Já não há cavalheiros


Pedro Correia,

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Chego ao multibanco para levantar dinheiro, já com o cartão na mão. Da direcção oposta surge uma senhora quase ao mesmo tempo. Cedo-lhe a vez, estendendo o braço na direcção dela.

Sem o menor gesto de agradecimento, abre a mala, tira de lá a carteira, abre-a e recolhe o cartão acompanhado de um papel. Depois põe os óculos de ver ao perto e contempla o papel com meticulosa atenção.

Enfia o cartão na ranhura e tecla uns números que me parecem intermináveis. Algo falha na operação, que volta ao princípio. Sai cartão, entra cartão, novo exame minucioso ao papel.

E tudo falha outra vez. A senhora pega então no telemóvel, numa aparente tentativa de falar para alguém. Arrisco então perguntar-lhe:

– Não se importa que eu avance? Preciso apenas de levantar dinheiro, são só alguns segundos.

Mostra enfim ter-se apercebido da minha presença. Sem me olhar limita-se a dizer, em tom ríspido:

– Vai ter de aguardar pela sua vez.

Depois de falar, mirou-me enfim, de sobrolho franzido, como se pensasse: “Já não há cavalheiros.”

E se calhar pensou mesmo.

66 comentários em “Já não há cavalheiros”

  1. Desculpe-me o insulto, mas o senhor fez figura de parvo (como eu às vezes faço).
    As culpadas são as “blocas”. A sua cruzada para a igualdade dá nisto.
    Haja também igualdade na má-educação.
    Para a próxima já sabe. Mete o cartão à pressa à frente da “gaja” e ela que espere.

    1. “As culpadas são as “blocas”.” A observação é muito inteligente mas eu discordo.As culpadas são as do partido que eu não gramo.

  2. Que idiota! pensou a pessoa do sexo feminino. Não a posso chamar de senhora, pois isso seria elevá-la a uma categoria à qual dificilmente ascenderá.
    Quanto a si, meu caro senhor, um bem haja por ser tão cavalheiro. Tomara eu ter a sorte de me cruzar com gente tão educada, para ter o prazer de responder: “agradeço a atenção, mas vou demorar.”
    Maria Lopes

  3. A mim acontecem coisas parecidas tanto com velhas como com novas. Uma que me irrita é nas portas. Paro e a mulher, nova ou velha, passa sem dizer obrigada ou fazer uma ligeira vénia ou, pelo menos, olhar para mim. Chego a abrir a porta (por exemplo em restaurantes) e elas entram como se eu não existisse.
    Ultimamente tenho usado outra táctica: paro, obstruindo o caminho, e a gaja ou me contorna ou choca comigo (qualquer contacto físico com mulheres, mesmo mal educadas e desconhecidas, agrada-me muito). Se houver contacto a responsabilidade é dela pois eu estou parado. Geralmente contornam-me, por vezes com um olhar (este caso já olham) furibundo. Eu sorrio.

  4. Infelizmente, tenho com muita frequência de esperar mais tempo do que gostaria, em caixas de supermercado, devido à mania que muitas pessoas, sobretudo as mulheres, têm de pagar tudo com multibanco. Perco muito mais tempo da minha vida aí do que nas caixas multibanco propriamente ditas. O problema é que, para além do tempo que as próprias transações multibanco demoram, há ainda os enganos com os cartões e os códigos. Um pagamento que em notas e moedas se faz num minuto, com multibanco pode demorar dois ou três.

    1. É boa, eu com Multibanco pago com muito maior rapidez do que com moedas. Não há que procurar, que contar nem há trocos. Já nem falo no pay wave.

  5. A mim já me aconteceu coisa similar uma vez, mas foi com uma mulher que tinha uma data de cartões multibanco com ela e estava a fazer operações sucessivas com eles. Tirava um cartão da máquina, arrumava-o na carteira, da qual tirava outro cartão, e assim sucessivamente.
    O multibanco é uma coisa muito boa, mas usada em excesso torna-se um horror.

    1. Já me aconteceu várias vezes. Interrogo-me sempre por que motivo as pessoas só no preciso instante em que vão pagar se lembram de abrir a carteira e tirar de lá o cartão.
      Quando acontece comigo tenho sempre o cartão na mão no momento de pagar. Poupo tempo. E não faço mais ninguém perder tempo também.

      1. O problema nem é tanto, a meu ver, o só abrirem a carteira no momento em que vão pagar. O problema é que, além disso, têm que escolher qual o cartão com que vão pagar e têm que se esforçar por se lembrar se esse cartão está ativo ou não e qual o seu código PIN. Frequentemente vejo pessoas a tentar pagar com um qualquer cartão e depois a terem que o substituir por outro, ocasionalmente por um terceiro ou quarto.

  6. Acontece-me amiúde no trânsito, ceder passagem quando não era obrigado e nem um cumprimento. Por outro lado, quando me cedem a mim a passagem muito mais vezes acontece com homens do que com mulheres, mas isto provavelmente porque a % de homens a conduzir será superior à das mulheres.

  7. É por estas e por outras que eu sou contra as quotas.
    Ou serão as cotas?!
    Sim, neste caso concreto, aposto que é duma cota que se trata.
    Uma cota que, dos tempos passados, para além da memória, guardou também a mania das grandezas ou a cor azul do sangue.
    É mais isso.
    De resto, a base em que assenta a grande maioria dos comentários aqui expressos é uma falsa questão.
    Há muito que as mulheres jovens se libertaram desses atavios.
    E, quando têm os comportamentos aqui recriminados, não é por serem mulheres, mas por simplesmente serem mal educadas.
    Como qualquer homem.

    1. Careful with what you wish for — dizia um filósofo Andorrenho (não sei se é assim que se escreve mas Andorrento parece-me bem pior).

  8. Eu, muito por deformação profissional, abro portas, dou passagem, agradeço, dou lugar nos transportes públicos… enfim , um suposto cavalheiro no feminino. Já me aconteceu deixar avançar uma pessoa mais pré-histórica do que eu numa ATM, mas quando sacou de uma data de recibos, pedi desculpa, apliquei ligeira carga de ombro e avancei.
    Já aconteceu estar quase 15 minutos com um táxi a contar e estar alguém a pagar interminavelmente o IMI!!!
    Não se trata de falta de cavalheirismo, educação ou boas maneiras, mas por vezes não há pachorra que sustente a bonomia.

    Moral da história, não foi parvo, otário ou palerma , Pedro. Foi gentil, mas os óculos da Senhora eram para ver ao perto…

  9. “Porco machista” já levei, mas ao telefone.
    Telefonema de número privado (nunca mais os atendi) a pedirem para falar com a dona da casa, eu não servia.
    Perguntei qual o assunto: que não tinha nada com isso porque “é o marido mas não é dono dela” (sic).
    Com alguma boa vontade tentei explicar que se fôsse ao contrário a pergunta também seria feita, aqui ninguém é “dono” de ninguém.
    Deligaram mas nem cheguei a saír de ao pé do telefone, a mesma pessoa volta a ligar e diz-me “é só para lhe dizer que você é um porco machista”.

    Ao vivo só malcriadão, de 3 “senhoras” com ar respeitável espetadas num passeio exíguo a conversar e toda a gente a ter que ír para a estrada, não fui nem disse nada, fiquei ali especado e mudo junto delas até “perceberem”.
    Lá me deixaram passar mas não imaginaram que tivesse “ouvido de tísico” com esta idade, portanto voltei atrás a pedir-lhes para o repetirem na minha cara, minha mulher divertidíssima.

    No último sábado entro num dos elevadores dos “Armazéns do Chiado” que partem da Rua do Crucifixo para ír à FNAC como vou quase todos os dias.
    Entra só uma “senhora” comigo, carrego para o piso 4 e pergunto delicadamente para que piso ela quer ír (só os pisos 4, 5 e 6 estão abertos ao público).

    Responde-me “Meta-se na sua vida que não tem nada a ver com isso” e, na minha frente, carrega no piso 5 (afinal tinha…).
    Quando saí ainda lhe ía eu a confirmar alto e bom som que de facto “o melhor que eu devia ter feito era estar-me cagando para si” (sic).
    De tal modo que um dos vigilantes (que me conhecem e me falam) veio ver o que se passava.

    Eu é que sou burro pois aqui as mulheres cá da família (e ao meu Amigo já contei como, cada uma à sua maneira, são bem “tesas” no dia-a-dia mas não dispensam estes pequenos gestos) dizem-me sempre que não vale a pena eu armar-me em cavalheiro.

    Curiosamente vejo muita rapariga ali entre os 25 e os 35 anos ficar agradada, pelo que não vou desistir mas vou ser selectivo nas idades!

    No trânsito então é notável.
    Creio ter-lhe contado que minha mulher chegou a entrar em provas de competição semi-amadoras e até guiou um Fórmula 1 numa corrida “a brincar” aqui há uns 35 anos.
    Ainda hoje guia muito bem e depressa mas só cede passagem a homens ao volante, diz ela que a mulheres nunca cede porque nunca agradecem.

    Uma última nota.
    Há dias um sujeito pôs-se a fazer várias operações numa caixa multibanco (desta vez foi “um” e não “uma”).
    Ía dizendo “está quase” e nada de parar com aquilo.

    Isto até que o que estava atrás de mim se identificou como “autoridade” com um cartão que não vi e lhe disse que, havendo uma fila, só podia fazer não sei quantas operações (não ouvi o número) e tinha que dar a vez ao seguinte.
    Não sei se assim é nem como se poderá impôr “a lei” sem levarmos um polícia connosco se assim fôr, mas que o outro se foi logo embora lá isso foi.

    Se alguém conhecer o assunto agradeço me esclareça pois há dias que não há nada como uma boa discussão na caixa do MB para nos pôr logo bem dispostos!

    Abraço amigo

    1. O seu comentário é uma verdadeira crónica, meu amigo. Que só reforça aquilo que escrevi.
      Sinal dos tempos: eis as mais elementares regras de boa educação e civilidade a perder-se com uma rapidez estonteante.
      Há gente – demasiada gente – que não cumpre os mínimos. Como o meu caro acentua, e muito bem, essa gente até é de gerações mais velhas, que teria a obrigação de cumprir normas elementares de boa convivência.
      Como também refere, acabamos por encontrá-las junto de gente mais nova, às vezes de forma até muito surpreendente.

  10. Não é de agora. Há uns 20 anos numa tabacaria pedi para me fotocopiarem umas 200 paginas, chegou uma mulher com umas 5 ou 10 páginas, vendo que demorava ela pediu-me se deixava passar à frente porque eram poucas páginas. Deixei. As 5 a 10 páginas de repente passaram 50 páginas ou mais pois mais tirava da mala. Fartei-me e disse ao funcionário da tabacaria para parar e voltar às minhas fotocópias. Ficou furiosa, mas mesmo assim tal não a impediu de tentar o jogo da sedução. Debalde.

  11. De facto não é novidade que a boa educação e gestos de cavalheirismo comecem a ser raros e quando acontecem regra geral não são reconhecidos.
    Mas são sinais dos tempos o que não significa que não haja gente bem educada e praticante da gentileza e simpatia.

  12. Fez bem em dar passagem, as pessoas mal educadas serão sempre mal educadas. O mote comportamento gera comportamento é a minha filosofia, nem sempre dá frutos é verdade.

  13. Um labrego – no caso, labrega – continua a ser um labrego, mesmo que conduza um BMW, ou tenha um fato da Sacoor… ou como quem diz: “Podes tirar o miúdo do bairro, mas não tiras o bairro do miúdo”.

  14. Caro Pedro,

    Como representante do sexo feminino lamento profundamente não ter tido a sorte de se deparar com uma senhora que merecesse esse gesto de cavalheirismo. Mas questiono-me: se se tivesse deparado com uma senhora assim teria sabido dar-lhe a devida importância, como deu a esta?
    De mais para mais, a falta de educação é a atitude predominante, são raros os casos de pessoas com atitudes nobres. Louvo-o por ser assim.

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