Já li o livro e vi o filme (98)


Pedro Correia,

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A PROMESSA (1957)

Autor: Bernardo Santareno

Realizador: António de Macedo (1972)

Um texto dramático que fez furor na época, como metáfora de opressões várias no Portugal salazarista, manteve o seu impacto neste filme, onde brilha uma deslumbrante Guida Maria.

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  1. Não li o livro nem vi o filme, por isso caro Pedro desculpe este comentário. Mas, sobre este autor, se me permite, do pouco que li, sublinho o que disse: é plena de metáforas, mas sobretudo um retrato da realidade portuguesa da época. Recordo os dois livros que dele li, um texto dramático «O lugre» e uma outra de contos «Nos mares do fim do mundo», ambos baseados sobre o mesmo assunto, a epopeia lusitana da pesca ao bacalhau na segunda metade dos anos ’50, onde o autor prestou serviço como médico.

    Se me permite:

    «’Os Comunistas’
    A rede está suspensa no castelo da proa. E muitas das suas malhas mostram-se cheias de certos peixes pequenos, dum encarnado fresco e verdadeiramente agradável: são os «comunistas», no dizer dos homens.
    Salpicam ainda o convés, aos centos, de mistura com graciosos blocos de gelo e com as negras ágeis dos pescadores.
    Que peixes mais decorativos! São como flores: camélias ou rosas.»

    In: SANTARENO, Bernardo. «Nos mares do fim do mundo : (doze meses com os pescadores bacalhoeiros portugueses por bancos da Terra Nova e da Gronelândia» .1ª ed]. Lisboa : Ed. Ática, 1959. p. 115

    1. Agradeço-lhe a citação que aqui nos trouxe, António. Também li ‘O Lugre’, há muitos anos.
      Estranhamente, Santareno deixou de ser lido – e sobretudo deixou de ser representado – de há uns tempos a esta parte. Já esteve muito na moda, deixou pelos vistos de estar. Lamento, porque é um dramaturgo que merece ser conhecido. E merece sobretudo ver as suas obras encenadas.

      1. Eu, caro Pedro, por necessidade fiz uma leitura paralela das duas obras que referi, o que acaba por ser complementar, pois os contos acabam por completar o drama. Em ambas, retratando um meio masculino duro que era a pesca do bacalhau, da escrita deste autor conseguiu retira com extrema delicadeza a sensibilidade e dureza que estes homens encerravam em si.

        Tem razão naquilo que diz é pena que assim aconteça, pois provavelmente terá sido o principal dramaturgo português do século XX.

        P.S.: Se o Pedro gosta de cães, tem que, forçosamente, ler o pequeno episódio que sobre eles fala «Nos mares do fim do mundo»: real, trágico e profundamente sensível e comovente!

        1. Agradeço-lhe a pista de leitura, António. É uma das vantagens deste intercâmbio permanente no blogue com os leitores: aprendemos sempre alguma coisa uns com os outros.

  2. Li o livro, vi o filme e assisti, penso que em 1972, à rodagem de algumas cenas na minha Terra – a Gala, por essa altura ainda uma aldeia de pescadores. Nessa época, a Gala pouco mais era do que uma rua, que vai da antiga Estrada 109, agora Rua doze Julho, quase até ao Mar, já na Cova, antes das dunas, que a separam do areal da praia.
    A Gala está bem situada. Fica do lado sul da foz do Mondego, para quem vem do norte, logo a seguir ao remate da Ponte dos Arcos.
    A PROMESSA

    Obra original: “A Promessa” de Bernardo Santareno
    Adaptação: António de Macedo
    Realizador: António de Macedo
    Produção: Centro Portugues de Cinema
    Produtores associados: António de Macedo, Tobis Portuguesa e Francisco de Castro
    Director de produção: Henrique Espírito Santo
    Assistentes de produção: João Franco e Monique Rutler
    Fotografia: Elso Roque
    Director de som: João Diogo
    Operador de som: José de Carvalho
    Música: popular portuguesa
    Registo musical: Michel Giacometti
    Sonoplastia: Hugo Ribeiro
    Misturas: António de Macedo e Hugo Ribeiro
    Montagem: António de Macedo
    Assistente de montagem: Clara Diaz-Berrio
    Exteriores: Palheiros da Tocha, Tocha, Figueira da Foz, Buarcos, Gala, Cova
    Estúdios: Tobis Portuguesa
    Elenco: Guida Maria (Maria do Mar), Sinde Filipe (Labareda), João Mota (João), Luís Santos (Pai), Maria (Joaquina), José Rodrigues Carvalho (Mário), Fernando Loureiro (Cigano), Francisco Machado (Padre Couto), Celeste Alves (Intriguista), Luís Barradas (Cigano), Fernanda Coimbra, Grece de Castro, Agostinho Alves, João Lourenço, António Maia
    Sinopse
    José e Maria, habitantes de uma aldeia de pescadores, fizeram um voto de castidade, num acto de desespero, para tentar salvar o pai de José que pescava num dia de tempestade. Mas Labareda, um cigano acolhido pelo casal após ter chegado à aldeia ferido, irá pôr à prova o seu celibato “forçado” e, consequentemente, a sua fé.
    Crítica
    Como diria Leitão Barros, a haver uma indústria de cinema em Portugal, António de Macedo seria dos poucos a conseguir fazer carreira, e a prová-lo está este filme A Promessa. A produção, os cenários e os (por vezes exagerados) “artifícios” técnicos colocam-no ao nível da produção média internacional da época, não sendo por isso de estranhar que este tenha sido um dos filmes mais vistos do Cinema Novo. Facto curioso, uma vez que é também o filme (ou o autor) que mais se afasta dessa nova geração, fazendo prevalecer uma visão industrial e um experimentalismo técnico em detrimento das preocupações sociais e de identidade que moviam os restantes autores.
    A acção, tal como no Mudar de Vida de Paulo Rocha, desenrola-se numa típica aldeia de pescadores, mas ao contrário do primeiro não tenta fazer o retrato de uma sociedade maioritariamente pobre e sem esperança no futuro, mas explora a questão da influência quase nefasta que a religião exerce sobre um povo ignorante. Todo o filme tem, por isso, uma espécie de aura esotérica que vai de encontro aos interesses do próprio autor, que se diz anarco-místico. Para tal, contribuem o uso da cor, do nevoeiro, de planos em câmara lenta e de uma certa representação mais teatral, ou como diria António de Macedo, mais melodramática, porque o povo português é melodramático. Porém, não se deve aqui confundir teatral com artificial, pois à excepção de um certo exagero na interpretação de um dos ciganos – que torna os diálogos quase imperceptíveis de cada vez que intervém – estamos perante um bom trabalho de actores, infelizmente tão raro nos filmes portugueses deste período. Também merecedora de destaque é a fotografia de Elso Roque que, em consonância com o misticismo de António de Macedo, proporciona momentos de grande interesse, como na poderosa cena da violação ou a pictórica cena final.
    A Promessa, talvez por não corresponder aos ideais traçados pelo Cinema Novo (mas não só), não está entre os melhores filmes da época. Mas, uma vez mais, António Macedo demonstra uma grande ousadia, quer ao nível do tema quer ao nível da técnica, sendo por isso um importante contributo para o cinema nacional.
    Do ponto de vista da arquitectura, este filme tem quase um valor histórico e etnográfico, pela forma que nos dá a conhecer um tipo de aglomerado já extinto.

    1. Obrigado pela achega que aqui nos trouxe, muito a propósito, caro António Agostinho. Conheço bem a Gala, onde em tempos cheguei a ir de propósito comer a raia de que tanto gosto ao ‘Carrocel’ (ainda existirá?). A minha mãe era natural da Figueira, terra onde me sinto como se fosse minha também.
      ‘A Promessa’ é um dos melhores filmes portugueses da década de 70. Um filme que tem resistido ao teste do tempo. E António de Macedo, felizmente ainda entre nós, é um cineasta de que gosto muito.

      1. O RESTAURANTE CARROSSEL ainda existe no mesmo local: Largo dos Pescadores, na Cova, mesmo antes de se começar a ligeira subida que nos conduz ao enorme largo engº. Aguiar de Carvalho, mesmo em frente ao areal da praia e ao imenso mar, local onde tantas estórias felizes vivi e tenho para recordar dos meus tempos de criança… Aquele horizonte, que se perdia lá longe, longínquo, no mar da minha Aldeia, é das memórias que se sempre me prenderam ao meu torrão natal…
        Um abraço

          1. Se me permitem,
            apesar de ser do outro lado da ponte:

            «COIMBRA C

            Peregrinos à distância de um passadiço,
            uma praia que se atravessa, das escadas em pedra
            à areia ao fundo, pedacinhos de concha
            e madeiras, depois o ínfimo promontório
            onde chegam as águas, o chão
            frio, seguro, edificável. Do relógio
            à bandeira amarela-verde
            uns poucos minutos de antecipação,
            as nossas pequenas tendas listradas à marinheira,
            ainda me lembro da consistência do seu tecido
            e da sua sombra, uma aldeia quase sem classes.
            Coimbra C, um mundo afável como nenhum outro
            conheci, a sexualidade de escassas estrangeiras,
            uma toalha à parte, nos toldos
            as brandas famílias desaprovavam ou divertiam-se,
            nada se passava ali, não sei do que falavam, nem
            uma única conversa ficou. Era a continuação de um tempo
            antigo, sem História, a pacatez
            que nos imprepara para a vida,
            comunidade de vizinhos, habitués,
            famílias sazonais que de um ano para o outro.
            A minha infância e primeira
            adolescência cresceram ao sol temperado
            desses fins de manhã, tardes a meio,
            acampamento de conhecidos, gente de vista,
            de visita, ninguém sozinho, todos segundo
            uma tradição. E o nosso posto estendia-se por afinidade
            quando alguém da nossa década ou do nosso
            grupo contava uma história,
            uma curiosidade, um segredo inócuo
            que ainda hoje não sabemos.»

            MEXIA, Pedro – Uma vez que tudo se perdeu. 1ª ed. Lisboa : Tinta-da-China, 2015. p. 53

  3. Orgulho-me de ter em António de Macedo um amigo e um mestre – foi também graças a ele que editei o meu primeiro livro, inserido numa colecção que ele coordenava. Ele é actualmente a figura tutelar da «comunidade portuguesa de FC & F» (autores, divulgadores, leitores), e, mais do que felizmente ainda estar entre nós, continua extremamente activo, com vários projectos que frequentemente não se concretizam mais cedo porque do «lado institucional» (Estado e empresas) raramente vêm respostas adequadas, e isto quando vêm de todo… Tem um novo livro publicado, «A Provocadora Realidade dos Mundos Imaginários», que, Pedro, permito-me recomendar como uma próxima «Sugestão: um livro por dia» aqui no Delito de Opinião. Livro que, obviamente, não obedece ao AO90, que tem em António de Macedo outro dos seus mais aguerridos opositores.

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