estar. Não faz mal, enquanto o João do alto dos seus quatro anos mal medidos se estica num esforço sobre-humano para conseguir que a ponta do saco chegue ao balcão. A mãe assiste, longe, impávida. Que se desenvencilhe. Nem um sorriso, nem uma ajuda à criança. Um iceberg falante. Volto a encontrá-los no peixe. A criança aparece depois de ser chamada mais uma vez, procura conforto na mãe de braços cruzados, hirta e impassível, e tenta enrolar-se-lhe nas pernas. Choraminga Mãe, tou cansado. A mãe continua de braços cruzados. A criança intensifica a súplica de atenção Mãe, colo! A mãe continua de braços firmemente cruzados. A criança não lhes chegará assim. Um alívio portanto. Menos uma preocupação. A criança não desiste Mãe, colo, tou cansado! Começa a chorar. Suplica-lhe Mãe, dói-me as costas. Quando dá uma volta vejo-lhe os olhos marejados de lágrimas e soltam-se em cascata dos olhos escuros, tão escuros agora. A mãe retorque-lhe algo e mantém os braços cruzados como se se defendesse de um fardo de quatro anos que reivindica atenção e que tem a veleidade de se cansar num supermercado num Sábado de manhã. Uma mulher com uma criança ao colo lança-lhe um olhar deprimido, não suficientemente forte para que seja de reprovação, suficientemente maternal para que se lhe subentenda a incompreensão. Tanta indiferença. Quanta frieza. A criança chora sozinha. Ninguém diz nada. A mãe recolhe o peixe. Espeto-lhe um olhar e sei que o sente porque me olha de volta. O João choraminga. O João poderá chorar e suplicar a atenção a que qualquer criança deve ter direito. A mãe, essa, permanece de braços cruzados e olhar glacial. Hirta e gélida. A indiferença mata. Morro de pena do João. Chega de supermercado.
Também aqui.

Há mulheres que nunca souberam o que é serem mães.
Como há filhos que não merecem as mães que têm.
A tua história impressionou-me muito porque conheço casos desses.
Crianças e velhos são seres indefesos que estão totalmente à mercê daqueles de quem dependem.
Fiquei angustiada o resto do dia, Helena. Não consigo entender um comportamento assim e acho que nem nunca tinha presenciado tanta frieza e tanta indiferença! Fiquei a perceber por que é que alguns miúdos são tão carentes.
Leonor,
Este acontecimento foi num local público. Imagine o que será em casa…
E daqui a uns anos despejam-nos nos psicólogos e psiquiatras e jamais se lembrarão destas (más) acções.
A cidadania de um povo passa outrossim, pela forma como se educam as crianças e cuidam dos idosos.
Nem imagino, José. Fiquei mesmo incomodada. Ao contrário de outros episódios de falta de educação das crianças, neste caso ele não foi mal educado. Estava apenas a pedir carinho e atenção. Não entendo as pessoas.
Tenho assistido nos supermercados a algumas cenas desagradáveis.
Agora que se foram os milhões vem ao de cima a brutalidade.
Como esta ainda não. Assisto a faltas de educação e as pessoas a serem inconvenientes mas a esta olímpica indiferença foi a primeira vez.
Dá vontade de conhecer as histórias que estarão por detrás dessa história.
Independentemente das histórias, uma criança de três ou quatro anos nunca poderá ser culpada, não achas? Que impressão que me fez e eu nem sou nada maternal.
Compreendo perfeitamente a sua angustia, Tenho disso nas minhas relações. Essas pessoas tem filhos como outras têm cães – são bonitos, fieis, mas às vezes são uns chatos.
Em relação aos animais é comum, por isso os abandonam quando se tornam chatos ou dispendiosos. Mas, se, de facto, também se abandonam os idosos, por que razão as crianças hão-de ser poupadas? Triste. Muito triste.
..muito triste, mesmo. fiquei com um aperto na garganta ao ler isto… (e também não sou maternal…)